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Posts tagged with "Poesia"

Mesa de cafe

, , ,

mesa

O olhar

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos domónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina
in «Algo Parecido Com Isto, Da Mesma Substância»

Muriel - Ruy Belo

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Às vezes se te lembras procurava-te

retinha-te esgotava-te e se te não perdia

era só por haver-te já perdido ao encontrar-te

Nada no fundo tinha que dizer-te

e para ver-te verdadeiramente

e na tua visão me comprazer

indispensável era evitar ter-te

Era tudo tão simples quando te esperava

tão disponível como então eu estava

Mas hoje há os papéis há as voltas dar

há gente à minha volta há a gravata

Misturei muitas coisas com a tua imagem

Tu és a mesma mas nem imaginas

como mudou aquele que te esperava

Tu sabes como era se soubesses como é

Numa vida tão curta mudei tanto

que é com certo espanto que no espelho da manhã

distraído diviso a cara que me resta

depois de tudo quanto o tempo me levou

Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid

havia as ruas as pessoas o anonimato

os bares os cinemas os museus

um dia vi-te e desde então madrid

se porventura tem ainda para mim sentido

é ser solidão que te rodeia a ti

Mas o preço que pago por te ter

é ter-te apenas quanto poder ver-te

e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te

Sou muito pobre tenho só por mim

no meio destas ruas e do pão e dos jornais

este sol de Janeiro e alguns amigos mais

Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo

pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te

Eu aprendi a ver a minha infância

vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos

e penso que se bach hoje nascesse

em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior

que esta mesma tarde num concerto ouvi

teria concebido aqueles sweet hunters

que esta noite vi no cinema rosales

Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem

E penso que se nunca a bem dizer te vejo

se fosse além de ver-te sem remédio te perdia

Mas eu dizia que te via aqui e acolá

e quando te não via dependia

do momento marcado para ver-te

Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te

e antes de chegares já lá estavas

naquele preciso sítio combinado

onde sempre chegavas sempre tarde

ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses

se ausente mais presente pela expectativa

por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente

Mas sabia e sei que um dia não virás

que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste

ou até se exististe ou se eu mesmo existi

pois na dúvida tenho a única certeza

Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?

Aquela hora certa aquele lugar?

À força de o pensar penso que não

Na melhor das hipóteses estou longe

qualquer de nós terá talvez morrido

No fundo quem nos visse àquela hora

à saída do metro de serrano

sensivelmente em frente daquele bar

poderia pensar que éramos reais

pontos materiais de referência

como as árvores ou os candeeiros

Talvez pensasse que naqueles encontro

sem que talvez no fundo procurássemos

o encontro profundo com nós mesmos

haveria entre nós um verdadeiro encontro

como o que apenas temos nos encontros

que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes

Isso era por exemplo o que me acontecia

quando há anos nas manhãs de roma

entre os pinheiros ainda indecisos

do meu perdido parque de villa borghese

eu via essa mulher e esse homem

que naqueles encontros pontuais

Decerto não seriam tão felizes como neles eu

pois a felicidade para nós possível

é sempre a que sonhamos que há nos outros

Até que certo dia não sei bem

Ou não passei por lá ou eles não foram

nunca mais foram nunca mais passei por lá

Passamos como tudo sem remédio passa

e um dia decerto mesmo duvidamos

dia não tão distante como nós pensamos

se estivemos ali se madrid existiu

Se portanto chegares tu primeiro porventura

alguma vez daqui a alguns anosjunto de califórnia vinte e um

que não te admires se olhares e me não vires

Estarei longe talvez tenha envelhecido

Terei até talvez mesmo morrido

Não te deixes ficar sequer à minha espera

não telefones não marques o número

ele terá mudado a casa será outra

Nada penses ou faças vai-te embora

tu serás nessa altura jovem como agora

tu serás sempre a mesma fresca jovem pura

que alaga de luz todos os olhos

que exibe o sossego dos antigos templos

e que resiste ao tempo como a pedra

que vê passar os dias um por um

que contempla a sucessão de escuridão e luz

e assiste ao assalto pelo sol

daquele poder que pertencia à lua

que transfigura em luxo o próprio lixo

que tão de leve vive que nem dão por ela

as parcas implacáveis para os outros

que embora tudo mude nunca muda

ou se mudar que se não lembre de morrer

ou que enfim morra mas que não me desiluda

Dizia que ao chegar se olhares e não me vires

nada penses ou faças vai-te embora

eu não te faço falta e não tem sentido

esperares por quem talvez tenha morrido

ou nem sequer talvez tenha existido

Ruy Belo

Pensar é estar doente dos olhos

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O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Antonio Caeiro um dos heteronimos de Fernando Pessoa

Pedra filosofal - António Gedeão

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Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos
como estes pinheiros altos

que em verde e ouro se agitam
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma. é fermento,
bichinho alacre e sedento.
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel.
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança.,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra som televisão
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre a mãos de uma criança.

António Gedeão

Palavras que nos beijam

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Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
(Autor: Alexandre O'Neill)

Todas as Cartas de Amor são Ridículas

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Originally posted by Álvaro de Campos (Fernado Pessoa):

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

António Aleixo

,

Simples, humilde, iletrado, António Aleixo surpreende com a profundidade filosófica dos seus versos. É um caso singular na poesia portuguesa. Inspirava-o o quotidiano. Servia-se de uma feira da aldeia, uma ceia, um traço caricatural de gente conhecida e improvisava. O tom era mordaz, mas autêntico. Aleixo transferia para a escrita o seu batalhão de emoções. O povo repetia - e saboreava - verso a verso. A sua obra poética é um manancial de sabedoria empírica. “Um grande poeta”, resume o escritor Rui Zink.


