A ‘ALMA’ PODE SER REDUZIDA A FENÔMENO MECANICISTA
Sunday, May 10, 2009 2:18:27 AM
PARTE I
Escolhi o título primeiro por que alma tem um significado no entender vulgar e toda literatura romântica, de onde tudo provêm: Os sentimentos mais nobres e altruítas, o substrato primeiro de onde nasce o amor e o ódio. Nas religiões é tida como uma criação por um ser superior e a qual é intangível, fonte primária e ao mesmo última.
Um corpo sobre a qual a alma se responsabiliza pela variedade de sentimentos que são categorizados como bons e maus. Dependendo do livre arbítrio através do qual o homem escolher seu caminho, este ’ser superior’ e onisciente julgará merecedor de vida eterna e paraíso ou infernos e danações horrendas. O onisciente sabedor do futuro e com sua eterna bondade não faz com que todas as almas sejam boas e todos os homens seja felizes e tenham vida eterna em júbilo. (!). Bem, mas é outro caso.
O fato é que enquanto a teologia não dá conta de seus próprios paradoxos e contradições, a ciência tem instrumentos que evidenciam que todo sentimento desde o mais nobre e mais cruel tem mecanismos que são explicados, e controlados pela bioquímica e pela fisiologia cerebral.
Alma, amor, paixão, emoção estas palavras tantas vezes ditas e tantas vezes exploradas em folhetins novelescos, tantas vezes repetidas em frases e canções pra fins diversos, se revela vazia de significados. Se para cada indivíduo o amor é distinto e varia pra cada emoção sentida, ele é igualmente repleto de insiginificância.
Durante o percurso que vou tomando no texto, vou fazendo referências de termos eminentemente técnicos e embora eu não seja um biólogo, não vejo de outra forma discorrer neste assunto sem cair no relativismo sentimental e imprecisões de conceitos como alma, amor, ‘essência’ no sentido mais transcedente que é dado a isto com toda contaminação mística que toma vários assuntos quando cada um dá sua interpretação. Vejo isso completamente desnecessário pois basta recorrer a fontes honestas e de caráter científico para que o conhecimento torne acessível a qualquer um, especialista ou não. Nada melhor do que entender um mínimo de biologia e acho que todos os cientistas quando estudam a mente têm como ponto de partida os conceitos neurofisiológicos, bioquímicos e físicos já muito bem definidos.
Segundo Descartes:
“Eu não sei de nenhuma diferença entre as máquinas que os artesãos fazem e os diversos corpos que a natureza por si só compõe, a não ser esta: que os efeitos das máquinas não dependem de mais nada a não ser da disposição de certos tubos, que devendo ter alguma relação com as mãos daqueles que os fazem, são sempre tão grandes que as suas figuras e movimentos se podem ver, ao passo que os tubos ou molas que causam os efeitos dos corpos naturais são ordinariamente demasiado pequenos para poderem ser percepcionados pelos nossos sentidos. Por exemplo, quando um relógio marca as horas por meio das rodas de que está feito, isso não lhe é menos natural do que uma árvore a produzir os seus frutos”
O mecanicismo parte de axiomas ou leis de causa e efeito bem conhecidas através de interações diretas de seus constituintes desde os mais elementares até os infinitamente grandes. (A física moderna se iniciou assim).
Pela idéia central que parte o reducionismo a de que podemos reduzir alguns fenômenos de um certo tipo a fenômenos de outro tipo, podemos dizer que a biologia se enquadra nesta idéia. Seus fenômenos físicos são a causa primitiva, enquanto que as bioquímicas, neurofisiológicas são as derivadas. Decorre que de certa forma a epistemologia dos fenômenos biológicos, pode ser reducionista também. Mas partirei do conhecimento anterior ou mecanicista.
