Heresias, Antropofagia e Outras Especiarias.

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MUDEI!

Diplomacia do "Cara", não agrada?

Well... O Brasil está ocupando um espaço, Lula chamando a atenção - "é o Cara"...
Deve estar incomodando muito, não ter uma posição definida do tipo ficar do "nosso lado" ou do "outro lado".
Como pode não ser do "eixo do mal" nem discípulo do Grande Vizinho do Norte ( ou o "dono" do quintal America Latna).
Como pode Lula, vir com um novo estilo de diplomacia, querer ser amigo de todos? Um não alinhado? Como pode?
Realmente, para quem interessa o mundo dividido em blocos - o dos bons e vencedores, aqueles que contam a Historia Oficial e seus dóceis seguidores, e o dos maus e perdedores, Lula não deve mesmo ser um bom exemplo.
Seria tão mais facil se, depois de ve-lo colocar a culpa da tal crise nas irresposabilidade dos brancos ricos de olhos azuis, fosse possível acusá-lo de antidemocrático (sem hifem?), de esquerdista radical raivoso, de desestabilizador, de... de... Hugo Chávez!


A edição desta semana da revista britânica Economist traz editorial e chamada de capa com Lula. A revista questiona a posição que Lula e o governo brasileiro deverão em questões polêmicas de âmbito global.

A Economist parte da constatação de que o Brasil ganhou importância na comunidade internacional. Não há fórum global relevante sem que o país tenha assento, sustenta. Para a revista Lula, que tem o talento da conciliação e de fazer amizades por onde vai, terá agora que ser mais seletivo. Não dá para ser amigo de todos os países: democráticos e não democráticos, adverte a publicação:

Latin America’s new alliances
Whose side is Brazil on?

Aug 13th 2009
From The Economist print edition
Time for Lula to stand up for democracy rather than embrace autocrats

THIS is a grand time to be a Brazilian, and especially to be Luiz Inácio Lula da Silva, the country’s inspirational president. Long the chronically underperforming giant of Latin America, Brazil is now on every list of the half-dozen or so new places that matter in the 21st century. It seems that no international gathering, be it to discuss financial reform or climate change, is complete without Lula, a former metal worker and trade-union leader whose bonhomie and instinct for conciliation between political opposites make him friends everywhere. “He’s my man,” gushed Barack Obama at the G20 summit in London; Fidel Castro calls him “our brother Lula”.

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=16112

Gripe Suína, Aviária... ou Os vendedores de doenças

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Os vendedores de doenças

As estratégias da indústria farmacêutica para multiplicar lucros espalhando o medo e transformando qualquer problema banal de saúde numa “síndrome” que exige tratamento

Ray Moynihan, Alan Cassels

Há cerca de trinta anos, o dirigente de uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo fez declarações muito claras. Na época, perto da aposentadoria, o dinâmico diretor da Merck, Henry Gadsden, revelou à revista Fortune seu desespero por ver o mercado potencial de sua empresa confinado somente às doenças. Explicando preferiria ver a Merck transformada numa espécie de Wringley’s – fabricante e distribuidor de gomas de mascar –, Gadsden declarou que sonhava, havia muito tempo, produzir medicamentos destinados às... pessoas saudáveis. Porque, assim, a Merck teria a possibilidade de “vender para todo mundo”. Três décadas depois, o sonho entusiasta de Gadsden tornou-se realidade.