Aleixo brincava com as palavras. Tudo era motivo para um verso: amor, ódio, injustiça, vícios da sociedade, sorte, azar, mentira hipocrisia ele próprio. A vida, afinal. António Aleixo, poeta do povo, deixou ao mundo uma obra inverosímil, pela sensibilidade, simplicidade, perspicácia e argúcia únicas. Um homem simples e puro, que sempre se situou acima das fúteis manifestações da vida.

O poeta algarvio, nascido em 18 de Fevereiro de 1899, compôs e improvisou nas mais diversas situações do dia-a-dia. Numa festa da aldeia, num jantar, a vender bilhetes de lotaria. Riu-se das circunstâncias em que viveu e da própria aparência.

“Sei que pareço um ladrão
Mas há muitos que eu conheço
que, sem parecer que o são,
são aquilo que eu pareço”


escreveu o poeta. António Aleixo foi tecelão, guarda, servente de pedreiro, pastor, cantor popular em feiras e mercados, e vendedor de cautelas, a sua actividade a tempo inteiro. Ficou conhecido como o “poeta cauteleiro”. Quando emigrou para França, foi ainda servente de pedreiro. A escrita adocicou-lhe a vida.

Humilde mas de personalidade vincada, António Aleixo fez brotar, na 1.ª metade do século XX, uma poderosa corrente do cancioneiro popular português, à qual foi dada o seu nome. Uma corrente assinalada pelo artista plástico Tóssan e o professor de liceu Joaquim Magalhães, ambos admiradores convictos do poeta. “Aleixo é semianalfabeto e é graças a esse professor, quase anónimo, que hoje conhecemos os seus poemas. Passou a escrito os poemas de Aleixo”, lembra Rui Zink. Também ao professor o poeta dedicou uma quadra:

“Não há nenhum milionário
que seja feliz como eu
Tenho como secretário
um professor do liceu.”


O poeta deixou obras como “O Auto do Curandeiro”, “O Auto da Vida e da Morte”, “O Auto do Ti Jaquim” (incompleta), “Inéditos” e “Este Livro Que Vos Deixo”, a mais conhecida. O primeiro livro, editado pelo Círculo Cultural do Algarve, nasceu em 1943 de uma compilação de José Rosa Madeira, protector dos seus escritos. Foi bem acolhido pela crítica: 1100 exemplares vendidos. A vida de Aleixo melhorou substancialmente, mas foi ensombrada pela morte de uma filha, vítima de tuberculose. Também o poeta morreu com esta doença, em 1949. O seu espólio encontra-se, aliás, fragmentado. Sob o espectro incontido do medo, muitos dos seus cadernos foram cremados como defesa contra o vírus infeccioso da doença que o vitimou.

Escreveu a sua autobiografia numa quadra:

“Fui polícia, fui soldado,
Estive fora da nação;
Vendo jogo, guardei gado
Só me falta ser ladrão.”


Os seus versos são caracterizados por um tom dorido, mordaz, irónico - uma crítica social feroz aos vícios e virtudes da sociedade. Em vez de se abandonar às lamentações da vida, escrevia sobre elas. Era a própria imagem da saúde e da força. Tinha um olhar feroz para tudo o que o rodeava e isso reflectia-se nos seus poemas. Homem simples e iletrado, António Aleixo ditou ao mundo um conceito muito pessoal da própria vida. Tem o nome em várias ruas do País, monumentos erigidos em sua honra e ainda foi criada a Fundação António Aleixo. Ganhou um lugar na história da literatura portuguesa. “É a prova de que o amor à palavra existe, mesmo que não seja no campo da escrita”, atesta Rui Zink.

Pessoa, era um grande poeta, mas Aleixo tinha a poesia nas veias. Toda a sua obra se resume a dois livros, os quais recomendo vivamente

Talvez seja este o maior portugues de sempre?

Desejo-te by Vitor Hugo

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Originally posted by Vitor Hugo:

Desejo primeiro, que você ame,
e que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer
e esquecendo não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
que mesmo maus e inconseqüentes,
sejam corajosos e fiéis,
e que em pelo menos num deles
você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
desejo ainda que você tenha inimigos;
Nem muitos, nem poucos,
mas na medida exata para que, algumas vezes,
você se interpele a respeito
de suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
quando não restar mais nada,
essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante;
não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
mas com os que erram muito e irremediavelmente,
e que fazendo bom uso dessa tolerância,
você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você sendo jovem
não amadureça depressa demais,
e que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
e que sendo velho não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor
e é preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste;
não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra que o riso diário é bom;
o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra,
com o máximo de urgência,
acima e a despeito de tudo, que existem oprimidos,
injustiçados e infelizes,e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
alimente um cuco e ouça o joão-de-barro erguer triunfante o seu canto matinal;
porque assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
por mais minúscula que seja,
e acompanhe o seu crescimento,
para que você saiba de quantas
muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo outrossim, que você tenha dinheiro,
porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
coloque um pouco dele na sua frente
e diga "Isso é meu",
só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum dos seus afetos morra,
por ele e por você,
mas que se morrer, você possa chorar
sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo um homem,
tenha uma boa mulher,
e que sendo uma mulher,
tenha um bom homem
e que se amem hoje, amanhã e no dia seguinte,
e quando estiverem exaustos e sorridentes,
ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
não tenho nada mais a desejar.

Fernando Pessoa Grátis no Major

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O Major Reformado orgulha-nos ao apresentar "As Mensagens da Mensagem": a Mensagem de Fernando Pessoa, anotada e comentada.

Fonte» http://mundopessoa.blogspot.com

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