O que tem isso a ver declarando que a alma e o amor também pode ser mecanicista? O amor como “proveniente de uma alma amorosa” assim como qualquer sentimento, como ódio, ira, vingança e outros “pecados”* são fenômenos exclusivamente do cérebro ou pra ser mais especifico, da mente e por conseguinte objeto de estudo das ciências biológicas.
É de conhecimento que existem processos que independem de significados subjetivos. Um destes processos não necessariamente existem fora do sujeito como o são os mecanismos dos fenômenos naturais e por conseguinte determinísticos. Há um domínio de significados no próprio homem que independe de cultura. Este mecanismo que se revela é a própria mente.
Sou dos que acreditam no monismo ou seja, não é possível existir uma mente e um corpo que são indissociáveis e por este motivo coerentemente, não posso acreditar em almas. Não faz nenhum sentido pra mim.
“(…)O psicólogo Paul Bloom, outro defensor da visão da ‘religião como subproduto’, ressalta que as crianças têm uma tendência natural para uma teoria dualista da mente. A religião para ele, é um subproduto desse dualista instintivo. Nós, seres humanos, sugere ele, especialmente as crianças, somos dualistas por natureza.
Um dualista reconhece a distinção fundamental entre matéria e mente. Um monista, ao contrário, acredita que a mente é a manifestação da matéria_o material do cérebro ou talvez de um computador_e não pode existir sem ela. Um dualista acredita que a mente é algum tipo de espírito fluido que habita o corpo em algum outro lugar. Os dualista prontamente interpretam as doenças mentais como “possessão por demonios” sendo que esses demônios são espíritos cuja residência no corpo é temporária, de modo que eles podem ser “expulsos” . Os dualistas personificam objetos físicos inanimados na primeira oportunidade, enxergando espíritos e demônios até em cachoeiras e nuvens.”
Dawkins, Richard Em ‘The God Delusion’ pág 235-236
É oportuno comentar um caso que surpreende ainda hoje os cientistas que estudam o cérebro e todos os processos do pensamento proveniente da atividade cerebral. Ocorrou no sécúlo XIX. Um trabalhador, Phineas Gage, supervisor de obras ferroviárias, perdeu parte de seu cérebro com uma barra de ferro que atravessou seu crânio quando uma carga explosiva foi colocada acidentalmente Ele sobreviveu por muitos anos ao extenso trauma, mas tornou-se uma pessoa inteiramente nova, abusiva e agressiva, irresponsável e mentirosa, incapaz de imaginar e planejar, e completamente diferente de sua formação. Dizem os cientistas que a lesão que ele sofreu no córtex frontal ventromedial, uma área responsável pelas emoções, fez com que sua personalidade mudasse inteiramente. Será que se alguma alma existisse, pela definição de alma que é algo intangível e substrato de todo conjunto de sentimentos e emoções seria “perdido pela metade” ? Como algo incorpóreo e o ’software’ de uma máquina tão complexa fazer surgir uma nova máquina e ainda funcional? Pressupõe-se que de algo criador da complexidade seja mais complexo e perfeito quanto. Sabendo-se de que um ser humano se faz além de suas características físicas, se faz de sua personalidade principalmente, um homem ‘tranformou-se em outro’. É assim também para aquelas pessoas que estão com vício de algum narcótico. Ficam dependentes químicos, cometem atos bárbaros num momento de pânico e quando se dão conta não acreditam, e muitos viciados nem se lembram de fato, no que fizeram.
Neste caso que ocorreu no século XIX e outros tantos casos, percebemos que é possível alguém viver sem a sua identidade a qual foi designada ao sujeito. Só poderia ser explicado o fato de que o monismo não só é coerente como existem provas de que mente e cérebro são indissociáveis. Nossa tendência ao dualismo na infância deveria atingir um estágio de amadurecimento suficiente em discernir claramente o que são “fantasmas”, produtos de imaginação, vontades e de necessidades básicas como o desejo sexual (Pra mulher sexo e paixão são sinônimos), a fome, sede e que são mecanismos de sobrevivência como os processos que desencadeiam a ira ou raiva e de outros sentimentos que falo a seguir.
