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Espaço Cibernético

Espaço livre contra a babaquice geral que permeia nossa sociedade contemporânea.

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Metropolis: do expressionismo alemão ao animê japonês


Um texto interessante que trata sobre o expressionismo alemão (em sua primeira fase) é este escrito por Alfredo Rubinato sob o título “O Despertar da Besta: A alma do expressionismo alemão e sua tradução estética no cinema”.

“O expressionismo alemão é uma cultura de crise, reflexo do profundo desalento espiritual gestado nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial. A face da morte, estampada nos rostos de milhões de jovens precocemente ceifados, despertou os sentimentos de terror, misticismo e magia, adormecidos nas mais recônditas paragens da alma alemã. A certeza positiva dos sonhos de glória do imperialismo germânico cedeu espaço à sombra da derrota, da humilhação e do desespero. O renascimento do horror foi, pois, o fermento ideal para o surgimento do espírito expressionista, fim de todas as ilusões de poder alimentadas pela lucidez delirante da Era Bismarckeana. Povoado de incertezas e sombras, surgia, inclemente, um novo mundo, e o movimento expressionista, apoteose do indistinto e do vago, se transformaria na estética perfeita para esta realidade atroz.”



Uma das maneiras de se melhor comprender esta manifestação cultural particular da sociedade germânica pós primeira grande guerra é através das artes visuais, em especial o cinema. Rubinato nos coloca diante do porquê desta peculiaridade do cinema como uma janela mais clara para se entrar neste contexto cultural:

“Como adverte a escritora alemã Lotte H. Eisner, a principal historiadora do cinema alemão, "não é uma tarefa fácil penetrar na fraseologia expressionista alemã". Joga-se com expressões vagas, forjam-se cadeias de palavras combinadas ao acaso, procura-se o significado "metafísico" das palavras, inventam-se alegorias místicas, desprovidas de lógica e sentido, que são virtualmente intraduzíveis. Esta linguagem, carregada de símbolos, insinuações e metáforas permanece propositalmente obscura, sendo de acesso sumamente difícil para as línguas e mentalidades latinas. Pode-se afirmar, portanto, que aqueles que não estão familiarizados com o idioma alemão, compreenderão melhor expressionismo através da música, das artes plásticas e do cinema. A tradução cinematográfica da alma e da estética do expressionismo germânico é o objetivo deste trabalho. Antes, todavia, é preciso examinar em que consiste a fenomenologia expressionista.”



Esta “primeira fase” retrata uma época imediatamente posterior ao conflito terminado em 1918, sendo assim, a descrição da estética adotada no filme “O Gabinete do Doutor Caligaris”, vem carregada, influenciada pela visão de destruição e desesperança em que mergulha a Alemanha neste período.

“O pendor para contrastes violentos, bem como a nostalgia do claro-escuro e das sombras, da noite indistinta, da névoa sinistra, inata aos alemães, encontraram na arte cinematográfica um modo de expressão ideal. As visões criadas por um estado de alma sombrio e atormentado podem ser transpostas com rara fidelidade para o cinema, que lhes fornece um suporte a um só tempo concreto e irreal.”



Porém, na medida que os anos avançam e a transição do pós-guerra vai ficando mais distante, o expressionismo alemão começa a ligar-se esteticamente a outras manifestações culturais – modernismo e arte decô, como pode ser visto no filme Metropolis de Fritz Lang.

16/09/2005-17:45 (atualização): se você quer ter uma idéia do ambiente baseado na estética tratada imediatamente acima, pode assistir ao filme "Sky Captain and The World of Tomorrow" de 2004.

É esta a exata fase na qual o “pai do mangá “ Osamu Tezuka vai buscar alguma inspiração para seu conto de ficção científica homônimo da obra Fritz Lang lançado em 1949. Porém, apesar do mangá produzido por Tezuka ter esta "alguma" inspiração no filme alemão, é sob os traços de Katsuhiro Otomo (criador de Akira), que a adaptação da obra para o estilo “animê”, levada adiante por Rintaro (diretor de Galaxy Express 999), retorna ao clássico de Lang para captar sua estética e explicitamente compor o visual do universo da animação Metropolis produzida no ano de 2001.