As estratégias de marketing das maiores empresas farmacêuticas almejam agora, e de maneira agressiva, as pessoas saudáveis. Os altos e baixos da vida diária tornaram-se problemas mentais. Queixas totalmente comuns são transformadas em síndromes de pânico. Pessoas normais são, cada vez mais pessoas, transformadas em doentes. Em meio a campanhas de promoção, a indústria farmacêutica, que movimenta cerca de 500 bilhões dólares por ano, explora os nossos mais profundos medos da morte, da decadência física e da doença – mudando assim literalmente o que significa ser humano. Recompensados com toda razão quando salvam vidas humanas e reduzem os sofrimentos, os gigantes farmacêuticos não se contentam mais em vender para aqueles que precisam. Pela pura e simples razão que, como bem sabe Wall Street, dá muito lucro dizer às pessoas saudáveis que estão doentes.
A fabricação das “síndromes”

A maioria de habitantes dos países desenvolvidos desfruta de vidas mais longas, mais saudáveis e mais dinâmicas que as de seus ancestrais. Mas o rolo compressor das campanhas publicitárias, e das campanhas de sensibilização diretamente conduzidas, transforma as pessoas saudáveis preocupadas com a saúde em doentes preocupados. Problemas menores são descritos como muitas síndomes graves, de tal modo que a timidez torna-se um “problema de ansiedade social”, e a tensão pré-menstrual, uma doença mental denominada “problema disfórico pré-menstrual”. O simples fato de ser um sujeito “predisposto” a desenvolver uma patologia torna-se uma doença em si.

O epicentro desse tipo de vendas situa-se nos Estados Unidos, abrigo de inúmeras multinacionais famacêuticas. Com menos de 5% da população mundial, esse país já representa cerca de 50% do mercado de medicamentos. As despesas com a saúde continuam a subir mais do que em qualquer outro lugar do mundo. Cresceram quase 100% em seis anos – e isso não só porque os preços dos medicamentos registram altas drásticas, mas também porque os médicos começaram a prescrever cada vez mais.

De seu escritório situado no centro de Manhattan, Vince Parry representa o que há de melhor no marketing mundial. Especialista em publicidade, ele se dedica agora à mais sofisticada forma de venda de medicamentos: dedica-se, junto com as empresas farmacêuticas, a criar novas doenças. Em um artigo impressionante intitulado “A arte de catalogar um estado de saúde”, Parry revelou recentemente os artifícios utilizados por essas empresas para “favorecer a criação” dos problemas médicos [1]. Às vezes, trata-se de um estado de saúde pouco conhecido que ganha uma atenção renovada; às vezes, redefine-se uma doença conhecida há muito tempo, dando-lhe um novo nome; e outras vezes cria-se, do nada, uma nova “disfunção”. Entre as preferidas de Parry encontram-se a disfunção erétil, o problema da falta de atenção entre os adultos e a síndrome disfórica pré-menstrual – uma síndrome tão controvertida, que os pesquisadores avaliam que nem existe.
Médicos orientados por marqueteiros

Com uma rara franqueza, Perry explica a maneira como as empresas farmacêuticas não só catalogam e definem seus produtos com sucesso, tais como o Prozac ou o Viagra, mas definem e catalogam também as condições que criam o mercado para esses medicamentos.

Sob a liderança de marqueteiros da indústria farmacêutica, médicos especialistas e gurus como Perry sentam-se em volta de uma mesa para “criar novas idéias sobre doenças e estados de saúde”. O objetivo, diz ele, é fazer com que os clientes das empresas disponham, no mundo inteiro, “de uma nova maneira de pensar nessas coisas”. O objetivo é, sempre, estabelecer uma ligação entre o estado de saúde e o medicamento, de maneira a otimizar as vendas.

Para muitos, a idéia segundo a qual as multinacionais do setor ajudam a criar novas doenças parecerá estranha, mas ela é moeda corrente no meio da indústria. Destinado a seus diretores, um relatório recente de Business Insight mostrou que a capacidade de “criar mercados de novas doenças” traduz-se em vendas que chegam a bilhões de dólares. Uma das estratégias de melhor resultado, segundo esse relatório, consiste em mudar a maneira como as pessoas vêem suas disfunções sem gravidade. Elas devem ser “convencidas” de que “problemas até hoje aceitos no máximo como uma indisposição” são “dignos de uma intervenção médica”. Comemorando o sucesso do desenvolvimento de mercados lucrativos ligados a novos problemas da saúde, o relatório revelou grande otimismo em relação ao futuro financeiro da indústria farmacêutica: “Os próximos anos evidenciarão, de maneira privilegiada, a criação de doenças patrocinadas pela empresa”.