O que nos são apresentados como sentimentos bons ou negativos não passam na verdade de impressões extraídas de fora pra dentro. O mecanismo neural dispõe de um elemento chamado amígdala cerebral a qual é responsável pelas emoções mais primitivas e que colocam o ser humano no mesmo grau dos animais irracionais. Este elemento do cérebro traz atitudes puramente emotivas, ou nos faz tomar ações mais irrefletidas no dia a dia, pois assim é necessário para a sobrevivência.
Estamos numa cultura em que as necessidades de sobrevivência são diferentes que fugir de predadores maiores e mais forte que o homem. O que diferencia realmente o homem dos outros animais é o neocórtex e a capacidade para as artes, para fazer poesias e para fazer raciocínios matemáticos mais complexos.
Porém, o centro das emoções mais primitivas ainda está na
idade do pleistosceno.
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PARTE II
O que o homem moderno entende como amor ou outro sentimento de afeição não é nada mais do que uma representação, um simbolismo repleto de significados puramente subjetivos mas que guardam marcas num passado em que a linguagem articulada estava ainda nascendo. A linguagem na representação da realidade é fundamental para o homem desenvolver o raciocínio não só verbal mas também espacial, matemático, motor interpessoal, intrapessoal, ..etc. Mas a amígdala estava lá no cérebro do indivíduo fazendo seu papel e captando todas as impressões do mundo ao indivíduo. O medo, a fúria, a necessidade de correr, todos os hormônios em pleno funcionamento preparando o corpo para tomadas de ações que independem de juízo perfeito, ou raciocínio. Simplesmente para a sobrevivência presente em todos os animais no homem também se fazia presente na infância, quando a linguagem ainda não estava plenamente desenvolvida.
[http://www.cerebromente.org.br/n14/opinion/material3.html]
Tornamos adultos, e ainda muitos são governados pela emoção. Não que a emoção tem significado menos valioso. Mas a emoção torna a apreciação da realidade mais rala, mais superficial quando o necessário é uma acurácia mais crítica e não pode ser o centro das ações do indivíduo. A paixão tomada repetidas vezes, esmagam a razão. Como eu estava dizendo antes, a amígdala tem um papel primordial nas
emoções. Ela quem quem dá o sabor dos eventos quando o necessário seria descrever os acontecimentos de um determinado evento. É esta glândula que ainda estava agindo quando nossa representação da realidade era imperfeita e sem os símbolos da linguagem e quando nos tornamos adultos, achamos que todo significado que damos às emoções são reflexos de uma verdade que subjaz a vontade.
Isso não é verdadeiro. São somente impressões. A emoção sempre se fez sentida antes de serem designadas palavras para expressar tal sentimento.
Grandes obras poéticas belas, cujas palavras nos dão uma sensação de exprimirem o mais puro e verdadeiro sentimento é tão verdadeiro quanto o é nas rimas e em suas estrofes com métrica e sonoridade. Estamos nos referindo agora de um instrumento do raciocínio verbal, e o que nos parecem um puro sentimento é uma técnica. O substrato que gerou versos escritos se dissolve na origem. Quantos são os poetas que dizem que embora seus poemas tenham tamanha riqueza expressiva, ainda não representam com perfeição ou fidedignamente seus sentimentos ? Isto é fácil de entender se vermos os mecanismos do sistema límbico ou o centro das emoções.
Existem no cérebro o que os cientistas chamam de lóbulos pré frontais direito e esquerdo. Cada um com suas respectivas tarefas de apreensão e controle aos impulsos ou estímulos emocionais. É responsável por sufocar os sentimentos imediatos como os provocados pela amígdala cerebral. Os artistas e poetas o que fazem é ativar o lobo pre frontal esquerdo. As emoções não são um retrato fiel de suas realidades mas sim uma espécie de redirecionamento.
