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Pensando bem...

...sermpre é possível mudar de idéia!

Tratado Geral sobre a Arte de Dar Mole (ou Por que você só arruma homens babacas?)

,

Talvez você esteja com a auto-estima esmagada sob os calcanhares e pense que a resposta à pergunta do título é muito simples: porque você É uma babaca.

Tst-tsc-tsc... Para começar, aprenda que mulheres babacas não lêem. No máximo, olham as figuras. Então, se você está aqui neste site, disposta a ler este texto, é porque você não é tão babaca quanto pensa... Mas está intrigada com o fato de que, sendo uma mulher tão legal, só aparecem homens babacas em sua vida.

Se observar a humanidade com muito cuidado, chegará à conclusão de que só
existem dois tipos de pessoas: - os "babacas" e os "legais". O resto, são variações sobre esse tema básico.

Quem é o homem babaca? Observe com atenção todos esses sujeitos que estão à
sua volta. Repare nas manguinhas dobradas até a altura dos cotovelos arrochando os músculos cuidadosamente cultivados à base de levantamento de marombas e anabolizantes não-hormonais (ou nem tão não-hormonais). Na camisa cuidadosamente enfiada dentro das calças na medida certa. No cinto combinando com os sapatos e as meias. Nos cabelos aparados com máquina três, lembrando-a o gramado do londrino Hyde Park, embora a inspiração para o corte de cabelo tenha sido, obviamente, o gramado sintético do Yankee Stadium, que ele viu na ESPN ao acompanhar as disputas do campeonato "mundial" de "bêisbol" que, só para constar, é disputado exclusivamente por times estadunidenses.

O visual do babaca pode ser resumido numa única expressão: ele se veste de acordo com as normas da ABNT.

Em uma boate, você o verá dançando com os joelhos, mas não com os ombros;
um copo de qualquer drink na mão direita acompanhando descompassadamente o ritmo da música; o queixo quadrado empinado em atitude de "o dono do mundo"; as sobrancelhas espessas mais ou menos unidas sobre o nariz; o sorriso de dentes trincados congelado num rosto sem expressão; a gargalhada tecnostática ecoando em coro com as do bando de clones que o acompanha.

Se ele reparou em você, empina-se como um pavão e berra no ouvido do clone mais próximo um arremedo de confidência ao pé-da-orelha. Nos movimentos espalhafatosos de sua engrenagem labial, é legível cada "aê, maluco, tipo assim" que ele consegue pronunciar com grande consumo de energia neuronal, enquanto seu cotovelo supostamente amistoso atinge as costelas de seu clone, que responde com uma risada pseudo-cínica e um soquinho no ombro.

Ok, ele reparou em você. Ele até que é gatinho. Você está carente, bem que gostaria de dar uns beijinhos em alguém antes de voltar para casa.

Então, você olha um pouco mais detidamente para o sujeito que descrevi. Ele empina um pouco mais o queixo e caminha em sua direção como um Schwarzenegger pronto para exterminar o seu futuro. Começa a "dançar" com você, ao estilo ciborgue. O sorriso, aquele mesmo entredentes de antes, é o único que ele é capaz de emitir. O olhar, sopesando cada centímetro do seu corpo, de cima abaixo, movimenta-se como a
câmera de vigilância nos edifícios comerciais. O corpo rijo, exalando o mesmo perfume másculo da moda que você já sentiu na boate inteira em cada homem por que passou perto, movimenta-se com a graça e espontaneidade dos equipamentos de uma montadora de automóveis.

Você joga os cabelos para um lado e sua dança a conduz para cada vez mais perto dele. Ele empina ainda mais o peito - como se isso fosse possível. Ele aproxima a boca de seu ouvido, berra aquilo que considera a essência primordial de seu estilo de vida: "Aê, tipo assim!"...

...e, meio segundo depois, vocês estão se beijando, os lábios dele esmagando os seus como uma prensa mecânica, a mão apertando sua bunda como um inusitado aparelho de musculação.

A carência afetiva é a causa das maiores tragédias: desde a fome na África, a crise da energia elétrica e as guerras mundiais, até a sua desmiolada decisão de sair da boate com ele.

Querida, no momento em que você entra no carro dele, não tem mais volta. Todos os amigos clones do seu gato testemunharão em qualquer tribunal do mundo que você deu mole e deixou-se amassar à vontade por ele, na pista de dança e em vários outros pontos da boate em que ele a exibiu como um troféu de caça.

Você vai TER QUE DAR para ele. Mesmo que aquele par de sobrancelhas, olhando mais de perto, fora daquelas luzes estroboscópicas, subitamente lhe traga à lembrança uma peluda taturana.