Dado o grande leque de disfunções possíveis, certamente é difícil traçar uma linha claramente definida entre as pessoas saudáveis e as doentes. As fronteiras que separam o “normal” do “anormal” são freqüentemente muito elásticas; elas podem variar drasticamente de um país para outro e evoluir ao longo do tempo. Mas o que se vê nitidamente é que, quanto mais se amplia o campo da definição de uma patologia, mais essa última atinge doentes em potencial, e mais vasto é o mercado para os fabricantes de pílulas e de cápsulas.

Em certas circunstâncias, os especialistas que dão as receitas são retribuídos pela indústria farmacêutica, cujo enriquecimento está ligado à forma como as prescrições de tratamentos forem feitas. Segundo esses especialistas, 90% dos norte-americanos idosos sofrem de um problema denominado “hipertensão arterial”; praticamente quase metade das norte-americanas são afetadas por uma disfunção sexual batizada FSD (disfunção sexual feminina); e mais de 40 milhões de norte-americanos deveriam ser acompanhados devido à sua taxa de colesterol alta. Com a ajuda dos meios de comunicação em busca de grandes manchetes, a última disfunção é constantemente anunciada como presente em grande parte da população: grave, mas sobretudo tratável, graças aos medicamentos. As vias alternativas para compreender e tratar dos problemas de saúde, ou para reduzir o número estimado de doentes, são sempre relegadas ao último plano, para satisfazer uma promoção frenética de medicamentos.
Quanto mais alienados, mais consumistas

A remuneração dos especialistas pela indústria não significa necessariamente tráfico de influências. Mas, aos olhos de um grande número de observadores, médicos e indústria farmacêutica mantêm laços extremamente estreitos.

As definições das doenças são ampliadas, mas as causas dessas pretensas disfunções são, ao contrário, descritas da forma mais sumária possível. No universo desse tipo de marketing, um problema maior de saúde, tal como as doenças cardiovasculares, pode ser considerado pelo foco estreito da taxa de colesterol ou da tensão arterial de uma pessoa. A prevenção das fraturas da bacia em idosos confunde-se com a obsessão pela densidade óssea das mulheres de meia-idade com boa saúde. A tristeza pessoal resulta de um desequilíbrio químico da serotonina no célebro.

O fato de se concentrar em uma parte faz perder de vista as questões mais importantes, às vezes em prejuízo dos indivíduos e da comunidade. Por exemplo: se o objetivo é a melhora da saúde, alguns dos milhões investidos em caros medicamentos para baixar o colesterol em pessoas saudáveis, podem ser utilizados, de modo mais eficaz, em campanhas contra o tabagismo, ou para promover a atividade física e melhorar o equilíbrio alimentar.

A venda de doenças é feita de acordo com várias técnicas de marketing, mas a mais difundida é a do medo. Para vender às mulheres o hormônio de reposição no período da menopausa, brande-se o medo da crise cardíaca. Para vender aos pais a idéia segundo a qual a menor depressão requer um tratamento pesado, alardeia-se o suicídio de jovens. Para vender os medicamentos para baixar o colesterol, fala-se da morte prematura. E, no entanto, ironicamente, os próprios medicamentos que são objeto de publicidade exacerbada às vezes causam os problemas que deveriam evitar.