Vamos imaginar duas situações para vermos sobre o papel da emoção. A primeira dos pais viajando de carro com seu filho de um ano de idade. O carro ao fazer uma curva, derrapa e cai num rio afundando imediatamente. A água começa rapidamente entrar por dentro das janelas e a água toma conta de todo o veículo e consequentemente seus ocupantes estão submergidos. Os pais num ato heróico salvam seu filho o forçando pela saída da janela a qual seria suficiente para
caber somente o corpo do filho. Este filho é salvo pela chegada do resgate enquanto os pais lamentavelmente se afogaram.
Numa outra situação, um pai aflito por sua filha de quatorze anos ter se ausentado de casa que segundo ela, iria a casa de sua amiga e que voltaria à tarde. Era madrugada. O pai da menina e sua esposa são acordados por um súbito barulho vindo do armário. O homem estava com uma arma em punhos. Houve um grito agudo assim que o armário abriu em sua direção, houve um disparo. O próprio pai teria atingido
a filha no pescoço. Na reação instintiva de proteger sua família e sua casa, (ou seu território) houve uma fatalidade. A menina morre doze horas depois.
Nas duas situações ilustradas acima, temos algo em comum.
Além de duas situações igualmente trágicas, pois embora a primeira tenha conseguido salvar um filho, houvera uma dupla morte, a do casal. Mas nas duas situações houve a reação instintiva de proteger a prole. Os biólogos evolucionistas já sabiam que toda impulsividade provém de um instinto natural de salvaguardar os seus membros e manter a sua espécie viva cujo objetivo último é sobreviver. O que pode ser apresentados a nós como amor e consequente ato de heroísmo proveniente deste amor, é natural nos organismos superiores vivos.
Tenho informações através de uma revista científica, a qual me foge agora o nome, de que velhos babuínos em companhia de seus membros quando perseguidos por um tigre ou leopardo, este velho babuíno retarda sua marcha valendo-se como ísca para o predador enquanto seus membros mais jovens e por conseguite com maiores chances de perpetuarem a sua espécie escapam ilesos. O fim do velho babuíno era previsto.
Se aquele pai não tivesse a infelicidade de acertar a filha, poderíamos dizer que foi herói ao acertar no intruso que poria a vida de sua família em risco. Mas tanto o estímulo enviado a uma área cerebral chamada tálamo, a qual é responsável por captar as impressões do meio e enviar de volta ao neocórtex para apreciação mais acurada da situação, é o mesmo nas duas situações. O que nos é apresentado como ato de amor ou de superação de limites pondo até mesmo a própria vida em risco para o bem de outrem, é um efeito
puramente instintivo.
Os efeitos geradores que acionam os mecanismos neurais não fazem distinção se determinado ato será heróico ou por ‘puro amor’. Acho que esta indistinção é que causa um certo desconforto ao dizer que temos determinado sentimento que não sabemos bem se é de ódio, dor ou mágoa. Essa intercambiação é um limiar muito tênue.
“[...]Com o desenvolvimento da linguagem, nomes foram atribuídos a essas e a outras sensações, permitindo sua delimitação e explicitação a outros membros do grupo. Porém, até hoje, dada a existência de um componente subjetivo importante, difícil de ser comunicado, não existe uniformidade quanto a melhor terminologia a ser empregada
para designar essas sensações. Assim é que utiliza-se, de maneira imprecisa e intercambiável, quase como sinônimos, os termos afeto, emoção e sentimento[...]“
http://www.cerebromente.org.br/n05/mente/limbic.htm.
Se a sociedade não impusesse os efeitos sentimentais como positivos somente aqueles ditos como mais valorosos como amor, paixão os ser humano saberia com mais exatidão qualificar seus sentimentos sem culpa de ser afligido por ira ou rancor. Todo sentimento humano faz parte de um mesmo escopo de reações neurais. Saber administrá-los é estar ciente de si, de seus limites e de suas emoções.