[ trailer de Metropolis ] (formato Real Video)

Uma visão particular da obra de Tezuka, que pode ser notada, por exemplo, em clássicos do autor, como o próprio “Metropolis”, e também “Astro Boy”, é a apresentação dos robôs não mais como criações sem vontade própria, sem alma. Estes, em geral, assumem traços humanos (andróides), revelam emoções, não querem mais ser meros servos, e, em geral, sofrem a desconfiança e preconceito da sociedade, que os vê agora como ameaça à sua existência.

Este conceito do “elemento tecnológico” como ameaça à sociedade, parece caracterizar uma fase de transição da história humana, na qual a tecnologia começa a estender seus tentáculos, para lentamente passar a fazer parte do cotidiano dos indivíduos. Neste período, ainda não temos evidenciados os traços da visão “apocalípitica” em relação ao “elemento tecnológico” que mais tarde dará forma ao movimento ciberpunk, cujas características são colocadas de forma explícita em outro clássico do mangá “Ghost in The Shell”.

Digo que não ficam evidentes os traços do negativismo radical em relação à tecnologia, o qual é expresso na visão distópica característica do movimento ciberpunk, porque, no caso da obra de Tezuka, ainda há “os negociadores”, aqueles que equilibram a tênue estabilidade entre humanos e andróides, procurando encontrar maneiras destes coexistirem de forma pacífica. No universo de Tezuka, ainda fica claro que o homem é o “criador” e também “opressor”, porém , a “criação” começa a ter consciência, e vem a clamar pelo seu direito de existir como indivíduo, e livre da opressão e do preconceito do criador.

Ghost in The Shell: pesadelo ciberpunk que definiu o gênero "animê"


In a world where the human mind
can be programmed like a computer,
at what point does the human soul end
and the cybernetic machinery begin?



Ghost in The Shell” é o título da obra composta por oito mangás produzidos por Masamune Shirow, e publicados trimestralmente no Japão no final da década de 80.

Em 1996, Mamoru Oshii adaptou a obra de Shirow, elaborando um filme de animação que chamou muita atenção em função das avançadas técnicas de computação gráfica, o qual acabou por entregar identidade própria ao estilo “animê”.

O sucesso de “Ghost in the Shell” gerou obras posteriores, tais como, o mangá entitulado “Ghost in the Shell 2: Man/Machine Interface”, do ano de 2002. Além deste , no mesmo ano, é lançada a série televisiva “Ghost in the Shell: Stand Alone Complex”. Esta criada por Kenji Kamiyama, e baseada nas personagens e premissas contidas nos mangás de Shirow.

Em setembro de 2004 foi lançado um novo animê - também adaptado por Mamoru Oshii- denominado “Ghost in The Shell 2: Innocence”, além de outras obras derivadas da “marca” em que se tornou “Ghost in The Shell”.

A estória da primeira seqüência de mangás se passa no ano de 2029, e os limites entre a realidade virtual e o mundo real tornaram-se tênues. Inteligências Artificiais estão se tornando mais sofisticadas. Muitos indivíduos possuem interfaces implatadas em seus cérebros, facilitando a interação entre humanos e computadores, ou o aprendizado a partir destes. Por outro lado, as pessoas tornam-se mais propensas a serem manipuladas. A essência, ou a alma de uma pessoa, é conhecida como seu “fantasma”. E os hackers capazes de invadir o “fantasma” de uma pessoa são os mais habilidosos, e também sujeitos às mais severas penas se capturados.

O universo criado por Shirow exprime elementos como a distopia (basicamente a anti-utopia, caracterizada pela existência de governo totalitário, ou algum tipo de opressivo controle social), a fusão homem/máquina, a metrópole decadente, a existência de inteligências artificiais altamente desenvolvidas, o limite tênue entre realidade virtual e mundo real, a manipulação do indivíduo, o domínio das mega corporações. Estes são alguns componentes que embutem a obra do artista japonês no interior daquilo que se convencionou denominar “cultura ciberpunk”.

Em oportunidade recente, tratei brevemente sobre a identicação deste movimento em obras cinematográficas, tais como Blade Runner e The Matrix. Hoje, no entanto, podemos novamente identificar a “onda ciberpunk” presente também na literatura, através de mangás como “Gost in The Shell”, e nos animês que se inspiram neste gênero.

