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Manny Calavera

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A Jangada de Pedra

Ainda há quem não acredite em coincidências, quando coincidências é o que mais se encontra e prepara no mundo, se não são as coincidências a própria lógica do mundo.

Um homem arremessa uma volumosa pedra sem que a sua força física o permita fazer; um bando de estorninhos insiste em acompanhar o caminho de um outro português; um espanhol sente a terra a tremer constantemente; um cão perde a sua fala; uma mulher desfia um pé de meia azul enquanto que pela mão de outra mulher uma vara de negrilho traça um risco indestrutível no chão. Em simultâneo, a península ibérica separa-se da Europa e navega pelo oceano Atlântico.

A Jangada de Pedra é o meu primeiro contacto com a obra do premiado e polémico autor português José Saramago. Apesar das idiossincrasias austeras com que sempre o pintei, inspiradas no tom das suas redarguias durante entrevistas, raramente olhava para um dos seus livros com curiosidade. Era vítima do pensamento retrógrado que ignominia os frutos de Portugal: "o que vem de fora é sempre melhor".

Ultrapassado este estado estulto, decidi mergulhar numa das obras que já mereceu uma transfiguração cinematográfica. Após aquiescer à parcimónia do autor com os pontos finais, fiquei atónito com a maneira como Saramago conta esta aventura. Não só as implicações de tal ruptura geográfica são bem exploradas, tanto à face da natureza política e humana, como o sentimento de que somos testemunhas de algo fantástico fluí ao longo das páginas, conferindo a A Jangada de Pedra uma estrutura equilibrada de misticidade e realismo.

Muito se podia dizer acerca do simbolismo de cada acontecimento (não que os conheça, mas decerto existem), tanto das consequências do nascimento da nova ilha como dos caminhos percorridos para a união do grupo de pessoas singulares, suas acções e diálogos. Contudo o que mais sobressai na minha passagem pelo conto é a maneira sublime como o autor divaga ao longo da acção principal, preenchendo muitos destes espaços com comentários pessoais elaborados, sem que a minha atenção na trama principal fosse derruída. São cadeias de pensamento que convidam à auto-reflexão, por vezes formuladas pela simples troca de ordem entre duas palavras.

Fiquei interessada em conhecer (muito) mais do autor :wink:

Fúria Divina

Como deixei explicito no post referente à apresentação do livro, as minhas expectativas para Fúria Divina não eram altas. Contava com a fórmula já estipulada nos seus romances anteriores que abordam alguma dramática contemporânea, para que mudar o que funciona (leia-se vende), contudo nunca foram esses subterfúgios que me atraíram mas sim a informação fundamentada e verídica dissimulada nestes.

A estes pequenos miados aparentemente queixosos (não o são, atenção) fui redarguida com uma óptima surpresa. José Rodrigues dos Santos conseguir fazer a simbiose entre duas realidades intimamente ligadas mas separando-as no tempo. Tomás Noronha reaparece com as suas cifras e diálogos enriquecidos em factos, mas é intercalado com a vida do muçulmano Ahmed (não é o nome mais original, mas adiante).

O leitor familiariza-se com a cultura, educação e as ideologias do islão através da vida de Ahmed. O propósito é óbvio, o muçulmano veste o conhecido andrajo "conheça o outro lado antes de o julgar", mas para meu deleite as linhas que o caracterizam espoliam o estilo do último romance do autor, A Vida num Sopro. Assim sendo, apesar de ter um grande conteúdo informativo, os capítulos de Ahmed possuem carácter de "conto" e por isso dei por mim mais envolvida e interessada no percurso deste do que a problemática principal abordada no romance.

Este outro lado da moeda mostra o molde fundamentalista que é imposto na típica criança muçulmana, a candura taciturna da interpretação literal do Alcorão e das acções e palavras de Maomé. Ahmed é apenas uma das tábulas rasas que os fundamentalistas conseguem impor as suas inexpugnáveis convicções, é neste processo que se reconhece a verdadeira Fúria Divina que brota no coração dos leais seguidores das palavras do Alcorão. Ser testemunha deste mecanismo é compreender a razão pela qual estes homens não são facilmente derruídos, uma fascinante e aterradora mentalidade.

Os capítulos que envolvem a acção Tomás são muito mais curtos (alguns chegam a ter apenas 4 páginas) uma excelente aproximação feita pela autor. O reduzido ângulo do metrônomo associado a esta aventura confere-lhe tons concisos, fast pace, intrigantes conseguindo prender o leitor com melhor convicção do que com a receita de "problema familiar-cifras-mulher ardente" dos prévios trabalhos. Uma óptima leitura :wink:

Norwegian Wood

Acontece que sou assim. Preciso de registar as coisas para sentir que as compreendo plenamente

Já se passou algum tempo desde que li algo do ambíguo Murakami e, depreende-se pela reverência que não escondo, percorrer um novo conto deste exímio escritor começa a ser um exercício amiúde. Não obstante, seria um erro aproximar-me de cada obra com certezas inexpugnáveis de que iria encontrar a mesma panóplia de admiração.

Norwegian Wood veicula no fiapo entre a vida e a morte percorrido pelo complexo personagem Watanabe que (pela minha experiência, entenda-se) é o mais "documentado" do autor. Sente-se uma estranha melancolia impressa em cada página, o que confere um pulsar lento ao coração da narrativa.