Escolhi o título primeiro por que alma tem um significado no entender vulgar e toda literatura romântica, de onde tudo provêm: Os sentimentos mais nobres e altruítas, o substrato primeiro de onde nasce o amor e o ódio. Nas religiões é tida como uma criação por um ser superior e a qual é intangível, fonte primária e ao mesmo última.
Um corpo sobre a qual a alma se responsabiliza pela variedade de sentimentos que são categorizados como bons e maus. Dependendo do livre arbítrio através do qual o homem escolher seu caminho, este ’ser superior’ e onisciente julgará merecedor de vida eterna e paraíso ou infernos e danações horrendas. O onisciente sabedor do futuro e com sua eterna bondade não faz com que todas as almas sejam boas e todos os homens seja felizes e tenham vida eterna em júbilo. (!). Bem, mas é outro caso.
O fato é que enquanto a teologia não dá conta de seus próprios paradoxos e contradições, a ciência tem instrumentos que evidenciam que todo sentimento desde o mais nobre e mais cruel tem mecanismos que são explicados, e controlados pela bioquímica e pela fisiologia cerebral.
Alma, amor, paixão, emoção estas palavras tantas vezes ditas e tantas vezes exploradas em folhetins novelescos, tantas vezes repetidas em frases e canções pra fins diversos, se revela vazia de significados. Se para cada indivíduo o amor é distinto e varia pra cada emoção sentida, ele é igualmente repleto de insiginificância.
Durante o percurso que vou tomando no texto, vou fazendo referências de termos eminentemente técnicos e embora eu não seja um biólogo, não vejo de outra forma discorrer neste assunto sem cair no relativismo sentimental e imprecisões de conceitos como alma, amor, ‘essência’ no sentido mais transcedente que é dado a isto com toda contaminação mística que toma vários assuntos quando cada um dá sua interpretação. Vejo isso completamente desnecessário pois basta recorrer a fontes honestas e de caráter científico para que o conhecimento torne acessível a qualquer um, especialista ou não. Nada melhor do que entender um mínimo de biologia e acho que todos os cientistas quando estudam a mente têm como ponto de partida os conceitos neurofisiológicos, bioquímicos e físicos já muito bem definidos.
Segundo Descartes:
“Eu não sei de nenhuma diferença entre as máquinas que os artesãos fazem e os diversos corpos que a natureza por si só compõe, a não ser esta: que os efeitos das máquinas não dependem de mais nada a não ser da disposição de certos tubos, que devendo ter alguma relação com as mãos daqueles que os fazem, são sempre tão grandes que as suas figuras e movimentos se podem ver, ao passo que os tubos ou molas que causam os efeitos dos corpos naturais são ordinariamente demasiado pequenos para poderem ser percepcionados pelos nossos sentidos. Por exemplo, quando um relógio marca as horas por meio das rodas de que está feito, isso não lhe é menos natural do que uma árvore a produzir os seus frutos”
O mecanicismo parte de axiomas ou leis de causa e efeito bem conhecidas através de interações diretas de seus constituintes desde os mais elementares até os infinitamente grandes. (A física moderna se iniciou assim).
Pela idéia central que parte o reducionismo a de que podemos reduzir alguns fenômenos de um certo tipo a fenômenos de outro tipo, podemos dizer que a biologia se enquadra nesta idéia. Seus fenômenos físicos são a causa primitiva, enquanto que as bioquímicas, neurofisiológicas são as derivadas. Decorre que de certa forma a epistemologia dos fenômenos biológicos, pode ser reducionista também. Mas partirei do conhecimento anterior ou mecanicista.
O que tem isso a ver declarando que a alma e o amor também pode ser mecanicista? O amor como “proveniente de uma alma amorosa” assim como qualquer sentimento, como ódio, ira, vingança e outros “pecados”* são fenômenos exclusivamente do cérebro ou pra ser mais especifico, da mente e por conseguinte objeto de estudo das ciências biológicas.
