Tuesday, 25. July 2006, 17:23:41
"Eu sou vários, porém, um tem que prevalecer".
...por mim mesmo
Interessante aprendizado decorrente de uma longa conversa sobre comportamento humano: concluir que há certas pessoas que extrapolam o entendimento que podemos fazer delas.
Vejam que a existência de mais de um “eu” parece ser coisa comum, tendo em vista que o ser humano é influenciado pelos diferentes ambientes que freqüenta. Ocorre que, porém, sempre há traços comuns que se manifestam independentemente do ambiente no qual o indivíduo está inserido naquele momento. Então, apesar dessas variações de comportamento, conseguimos reconhecer em uma pessoa seus traços de personalidade independente de estar no ambiente A ou B.
Eu, particularmente, defini como “liga” esses traços comuns que se manifestam no indivíduo, que caracterizam seu “eu”. Assim é possível reconhecer que a pessoa é ela mesmo, estando onde esteja, influenciada por cada situação.
A vida, no entanto, no apresenta experiências interessantes, e uma delas é quando deparamo-nos com alguém que, aparentemente, não apresenta essa tal “liga”. Ou seja, as variações da personalidade entre diferentes ambientes ou situações ocorre como é de se esperar que ocorram. Mas ao analisarmos a personalidade que “surge” em cada novo momento, notamos que não há realmente nada que nos faça associar esta personalidade com qualquer outra da mesma pessoa. Não reconhecemos aqueles traços comuns entre diferentes comportamentos que o indivíduo em particular apresenta.
Confesso que esta “característica” particular encontrada em algumas pessoas é terrivelmente complicada de se compreender, e torna o relacionamento com o indivíduo assaz complexo, para não se dizer quase que impossível.
A dificuldade resulta no fato de que relacionamentos são baseados em um reconhecimento do outro, de seus traços marcantes. Esse reconhecimento do outro é essencial para que possamos adotar uma linha de conduta coerente em relação ao indivíduo. Porém, a falta dessa “liga” não nos permite traçar uma linha de conduta única. A falta do traço comum no leva também a criar uma série de “subentendimentos” da pessoa, e que devem ser aplicados dependendo de quem se apresenta naquele determinado instante. Sim, pois parece que “pessoas diferentes” habitam um mesmo corpo. E se não temos sensibilidade suficiente para detectarmos quem está a se manifestar em determinado momento, corremos o risco de estar a tratar de maneira inadequada uma pessoa. Mesmo que essa pessoa continue sendo ela mesmo (e obviamente o é, fisicamente falando), o comportamento que se apresenta é totalmente contraditório em relação ao que pensávamos conhecer desse indivíduo.
Isso é real, porém poderia ser encarado como algo baseado em um movimento surrealista. É uma das experiências mais estressantes que o ser humano pode ter na vida.
Todos apresentamos múltiplas facetas que se manifestam em diferentes ambietes e/ou situações. Isso é próprio da personalidade humana, ao que me parece. Porém, entre essas múltiplas facetas, há traços comuns entre todas elas, e esses traços são as características de nossa personalidade, que a pessoa que nos conhece sabe reconhecer em nós mesmos. Isso nos torna únicos, esses traços característicos que unem diferentes personalidades nossas.
Quando uma pessoa demonstra ausência dessa “impressão digital” da personalidade, aí então é problema grave. Porque não temos como lidar com isso sem dividirmo-nos da mesma maneira para atender à demanda das necessidades em relação a essa pessoa. Ocorre que, fracionar nossa personalidade talvez não seja o problema, mas sim fracionar e deixar de ser quem somos em função de atender à realidades diferentes que habitam em outro ser humano. Tudo favor de um relacionamento que não pode existir se aquele que não apresenta os traços centrais marcantes nega-se a reconhecer essa característica particular, e simplesmente impõe aos outros sua existência, suas atitudes, sua incoerência, sua indecisão, e por aí vai.
O que fazer para manter uma relação se uma das partes parece nunca reconhecer a si própria? O que fazer se uma das partes nunca parece responder a uma questão básica a si própria: quem eu sou?
Por mais que queiramos bem uma pessoa, é complicado manter algo se não podemos reconhecer traços únicos que nos ligam a essa pessoa. Pior ainda, se essa pessoa parece pouco se importar com essa questão, e simplesmente passa pela vida como uma brisa, ou mesmo como um Tufão furioso. Furioso não pela violência com que se movimenta, mas pelas atitudes estranhamente mansas, porém destruidoras.