O tratamento de reposição hormonal (THS) aumenta o risco de crise cardíaca entre as mulheres; os antidepressivos aparentemente aumentam o risco de pensamento suicida entre os jovens. Pelo menos, um dos famosos medicamentos para baixar o colesterol foi retirado do mercado porque havia causado a morte de “pacientes”. Em um dos casos mais graves, o medicamento considerado bom para tratar problemas intestinais banais causou tamanha constipação que os pacientes morreram. No entanto, neste e em outros casos, as autoridades nacionais de regulação parecem mais interessadas em proteger os lucros das empresas farmacêuticas do que a saúde pública.
A “medicalização” interesseira da vida

A flexibilização da regulação da publicidade no final dos anos 1990, nos Estados Unidos, traduziu-se em um avanço sem precedentes do marketing farmacêutico dirigido a “toda e qualquer pessoa do mundo”. O público foi submetido, a partir de então, a uma média de dez ou mais mensagens publicitárias por dia. O lobby farmacêutico gostaria de impor o mesmo tipo de desregulamentação em outros lugares.

Há mais de trinta anos, um livre pensador de nome Ivan Illich deu o sinal de alerta, afirmando que a expansão do establishment médico estava prestes a “medicalizar” a própria vida, minando a capacidade das pessoas enfrentarem a realidade do sofrimento e da morte, e transformando um enorme número de cidadãos comuns em doentes. Ele criticava o sistema médico, “que pretende ter autoridade sobre as pessoas que ainda não estão doentes, sobre as pessoas de quem não se pode racionalmente esperar a cura, sobre as pessoas para quem os remédios receitados pelos médicos se revelam no mínimo tão eficazes quanto os oferecidos pelos tios e tias [2] ”.

Mais recentemente, Lynn Payer, uma redatora médica, descreveu um processo que denominou “a venda de doenças”: ou seja, o modo como os médicos e as empresas farmacêuticas ampliam sem necessidade as definições das doenças, de modo a receber mais pacientes e comercializar mais medicamentos [3]. Esses textos tornaram-se cada vez mais pertinentes, à medida que aumenta o rugido do marketing e que se consolidas as garras das multinacionais sobre o sistema de saúde.


http://diplo.uol.com.br/2006-05,a1302

(Tradução: Wanda Caldeira Brant) wbrant@globo.com
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Bibliografia complementar:

* A revista médica PLoS Medecine traz, em seu número de abril de 2006, um importante dossiê sobre “A produção de doenças” – http://medicine.plosjournals.org/

* Na França, as revistas Pratiques (dirigida ao grande público) e Prescrire (destinada aos médicos) avaliam os medicamentos e trazem um olhar crítico sobre a definição das doenças.

*Jörg Blech, Les inventeurs de maladies. Manœuvres et manipulations de l’industrie pharmaceutique, Arles, Actes Sud, 2005.

* Philippe Pignarre, Comment la dépression est devenue une épidémie, Paris, Hachette-Littérature, col. Pluriel, 2003.


[1] Ler, de Vince Parry, “The art of branding a condition ”, Medical Marketing & Media, Londres, maio de 2003.

[2] Ler, de Ivan Illich, Némésis médicale, Paris, Seuil, 1975.

[3] Ler, de Lynn Payer, Disease-Mongers: How Doctors, Drug Companies, and Insurers are Making You Feel Sick, Nova York, John Wiley & Sons, 2002.
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Hip Hop na Palestina!

Ilan Pappe - Faxina Étnica da Palestina

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Uma voz rara: uma entrevista com o autor Ilan Pappe [artigo traduzido]
By Rafael Fortes

Christopher Brown, A Intifada Eletrônica, 11 de dezembro de 2006

Um tênue cessar-fogo é mantido na Faixa de Gaza após quase cinco meses de uma pesada dose de “Operação Chuva de Verão” do exército de Israel.

As chuvas de mísseis, bombardeios aéreos, incursões militares em áreas populosas ao longo dos cinco meses da tempestade de “chuva” deixaram mortas mais de 457 pessoas, um quarto delas crianças, e bem mais de 1.000 feridos.