É de conhecimento que existem processos que independem de significados subjetivos. Um destes processos não necessariamente existem fora do sujeito como o são os mecanismos dos fenômenos naturais e por conseguinte determinísticos. Há um domínio de significados no próprio homem que independe de cultura. Este mecanismo que se revela é a própria mente.
Sou dos que acreditam no monismo ou seja, não é possível existir uma mente e um corpo que são indissociáveis e por este motivo coerentemente, não posso acreditar em almas. Não faz nenhum sentido pra mim.
“(…)O psicólogo Paul Bloom, outro defensor da visão da ‘religião como subproduto’, ressalta que as crianças têm uma tendência natural para uma teoria dualista da mente. A religião para ele, é um subproduto desse dualista instintivo. Nós, seres humanos, sugere ele, especialmente as crianças, somos dualistas por natureza.
Um dualista reconhece a distinção fundamental entre matéria e mente. Um monista, ao contrário, acredita que a mente é a manifestação da matéria_o material do cérebro ou talvez de um computador_e não pode existir sem ela. Um dualista acredita que a mente é algum tipo de espírito fluido que habita o corpo em algum outro lugar. Os dualista prontamente interpretam as doenças mentais como “possessão por demonios” sendo que esses demônios são espíritos cuja residência no corpo é temporária, de modo que eles podem ser “expulsos” . Os dualistas personificam objetos físicos inanimados na primeira oportunidade, enxergando espíritos e demônios até em cachoeiras e nuvens.”
Dawkins, Richard Em ‘The God Delusion’ pág 235-236
É oportuno comentar um caso que surpreende ainda hoje os cientistas que estudam o cérebro e todos os processos do pensamento proveniente da atividade cerebral. Ocorrou no sécúlo XIX. Um trabalhador, Phineas Gage, supervisor de obras ferroviárias, perdeu parte de seu cérebro com uma barra de ferro que atravessou seu crânio quando uma carga explosiva foi colocada acidentalmente Ele sobreviveu por muitos anos ao extenso trauma, mas tornou-se uma pessoa inteiramente nova, abusiva e agressiva, irresponsável e mentirosa, incapaz de imaginar e planejar, e completamente diferente de sua formação. Dizem os cientistas que a lesão que ele sofreu no córtex frontal ventromedial, uma área responsável pelas emoções, fez com que sua personalidade mudasse inteiramente. Será que se alguma alma existisse, pela definição de alma que é algo intangível e substrato de todo conjunto de sentimentos e emoções seria “perdido pela metade” ? Como algo incorpóreo e o ’software’ de uma máquina tão complexa fazer surgir uma nova máquina e ainda funcional? Pressupõe-se que de algo criador da complexidade seja mais complexo e perfeito quanto. Sabendo-se de que um ser humano se faz além de suas características físicas, se faz de sua personalidade principalmente, um homem ‘tranformou-se em outro’. É assim também para aquelas pessoas que estão com vício de algum narcótico. Ficam dependentes químicos, cometem atos bárbaros num momento de pânico e quando se dão conta não acreditam, e muitos viciados nem se lembram de fato, no que fizeram.
Neste caso que ocorreu no século XIX e outros tantos casos, percebemos que é possível alguém viver sem a sua identidade a qual foi designada ao sujeito. Só poderia ser explicado o fato de que o monismo não só é coerente como existem provas de que mente e cérebro são indissociáveis. Nossa tendência ao dualismo na infância deveria atingir um estágio de amadurecimento suficiente em discernir claramente o que são “fantasmas”, produtos de imaginação, vontades e de necessidades básicas como o desejo sexual (Pra mulher sexo e paixão são sinônimos), a fome, sede e que são mecanismos de sobrevivência como os processos que desencadeiam a ira ou raiva e de outros sentimentos que falo a seguir.