Conteúdo interessante no blog do Itaulab


Encontrei, pesquisando na net, o blog do Itaulab, e navegando pelos diversos posts há muita coisa interessante para se visitar, ver, analisar e, talvez, compreender.

A apresentação do blog coloca que:

"O Blog do Itaulab não é apenas um diário de bordo; é um compêndio de todas as descobertas feitas pelos integrantes do laboratório de mídias interativas do Instituto Itaú Cultural, em São Paulo."


Um trabalho de garimpagem de eventos, artistas, e obras que se baseiam em "arte digital" (vamos aqui classificar para atender aos gostos, afinal "tudo tem que ser classificado, catalogado, etiquetado, segundo o velho Raúl Seixas).

Quero apenas dar destaque a um item muito ilustrativo que está presente entre tantos outros catalogados no blog do Itaulab, sob o título "Realismo Capitalista". Cada um pode ver por si mesmo e concluir a semelhança (ou não) do estilo empregado no "cartaz" elaborado após os eventos de 11/09 pelo "Departamento de Segurança Interna dos E.E.U.U" e um pôster da era Soviética.

A propósito, baseado neste estilo adotado em determinada fase da era Soviética, andei vasculhando por alguns trabalhos artísticos promovidos pela "Rádio Bulgária", mas infelizmente não obtive sucesso em encontrá-los. Lembro bem do estilo característico das linhas bem definidas, retas. A retratação de indivíduos sempre com semblante decidido, firme. Se alguém souber, por favor me dê um toque.

15/09/2005 (atualização): com o objetivo de não deixar muito vaga a questão da fase em que a arte soviética é caracterizada pelo "realismo socialista soviético", deixo aqui um link com algumas imagens. Neste outro link há também pôsteres onde se vê estampado o estilo característico do realismo socialista soviético.

Que fim levou o movimento "ciberpunk"?


Estou pesquisando sobre o movimento ciberpunk com o objetivo de entender o que também é chamado por alguns de cultura nerd. Ocorre que nestas minhas pesquisas tenho encontrado material interessante, porém, ao menos pelo que pude identificar, fica um tanto restrito aos anos 90. Não entendo o porquê, mas parece que após a virada do século, esta cultura parece ter perdido força. Será que aqueles que acham que a tecnologia é a cura para todos os males venceram a parada? Ou então, o ciberpunk mergulha tanto no underground, que acaba ficando pouco visível como movimento.

Formalmente o ciberpunk passa a existir a partir da publicação do livro "Neuromancer", de Willian Gibson, no ano de 1984.

14/09/2005 (atualização): como estou a anos-luz de ser dono da verdade, quero aqui acrecentar um trecho tirado do artigo "cyberpunk in memorian?" de Iara Crepaldi disponível na revista online cibercultura do Instituto Cultural Itaú e que se refere ao reconhecimento do ciberpunk como movimento não em 1984, mas a partir de 1977. Sendo assim segue o trecho:

"O movimento teve início com a publicação de "City Come A-Walking" (1977), de John Shirley, e da novela "Involution Ocean" (1977), de Bruce Sterling. Na década de 1980, o lançamento de "True Names" (1981), de Vernor Vinge, e "Neuromancer" (1984), de William Gibson, contribuíram para difundir o movimento; e um fanzine de uma página produzido por Bruce Sterling, sob o pseudônimo Vincent Omniaveritas, começou a reunir diversos escritores, como Lewis Shiner e Rudy Rucker, interessados na visão de futuro proposta pela análise crítica do avanço científico e tecnológico."

Longe de mim querer apresentar definições a respeito de ciberpunk, até porque eu estou querendo entender. Porém, creio que já posso tentar apresentar uma das facetas dessa cultura característica da era tecnológia.

Basicamente, as manifestações da ala "negativista" da cultura ciberpunk procuram exprimir um pesadelo onde o totalitarismo e a tecnologia se aliam para controlar o indivíduo. Em geral, esta associação totalitarismo/tecnologia tem por trás de si uma "inteligência artifical" querendo escravizar os seres humanos. Contra este cenário de pesadelo pós-moderno se contrapõem os "hackers", em uma batalha contra o totalitarismo de base tecnológica. Os hackers utilizam-se de seus conhecimentos tecnológicos contra o inimigo comum também tecnológico, sendo assim, não se nega a tecnologia, mas a maneira como esta é utilizada, no caso para escravizar.

