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Espaço Cibernético

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Governo federal continua atacando São Paulo




Jornal "O Estado de São Paulo", 21 de outubro de 2006

A Malhação de São Paulo


Nunca houve 'neste país' um político capaz de fazer o que Luiz Inácio Lula da Silva está fazendo para ficar mais quatro anos onde está. Na história nem sempre edificante das sucessões presidenciais brasileiras, a conduta de Lula e dos lulistas configura um padrão inédito, mesmo porque ele é apenas o segundo presidente que tenta reeleger-se. Nele se combinam o mais desenfreado pouco-caso até com as aparências de integridade no exercício da suprema função pública e a incontida desenvoltura no uso, para fins eleitorais, de métodos escandalosamente incompatíveis com as normas comezinhas da ética política. Eles incluem, além da adulteração dos dados da realidade de seu governo, a enormidade de promover a desunião nacional, fomentando o antagonismo de classes e regiões. O que levou o opositor Geraldo Alckmin a afirmar que Lula 'está trabalhando para dividir o Brasil'.


São Paulo, onde o tucano obteve no primeiro turno 54% dos votos válidos e o presidente, apenas 37%, tornou-se o saco de pancadas preferido do lulismo. Quem deu a partida às manifestações antipaulistas foi o deputado eleito Ciro Gomes, cuja agressividade e incontinência verbal já lhe custaram a chance de ir para o segundo turno em 2002. 'A tragédia brasileira é a classe dominante de São Paulo', disparou, semanas atrás. Dando a entender que o Estado é uma coisa e o País, outra, atacou o PSDB e o próprio PT paulistas, acusando-os, pedantemente, de serem 'fruto de uma sociologia que não é brasileira'.

Agora, na última quinta-feira, ninguém menos do que o presidente da Câmara, Aldo Rebelo, aderiu à malhação. Também ele - que nasceu em Alagoas, mas fez toda a carreira política em São Paulo - mergulhou no preconceito, recorrendo porém a um eufemismo para falar do Estado.
Em vez de investir ostensivamente contra os paulistas, escolheu como alvos o PSDB e o PFL, embora o contexto em que foram citados não deixe nenhuma dúvida sobre o verdadeiro alvo do parlamentar do PC do B. Ele comparou tucanos e pefelistas - de São Paulo, evidentemente - aos colonizadores britânicos, atribuindo-lhes a intenção de tratar o Nordeste como uma colônia africana.

Dias antes, num comício em Manaus, o próprio Lula, ressalvando, no entanto, que 'deve tudo a São Paulo', visando a seu adversário, agrediu as empedernidas elites paulistas, de que Alckmin seria o representante, incapazes de governar o País por terem 'a Avenida Paulista na cabeça'.

Na verdade, como observou o ex-presidente Fernando Henrique, numa entrevista em Buenos Aires, além de Lula sintomaticamente ter deixado de falar em trabalhadores, passando a falar em pobres, 'nas regiões comandadas pela oligarquia' - Norte e Nordeste - ele e o PT receberam votos de ricos e pobres. O mesmo Lula que ainda se entrega à demagogia de defender o primado da familiaridade com a população sobre a educação como requisito para governar bem - 'para governar não é preciso canudo, mas conhecer a cabeça e o coração do povo' - infunde nas deseducadas platéias a que se dirige a crença de que ele, porque saiu de onde saiu e nem precisou estudar para chegar onde chegou, veio salvá-las do que o seu aliado Rebelo diria ser a opressão colonial exercida pelos barões de um Brasil desenvolvido e imperial.

Ainda em Manaus, com a desenvoltura dos que sabem que os seus ouvintes não têm meios de distinguir entre fatos e ficções - e sem 1 grama de consideração sobre os inevitáveis efeitos de suas palavras para a deformação da mentalidade da gente cujo voto foi pedir -, Lula comparou a disputa do segundo turno a um confronto entre dois projetos. O da oposição, 'para o Sul e o Sudeste', e o seu, 'em que todas as regiões são tratadas com igualdade'. É de um cinismo sem tamanho. Os habitantes pobres das regiões mais atrasadas do País foram os primeiros e os maiores beneficiários do fim da hiperinflação graças a um projeto de estabilização concebido, por assim dizer, 'no Sul e no Sudeste'. Não haverão de ser raros os eleitores nordestinos de Lula que em 1994 recebiam o candidato Fernando Henrique agitando notas de real.

À época, Lula proclamou aos quatro ventos que o plano de estabilização era um estelionato eleitoral. O fato de que hoje se arrepende amargamente de ter caído nessa esparrela não o impede de pregar a hostilidade a São Paulo como instrumento do megaestelionato eleitoral - este sim, verdadeiro - que é a sua campanha

Leituras de hojeClaro que o Lula sabe de tudo...

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