O que nos são apresentados como sentimentos bons ou negativos não passam na verdade de impressões extraídas de fora pra dentro. O mecanismo neural dispõe de um elemento chamado amígdala cerebral a qual é responsável pelas emoções mais primitivas e que colocam o ser humano no mesmo grau dos animais irracionais. Este elemento do cérebro traz atitudes puramente emotivas, ou nos faz tomar ações mais irrefletidas no dia a dia, pois assim é necessário para a sobrevivência.
Estamos numa cultura em que as necessidades de sobrevivência são diferentes que fugir de predadores maiores e mais forte que o homem. O que diferencia realmente o homem dos outros animais é o neocórtex e a capacidade para as artes, para fazer poesias e para fazer raciocínios matemáticos mais complexos.
Porém, o centro das emoções mais primitivas ainda está na
idade do pleistosceno.
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PARTE II
O que o homem moderno entende como amor ou outro sentimento de afeição não é nada mais do que uma representação, um simbolismo repleto de significados puramente subjetivos mas que guardam marcas num passado em que a linguagem articulada estava ainda nascendo. A linguagem na representação da realidade é fundamental para o homem desenvolver o raciocínio não só verbal mas também espacial, matemático, motor interpessoal, intrapessoal, ..etc. Mas a amígdala estava lá no cérebro do indivíduo fazendo seu papel e captando todas as impressões do mundo ao indivíduo. O medo, a fúria, a necessidade de correr, todos os hormônios em pleno funcionamento preparando o corpo para tomadas de ações que independem de juízo perfeito, ou raciocínio. Simplesmente para a sobrevivência presente em todos os animais no homem também se fazia presente na infância, quando a linguagem ainda não estava plenamente desenvolvida.
[http://www.cerebromente.org.br/n14/opinion/material3.html]
Tornamos adultos, e ainda muitos são governados pela emoção. Não que a emoção tem significado menos valioso. Mas a emoção torna a apreciação da realidade mais rala, mais superficial quando o necessário é uma acurácia mais crítica e não pode ser o centro das ações do indivíduo. A paixão tomada repetidas vezes, esmagam a razão. Como eu estava dizendo antes, a amígdala tem um papel primordial nas
emoções. Ela quem quem dá o sabor dos eventos quando o necessário seria descrever os acontecimentos de um determinado evento. É esta glândula que ainda estava agindo quando nossa representação da realidade era imperfeita e sem os símbolos da linguagem e quando nos tornamos adultos, achamos que todo significado que damos às emoções são reflexos de uma verdade que subjaz a vontade.
Isso não é verdadeiro. São somente impressões. A emoção sempre se fez sentida antes de serem designadas palavras para expressar tal sentimento.
Grandes obras poéticas belas, cujas palavras nos dão uma sensação de exprimirem o mais puro e verdadeiro sentimento é tão verdadeiro quanto o é nas rimas e em suas estrofes com métrica e sonoridade. Estamos nos referindo agora de um instrumento do raciocínio verbal, e o que nos parecem um puro sentimento é uma técnica. O substrato que gerou versos escritos se dissolve na origem. Quantos são os poetas que dizem que embora seus poemas tenham tamanha riqueza expressiva, ainda não representam com perfeição ou fidedignamente seus sentimentos ? Isto é fácil de entender se vermos os mecanismos do sistema límbico ou o centro das emoções.
Existem no cérebro o que os cientistas chamam de lóbulos pré frontais direito e esquerdo. Cada um com suas respectivas tarefas de apreensão e controle aos impulsos ou estímulos emocionais. É responsável por sufocar os sentimentos imediatos como os provocados pela amígdala cerebral. Os artistas e poetas o que fazem é ativar o lobo pre frontal esquerdo. As emoções não são um retrato fiel de suas realidades mas sim uma espécie de redirecionamento.