Desde que as chuvas de verão começaram, muitos partidários da paz em Israel permaneceram em silêncio a respeito da crise em andamento em Gaza e na Cisjordânia. Entretanto, uma voz permanece constante nos círculos israelenses e continua a se manifestar, apesar da oposição. Ilan Pappe é professor de história na Universidade de Haifa. Ele escreveu numerosos artigos sobre o conflito Israel-Palestina e tem aberta e continuamente clamado por boicotes acadêmicos e culturais a Israel.



Esses pronunciamentos fizeram do professor Pappe un enfant terrible [NT: uso a expressão em francês, existente no Aurélio, à falta de termo melhor para traduzir o termo original, scion] aos olhos do governo e do público israelenses, mas ele segue em frente na esperança de reconciliação e justiça para os palestinos. Sua mais recente contribuição é o novo livro The Ethnic Cleansing of Palestine [A limpeza étnica da Palestina].

Christopher Brown, colaborador da EI [Intifada Eletrônica, na sigla em inglês] falou recentemente ao telefone com o professor Pappe sobre a situação atual em Israel/Palestina.

* * *

Christopher Brown: Ehud Olmert recentemente indicou Avigdor Lieberman como vice-primeiro-ministro – um homem que alguns consideram um “fascista”, à luz de suas visões a respeito dos árabes, e palestinos em particular. Contudo, a imprensa mundial praticamente nada disse sobre seu discurso violento; por exemplo, que todos os árabes deveriam ser expulsos dos territórios [palestinos ocupados], e membros árabes do Knesset [parlamento israelense] deveriam ser executados por terem qualquer contato com o movimento liderado pelo Hamas. Entrementes, Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, tem cada palavra gravada para todos ouvirem, a respeito de o Holocausto ter sido um embuste, a destruição de Israel e afins. Sua resposta?

Ilan Pappe: Penso que você apontou duas questões muito importantes. A primeira é a ideologia que Avigdor Lieberman subscreve, que é a ideologia de limpeza étnica. Alguém que acredita que a única forma de resolver os problemas em Israel/Palestina é expulsar os palestinos de Israel e de qualquer território que Israel deseje.

Penso que o problema com Avigdor Lieberman não são suas próprias visões, mas o fato de que ele reflete o que a maior parte dos judeus de Israel pensam, e definitivamente o que a maioria de seus colegas no governo Olmert pensam mas não têm a coragem de dizer, ou não acham desejável dizer por razões táticas. Mas penso que deveríamos nos preocupar com Lieberman não como um extremista fascista, mas como uma pessoa que representa a disposição de Israel em 2006.

O segundo ponto é o critério duplo, a hipocrisia que você apontou quando comparou corretamente as declarações de Ahmadinejad sendo repetidas e palavras similares – generalizações e posturas piores por parte dos israelenses não sendo ouvidas. Penso que a explicação tem a ver com o lugar bastante peculiar que Israel ocupa no mundo ocidental. [Embora] não aos olhos da sociedade civil… Para a maioria das pessoas que vivem hoje no ocidente, [Israel] é um país que viola direitos humanos, direitos civis, e tanto sua ideologia quanto suas políticas são inaceitáveis. Mas os governos ainda incentivam bastante o estado [de Israel] porque o mundo é liderado por um presidente estadunidense e um grupo de pessoas que tem um certo ponto de vista, um ponto de vista quase religioso, no qual idéias como as de Lieberman se encaixam bem.

Não há muita diferença entre o programa político de Israel e o programa político dos EUA no Iraque. E penso que enquanto os EUA forem uma superpotência no mundo e Israel for seu aliado mais próximo, continuaremos assistindo a essa postura desigual nas atitudes dos governos e da mídia gorda [NT: mainstream media no original].

CB: Sessenta e um acadêmicos irlandeses escreveram uma carta aberta em setembro, apelando por uma moratória na ajuda da União Européia às universidades israelenses até Israel aceitar as leis internacionais e as normas básicas de direitos humanos. Além disso, um sindicato de professores canadenses clamou por boicotes acadêmicos. É essa uma forma efetiva de pressionar o governo de Israel a tratar a ocupação de uma forma que traga algo próximo a justiça para os palestinos?