Penso que uma produção que serve para dar alguma luz - digo alguma, porque não creio ser válido classificar as coisas, pois nada é monolítico - seria a trilogia "The Matrix". Na seqüência de filmes desta trilogia escrita e dirigida pelos irmãos Wachowski, temos um ambiente sombrio, dominado pelas máquinas, onde os seres humanos são escravos desta sociedade totalitária e altamente tecnológica. A figura personificada por Keanu Reeves, seria característica da "resistência" levada a cabo por uma sociedade de "hackers".

Outra produção que também pode, ao meu ver, ser encaixada nesta dita cultura ciberpunk é o clássico "Blade Runner", do diretor inglês Ridley Scott.

Em ambas as produções nota-se claramente a decadência das metrópoles (superpovoadas, sujas, caóticas), o elemento tecnológico é também ponto central. Ambos as abordagens fazem parte da definição da cultura cyberpunk. Creio que, Blade Runner até apresenta mais claramente a idéia do ciberpunk, pela existências do "replicantes" (o homem máquina) e o combate à grande corporação que tudo controla e que produz os replicantes.

Por último, também citaria o filme "The Fifth Element", dirigido por Luc Besson. Nesta produção também nota-se a metrópole caótica e a tecnologia como elemento dominante na sociedade, apesar de que há aqui um vazamento para outras tendências que não são características da cultura cyberpunk. Sendo assim, creio eu, apenas o ambiente inicial do filme poderia ser enquadrado segundo as características ligadas a esse movimento cultural.

Quanto à definição de "hacker" é interessante notar que , ao ler uma entrevista de Richard Stallman, o conceito original da palavra hacker, seria algo como "espertinho", aquele que utiliza sua inteligência para provar seu maior grau de conhecimento, de astúcia, em relação aos outros. Isto se encaixa de certa forma no conceito atribuído àqueles que, apenas no intuito de provar que podem, invadem sistemas, desformatam páginas de internet, e por aí vai. Segundo entende-se do conceito original carregado pelo termo "hacker", não há a intenção do prêmio financeiro - apesar de que este até não seria recusado - mas, em verdade, a intenção é desafiar os iguais no sentido de definir qual o melhor.

Mas, com a evolução do "entendimento" do conceito de "hacker", este foi levado ser entendido como conceito negativo. O hacker como sendo membro de uma categoria de indivíduos com finalidades ilícitas em suas mentes, ou seja, utilizar seu conhecimento tecnológico objetivando benefícios para si próprio (sejam financeiros, estratégicos, etc).

Creio este ser um tema fascinante. E pretendo me aprofundar no estudo, tentando captar mais profundamente universo ciberpunk.

Talvez o futuro não seja tão sombrio como pregam os mais radicais, mas é certo que o conceito base pode ser tranferido para a atualidade, onde as "megacorporações" seriam o "estado totalitário", utilizando-se da tecnologia como maneira de dominação e lucro. Do outro lado, contra estas "megacorporações", estariam os "hackers" na figura daqueles que promovem o software livre, o desenvolvimento colaborativo, a liberdade de compartilhar conhecimentos e idéias.

A busca de um melhor entendimento do universo ciberpunk não deveria ser apenas "coisa de nerds", pois é um tema atual, que pode ser identicado em vários aspectos da "sociedade globalizada" e que, em assim sendo, nos afeta diretamente. Ocorre que, para começar a buscar este melhor entendimento, é necessário se interessar por tecnologia, buscar informações, conhecer algo mais do que Windows, World e Excel. A internet está aí pra isto, ou seja, para ajudar a entender o contexto atual, pois é uma base imensa de informação. Mas para utilizar a informação de maneira adequada, o indivíduo precisa estar ciente do que quer procurar, e assim saber filtrar a boa informação.

Caso queira assistir a mais um conteúdo interessante produzido pelo InfoMediaTV, acesse o link que segue e se inicie no universo ciberpunk.

[ ciberpunk - gênero mais contemporâneo da ficção científica ] (mpeg video ~ 3MB)

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