O romance é retratado como uma autobiografia de Watanabe nos seus tempos de estudante com algumas inusitadas revelações. O leitor é convidado a acompanhar o personagem pouco depois do suicídio do seu melhor amigo, o que o aproxima da namorada do defunto, a frágil e doce Naoko. Watanabe é um estudante apático que vê eclodir dentro de si um sentimento idílico por Naoko, prisioneira de um turbilhão de pensamentos e gestos singulares que os separa. Enquanto aguarda a reciprocidade de intenções, Watanabe testemunha a sua vida, essa mistura de actos sexuais descomprometidos, rebeldias estudantis derruídas pelo seu pensamento crítico e amizades que tentam despertá-lo.

Para mim, Norwegian Wood é sinónimo de calma e brandura. Essas sensações tingem as palavras com ígnea vontade e conseguem olvidar a matiz sobrenatural e fantástica desprovida neste conto de Murakami. Pode não corresponder à estabelecida assinatura do autor, mas também é bom conhecermos outras facetas, ou não?

Flashforward

We are scientists Lloyd - we're supposed to be the last bastion of rational thought, of verifiable, reproducible, irrefutable proof, and yet we're our own worst enemies.

Quando ouvi falar da ideia por detrás da série Flashfoward, fiquei curiosa em conhecer mais. Tudo o que seja relacionado com viagens no tempo põe-me logo a ronronar como uma perdida. Infelizmente ainda não tive oportunidade de conhecer a série, seus intérpretes e história, mas os teasers apontam o escritor Robert J. Sawyer como a "sopa primordial". Uma breve pesquisa, uma compra e três dias depois tinha o livro Flashfoward nas minhas patas.

Sem qualquer aviso, todos os seres humanos na Terra e arredores desmaiam durante dois minutos. Aviões despenham-se, carros perdem o controlo, pessoas caem de escadas abaixo, milhões conhecem a morte durante este fenómeno. Embora a causa seja desconhecida, o efeito é imediatamente constatado: os sobreviventes viajaram 21 anos para o futuro.

O epicentro da acção é constituído pelo comportamento de um conjunto limitado de pessoas, contudo as ramificações que tal acontecimento poderia engendrar são, na minha opinião, muito bem explorados pelo autor. Antes de me envolver com o livro teria aceitado olhar por essa janela temporal sem considerar, mas conforme avançava nas páginas apercebi-me das terríveis consequências que tal revelação pode acartar. Saber que não vamos estar com "aquela" pessoa, que não atingimos os nossos objectivos ou mesmo que não vamos estar vivos...Sabendo o futuro, é possível aproveitar o presente? E será esse futuro imutável?

Embora envolva conceitos físicos como o principio de exclusão de Pauli e o espaço de Minkowski, a narrativa nunca é enfadonha e aprisiona a atenção do leitor. A roldana mais dentada da acção não tem um brilho particularmente difícil de descobrir, o encanto reside nos pequenos detalhes da sua implementação. Sendo um livro de ficção científica, necessariamente o cepticismo tem um lugar reservado mas senti que o final tem um certo surrealismo que não me pareceu enquadrar bem com o caminho mais down to earth percorrido até então.

A adaptação televisiva eleva o nome Robert J. Sawyer, isto quando o mesmo já é bem conhecido no género literário. Vencedor do prémio Nebula para livro do ano com a obra The Terminal Experiment e finalista em dois prémios Hugo e outro Nebula, sem dúvida que Flashfoward irá conquistar muitos fãs ao autor. Para já, fiquei curiosa P:

1984

De facto, se todos tivessem igual acesso ao lazer e à segurança, a grande maioria dos seres humanos, que normalmente vive embrutecidos pelo pobreza, instruir-se-iam e aprenderiam a pensar pela sua própria cabeça; a partir daí, cedo ou tarde concluiriam que a minoria privilegiada não desempenhava qualquer função, e acabariam com ela.

Espantoso, obrigatório, deslumbrante, tenebroso, realista, futurista e muitas outras sensações descrevem este romance...

1984 mostra um mundo onde uma entidade inexpugnável controla toda uma nação. George Orwell descreve o digladiar constante de uma personagem com a realidade com o rodeia, enquanto tenta não sibilar qualquer traço que o denuncie. Numa sociedade em que tudo é monitorizado, o passado constantemente renovado de forma a que o Big Brother (a entidade) tenha sempre razão, o sexo catalogado como indecoroso e as emoções humanas perdidas (também) por aplicação de uma nova linguagem de expressão, o pensamento crítico e a opinião pessoal são coisas que não devem existir.

Não consigo, mesmo que quisesse, tentar falar mais do livro... Parece que cada pormenor que possa tartamudear no meio desta pequena descrição vá estragar ou não fazer justiça a esta incrível obra. Muito se pode dizer dos subterfúgios políticos, das relações entre personagens, as filosofias labutadas pela sociedade controladora, significado individual e outros assuntos que este livro toca, mas o que ficará mais presente na minha memória é a destruição do ser humano... Sim do, não de um.

Sem dúvida um dos melhores livros que já tive debaixo das minhas patas. É duploextrabom :wink:
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