IP: É uma forma efetiva, se não for apenas um boicote acadêmico. Um boicote acadêmico é um componente importante no que alguém pode chamar um boicote cultural de Israel, porque seria muito duro nesse mundo globalizado em que vivemos trazer sanções econômicas, as quais seriam as mais efetivas ao forçar uma mudança na orientação política israelense.

A segunda melhor, e mais factível, [forma] é mandar a Israel uma mensagem das sociedades como um todo de que suas políticas são inaceitáveis, que enquanto continuar a fazer o que faz ele não pode ser aceito. Não pode ser [aceito] na comunidade de nações civilizadas.

Penso que há tanto um significado simbólico quanto um bastante político para a reação coordenada de sociedades no ocidente para uma mensagem, uma mensagem clara, que é propagada tanto na forma de um boicote de desinvestimento ou qualquer outro ato simbólico que diga que há um preço colado a qualquer política que você adote e que, enquanto você adotar tais políticas, não é bem-vindo aqui. Não como indivíduos – você não é bem-vindo aqui se você representa uma certa ideologia, um certo estado, e especialmente se você aparece como um representante oficial desse estado. Não estamos inventando a roda, é óbvio. O boicote cultural foi um componente importantíssimo na ação contra o apartheid na África do Sul. Foi bastante eficaz e útil, segundo as pessoas que lá viveram.

O mais importante é lembrar sobre ações desse tipo é que elas são não-violentas. Alguém precisa mostrar aos palestinos, e os palestinos precisam descobrir por si mesmos, que há possibilidades não-violentas de esforçar-se para acabar com a ocupação de Israel. Porque se elas são não-violentas, quem poderia culpar os palestinos por usarem cada forma desesperada a seu alcance para tentar parar uma das mais cruéis e opressoras ocupações em tempos modernos?

CB: E sobre esses [como os que fazem lobby para Israel] que diriam que propor um boicote cultural ou acadêmico é alimentar o anti-semitismo? Como você responde a isso?

IP: Três pontos são importantes nessa conexão. O primeiro deveria realçar o fato de que muitos judeus progressistas e liberais, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, estão envolvidos nas ações de boicote cultural. De fato, em nome de sua identidade judia, herança, sua compreensão de valores judeus, eles ficaram ao lado dos que protestaram contra as violações dos direitos humanos nos Estados Unidos, na América do Sul, na África do Sul, no Sudeste Asiático – eles não vêem diferença quando se trata de Israel-Palestina. De fato, nesse caso, embora seja um estado judeu que viole direitos humanos, não muda a posição deles. Quem quer que seja o violador, resistirão contra ele.

O segundo [ponto] é, os israelenses estão exagerando o uso da acusação anti-semita contra qualquer um que os critique. Não apenas [contra] os que clamam por um boicote, mas mesmo a mais razoável crítica de Israel é pintada aqui como um ato de anti-semitismo. Penso que com uma boa rede de educação, poder-se-ia disseminar as visões de que a tática de Israel tem pouco a ver com reais ou efetivadas irrupções de sentimentos anti-semitas, os quais efetivamente ainda prevalecem em algumas partes do mundo. Talvez um ou dois conhecidos anti-semitas tenham se juntado ao trem, mas isso não prova nada. O fato é que Israel deseja estar imune a qualquer crítica. E o escudo que usa é sempre o anti-semitismo.

Terceiro, e mais importante, dever-se-ia diferenciar sionismo e judaísmo. Hoje podemos ver, após 60 anos, as implementações da ideologia sionista no chão, a partir do ponto de vista palestino.

