A Jangada de Pedra
Wednesday, 9. December 2009, 17:59:03

Um homem arremessa uma volumosa pedra sem que a sua força física o permita fazer; um bando de estorninhos insiste em acompanhar o caminho de um outro português; um espanhol sente a terra a tremer constantemente; um cão perde a sua fala; uma mulher desfia um pé de meia azul enquanto que pela mão de outra mulher uma vara de negrilho traça um risco indestrutível no chão. Em simultâneo, a península ibérica separa-se da Europa e navega pelo oceano Atlântico.Ainda há quem não acredite em coincidências, quando coincidências é o que mais se encontra e prepara no mundo, se não são as coincidências a própria lógica do mundo.
A Jangada de Pedra é o meu primeiro contacto com a obra do premiado e polémico autor português José Saramago. Apesar das idiossincrasias austeras com que sempre o pintei, inspiradas no tom das suas redarguias durante entrevistas, raramente olhava para um dos seus livros com curiosidade. Era vítima do pensamento retrógrado que ignominia os frutos de Portugal: "o que vem de fora é sempre melhor".
Ultrapassado este estado estulto, decidi mergulhar numa das obras que já mereceu uma transfiguração cinematográfica. Após aquiescer à parcimónia do autor com os pontos finais, fiquei atónito com a maneira como Saramago conta esta aventura. Não só as implicações de tal ruptura geográfica são bem exploradas, tanto à face da natureza política e humana, como o sentimento de que somos testemunhas de algo fantástico fluí ao longo das páginas, conferindo a A Jangada de Pedra uma estrutura equilibrada de misticidade e realismo.
Muito se podia dizer acerca do simbolismo de cada acontecimento (não que os conheça, mas decerto existem), tanto das consequências do nascimento da nova ilha como dos caminhos percorridos para a união do grupo de pessoas singulares, suas acções e diálogos. Contudo o que mais sobressai na minha passagem pelo conto é a maneira sublime como o autor divaga ao longo da acção principal, preenchendo muitos destes espaços com comentários pessoais elaborados, sem que a minha atenção na trama principal fosse derruída. São cadeias de pensamento que convidam à auto-reflexão, por vezes formuladas pela simples troca de ordem entre duas palavras.
Fiquei interessada em conhecer (muito) mais do autor