Vamos imaginar duas situações para vermos sobre o papel da emoção. A primeira dos pais viajando de carro com seu filho de um ano de idade. O carro ao fazer uma curva, derrapa e cai num rio afundando imediatamente. A água começa rapidamente entrar por dentro das janelas e a água toma conta de todo o veículo e consequentemente seus ocupantes estão submergidos. Os pais num ato heróico salvam seu filho o forçando pela saída da janela a qual seria suficiente para
caber somente o corpo do filho. Este filho é salvo pela chegada do resgate enquanto os pais lamentavelmente se afogaram.
Numa outra situação, um pai aflito por sua filha de quatorze anos ter se ausentado de casa que segundo ela, iria a casa de sua amiga e que voltaria à tarde. Era madrugada. O pai da menina e sua esposa são acordados por um súbito barulho vindo do armário. O homem estava com uma arma em punhos. Houve um grito agudo assim que o armário abriu em sua direção, houve um disparo. O próprio pai teria atingido
a filha no pescoço. Na reação instintiva de proteger sua família e sua casa, (ou seu território) houve uma fatalidade. A menina morre doze horas depois.
Nas duas situações ilustradas acima, temos algo em comum.
Além de duas situações igualmente trágicas, pois embora a primeira tenha conseguido salvar um filho, houvera uma dupla morte, a do casal. Mas nas duas situações houve a reação instintiva de proteger a prole. Os biólogos evolucionistas já sabiam que toda impulsividade provém de um instinto natural de salvaguardar os seus membros e manter a sua espécie viva cujo objetivo último é sobreviver. O que pode ser apresentados a nós como amor e consequente ato de heroísmo proveniente deste amor, é natural nos organismos superiores vivos.
Tenho informações através de uma revista científica, a qual me foge agora o nome, de que velhos babuínos em companhia de seus membros quando perseguidos por um tigre ou leopardo, este velho babuíno retarda sua marcha valendo-se como ísca para o predador enquanto seus membros mais jovens e por conseguite com maiores chances de perpetuarem a sua espécie escapam ilesos. O fim do velho babuíno era previsto.
Se aquele pai não tivesse a infelicidade de acertar a filha, poderíamos dizer que foi herói ao acertar no intruso que poria a vida de sua família em risco. Mas tanto o estímulo enviado a uma área cerebral chamada tálamo, a qual é responsável por captar as impressões do meio e enviar de volta ao neocórtex para apreciação mais acurada da situação, é o mesmo nas duas situações. O que nos é apresentado como ato de amor ou de superação de limites pondo até mesmo a própria vida em risco para o bem de outrem, é um efeito
puramente instintivo.
Os efeitos geradores que acionam os mecanismos neurais não fazem distinção se determinado ato será heróico ou por ‘puro amor’. Acho que esta indistinção é que causa um certo desconforto ao dizer que temos determinado sentimento que não sabemos bem se é de ódio, dor ou mágoa. Essa intercambiação é um limiar muito tênue.
“[...]Com o desenvolvimento da linguagem, nomes foram atribuídos a essas e a outras sensações, permitindo sua delimitação e explicitação a outros membros do grupo. Porém, até hoje, dada a existência de um componente subjetivo importante, difícil de ser comunicado, não existe uniformidade quanto a melhor terminologia a ser empregada
para designar essas sensações. Assim é que utiliza-se, de maneira imprecisa e intercambiável, quase como sinônimos, os termos afeto, emoção e sentimento[...]“
http://www.cerebromente.org.br/n05/mente/limbic.htm.
Se a sociedade não impusesse os efeitos sentimentais como positivos somente aqueles ditos como mais valorosos como amor, paixão os ser humano saberia com mais exatidão qualificar seus sentimentos sem culpa de ser afligido por ira ou rancor. Todo sentimento humano faz parte de um mesmo escopo de reações neurais. Saber administrá-los é estar ciente de si, de seus limites e de suas emoções.