Essa ideologia pode ter feito algum bem aos judeus ao redor do mundo, mas é definitivamente algo que não permite aos palestinos viver em paz ou mesmo viver [de qualquer maneira] em sua terra natal, e isso é sionismo. Tem alguma conexão com judaísmo, mas não diz respeito ao judaísmo. Diz respeito a uma ideologia colonial que, no século 21, ainda é imputada a um estado que é um projeto não finalizado. O Estado de Israel não foi construído corretamente. Como vocês sabem, não temos sequer fronteiras definitivas.

Penso ser muito importante educar as pessoas para o fato de que não é com a questão judaica que estamos lidando; estamos lidando com uma certa relíquia do período colonial cuja continuidade ainda é permitida na situação pós-colonial. Enquanto continuar dessa forma, [ela] complica a relação entre o mundo ocidental e o mundo árabe e o mundo muçulmano.

CB: Em 7 de novembro, o Partido Democrata venceu eleições que o permitiram controlar o Congresso dos Estados Unidos. Os Democratas têm sido críticos das políticas de Bush a respeito da condução da guerra do Iraque. Mas o partido tem reiterado que a relação entre os EUA e Israel não mudará. Essa orientação política é o melhor caminho de ação entre as nações, menos entre os palestinos?

IP: Bem, os resultados das eleições intermediárias são boas notícias em muitos aspectos para o público estadunidense. Mas não penso que [as eleições] tragam qualquer boa notícia para esta parte do mundo. Em outras palavras, não acho que a mudança no equilíbrio de forças nas duas casas possa mudar a política estadunidense frente à Palestina. Pode mudar, e poderia mudar, claro, o programa de ação estadunidense no Iraque. Mas penso que o Partido Democrata está tão comprometido com a proteção de Israel à custa dos palestinos quando a administração republicana. Não acho que no futuro visível vejamos qualquer mudança fundamental na política estaduniense em relação a Israel.

Você pergunta se deveria. Claro que deveria. Deveria porque [o Partido Democrata] é leal à nova perspectiva que traz para a política estadunidense – a idéia de que os estadunidenses deveriam ter algumas inibições na atuação internacional, de que o uso da força no Iraque estava errado, e que há um problema na imagem e reputação estadunidenses no mundo – se, de fato, essa é a mensagem dos democratas para a política estadunidense, então acho que eles deveriam prestar atenção ao fato de que a reputação e posição dos estadunidenses no mundo não é afetada apenas pela invasão do Iraque, mas também pelo apoio incondicional que os EUA dão a Israel à custa dos palestinos.

Penso que eles deveriam perceber que apenas mudando sua postura frente a Israel e tendo uma corretagem muito mais honesta no conflito podem realmente trazer mudanças construtivas na relação entre os EUA e o mundo árabe; o mundo muçulmano é, afinal, um quarto da população do mundo.

CB: Paz Agora (uma organização israelense pela paz) afirma que aproximadamente 40% das colônias, incluindo comunidades existentes há muito tempo, são construídas em terras particulares palestinas, e não em terras de propriedade do estado. Paz Agora recebeu essa informação de uma fonte do interior da administração civil, que queria expor as violações em larga escala dos direitos de propriedade dos palestinos pelo governo e pelos colonos. Você acredita que há mais [pessoas] no governo que discordam do tratamento dado aos palestinos e estão dispostas a se manifestar?

IP: Talvez haja mais, mas acredito que não é o suficiente. Esse tipo de crítica do Paz Agora sobre a informação que eles vazaram para nós é muito importante. Mas não se esqueça nunca que qualquer centímetro quadrado que tenha sido tomado por Israel é uma ocupação ilegal, não apenas os 40% que são terras particulares.

Pode ser uma violação mais dura, mas toda a presença de Israel é uma violação de direitos humanos e direitos civis. O que se precisa é muito mais que esse tipo de crítica. O problema em Israel é que entre Peace Now [e Avidgor] Lieberman, ao contrário do que andam dizendo, não há tanta distância ideológica assim. É uma questão tática de qual a melhor forma de garantir um estado judeu com uma vasta maioria demográfica.

Lieberman diz: vamos pegar qualquer território de que precisemos e alcançar esse objetivo diminuindo o número de árabes vivendo lá. Paz Agora diz: não, vamos pegar menos terra e diminuir a terra em vez da população e, assim, podemos ter o desejado estado de supremacia exclusiva. Ambas as posições são moral e politicamente erradas e inaceitáveis porque, ao fim do dia, você tem 20% a 30% de [população de Israel consistindo de] palestinos, mesmo no menor estado que o Paz Agora ambicione, e o Paz Agora não está disposto a vê-los como cidadãos iguais.

E as pessoas, mesmo no Paz Agora, iriam pôr a idéia de um estado judeu acima de qualquer outra falha, democrática ou liberal. Então penso que mesmo se eu encontrasse no governo ou na administração pessoas que querem um modo mais limpo de ocupação, uma ocupação mais legitimada, é claro que eu as saudaria. Mas estou avisando que já estivemos lá anteriormente. Essas pessoas estiveram no governo e elas não fizeram qualquer mudança porque a razão para o conflito em andamento entre Israel e Palestina não é porque Israel ocupa partes da Cisjordânia e de Gaza e não está disposto a devolvê-las. A razão para termos o conflito é a ideologia sionista. Isso é onde ele [o conflito] começa e onde termina. Enquanto a grande maioria dos judeus em Israel subscrever essa ideologia na sua interpretação atual, temo que não veremos paz e reconciliação chegando a esta terra.

CB: Por fim, IlanPappe, o que as pessoas que torcem pela segurança de israelenses e palestinos podem fazer?

IP: Bem, penso que todo mundo tem um papel a desempenhar, especialmente pessoas que se importam; tanto os que pertencem a Israel-Palestina ou se importam com Israel/Palestina. Penso que palestinos têm seu papel de resistência; as forças progressistas dentro de Israel continuam a tentar educar e mudar o ponto de vista de seus compatriotas.

Mas a sociedade fora tem que desempenhar o mesmo papel que o movimento antiapartheid desempenhou no Ocidente durante o vigor do apartheid. Precisamos de um lobby no interior do mundo ocidental – especialmente nos Estados Unidos, mas também na Europa. Esse [lobby] enviaria uma mensagem clara a Israel de que essas políticas e ideologias são inaceitáveis, especialmente se você quer ser parte do mundo democrático, e nós precisamos mudar nossa política, a natureza ideológica do estado, e ter uma sociedade muito mais democrática como base.

Israel precisa de uma chamada para despertar. Israelenses não sabem que isso é o que o mundo pensa a respeito deles e penso que sociedades civis ao redor do mundo podem ser o despertador para eles, e elas devem ser o despertador.

Christopher Brown é um jornalista popular vivendo em São Francisco, Califórnia. Ele tem um blog sobre a Palestina em www.cbgonzo.blogspot.com.

[Entrevista originalmente publicada n'A Intifada Eletrônica. Tradução: Rafael Fortes

The American Way of Life e o resto

THE SHMINISTIM – ISRAEL'S YOUNG CONSCIENTIOUS OBJECTORS

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The Shministim are Israeli high school students who have been imprisoned for refusing to serve in an army that occupies the Palestinian Territories. December 18 marks the launch date of a global campaign to release them from jail. Join over 20,000 people including American conscientious objectors,Ronnie Gilbert, Adrienne Rich, Robert Meeropol, Adam Hochschild, Rabbi Lynn Gottleib, Howard Zinn, Rela Mazali, Debra Chasnoff, Ed Asner and Aurora Levins-Morales and show your support by contacting the Israeli Minister of Defense using the form below. 40,000 LETTERS AND COUNTING!




www.december18th.org

Festa de Despedida

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Happy New Year !

Fungindo do Sapato para entrar para a História

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