O menor risco que você correrá ao recusar-se a transar com ele será o de ser expulsa do carro em lugar ermo, sob uma saraivada de xingamentos que a farão sentir-se como lixo não-reciclável por, no mínimo, uma semana.

O maior, você sabe qual é: ele é muito mais forte do que você, aqueles músculos marombados que pareciam tão atraentes na pista de dança tornam-se concretas ameaças na penumbra do carro dele e podem voltar-se contra você a qualquer momento. O melhor é relaxar e dar logo para esse imbecil, considerando-se uma mulher sortudérrima se ele topar usar a camisinha que você leva na bolsa.

(Outra diferença importante entre as mulheres babacas e as mulheres legais é que as legais sempre levam uma camisinha na bolsa).

Mas não é preciso desesperar-se. O ato sexual com esse sujeito não vai durar mais do que uma série de flexões de braço. Talvez você fique com a pelve dolorida alguns dias, porque ele acha que o segredo para levá-la aos píncaros do prazer é martelar violentamente o osso púbico dele contra o seu.

Os danos físicos não devem ir muito além disso. Seu maior problema a partir do momento em que ele gozar - o que não deve demorar mais do que uns cinco segundos... Quatro, três, dois... ; serão os danos morais. Depois que ele ejacular, tudo o que ele desejará será livrar-se de você o mais rapidamente possível e correr para contar aos clones como "deu cinco sem tirar de dentro daquela galinha" - você! - embora ela fosse "uma merda na cama".

As perguntas que iriam persegui-la por toda a sua vida caso o seu amigo, o cara legal Laertón Glauquito, não estivesse aqui para sanar todas as suas dúvidas, seriam as seguintes: - O que fiz de errado? Será que os homens são todos iguais?

Não, querida, não são. Existem muitos homens legais por aí, você é que não sabe olhar. Principalmente, você não os atrai porque não sabe dar mole para eles.

Comece sua observação pelas roupas. Homens legais não são desleixados -os desleixados compõem apenas outro estilo de babacas, mas não parecem saídos de uma linha de produção em série. Algo os diferencia da multidão e, se você observar bem, notará que é um certo despojamento relaxado. Os homens legais estão à vontade naquele ambiente porque ficam à vontade em todo lugar. Então, poderão até ter dobrado a manga da camisa na altura do cotovelo e a enfiado dentro das calças, mas o tecido já escorregou um pouco e ele nem notou.

O cara legal poderá estar sozinho, ou acompanhado com amigos, mas você não notará sinais de ansiedade para "arrumar" uma mulher. Suas risadas serão espontâneas. Seus músculos, ainda que trabalhados, estarão soltos sob as roupas, pois ele não os flexionará sem um motivo justo.

Os caras legais não são exibicionistas, eles são o que são, espontaneamente, e estão ali com a mente e o espírito abertos para conhecer as mulheres que tenham a mente e o espírito abertos. Eles não se esforçam para aparecer, mas são notados pelas mulheres que os merecem.

Você quer merecer um deles? Então aprenda como dar mole para eles. Se sua técnica de dar mole só tem atraído babacas ou bundas-moles ultimamente, não há razão para não tentar algo diferente.

A maioria das mulheres (inclusive você, se leu este artigo até aqui) quer azarar os carinhas colocando-se numa redoma de vidro. Olham repetidamente para o cara de quem estão a fim, mas com a expressão gélida.

Às vezes, com uma tromba que, se desenrolada, chegaria ao joelho do Cristo Redentor.

Os caras legais até reparam em você, mas não se dão ao trabalho de interpretar os sinais ambíguos que você envia. Sabe por quê? Porque eles sabem que as mulheres legais enviam sinais com objetividade e cordialidade. "Sim, por favor" ou "Desculpa, mas não estou a fim", sem mágoas ou receios. Com suas caras e olhares contraditórios, tudo o que você consegue transmitir é algo como: - Desculpa, mas sim, por favor, não, estou a fim. Na dúvida, o cara legal não chega junto, pois receia incomodá-la.

Agora, adivinhe quem é que não receia incomodá-la?

Exatamente: o babaca. O babaca só se preocupa com o próprio umbigo, de modo que ele interpreta todos os seus sinais ambíguos como um "vem cá, gostosão"!. Como ele ignora seus sinais e avança o seu sinal, é com ele que você costuma terminar a noite. Como você não quer ninguém quer ficar sozinha, acaba aturando um tipo desses atrás do outro.

Em resumo, o método para conquistar um cara legal envolve apenas dois passos. O primeiro é aprender a reconhecê-los. O segundo é aprender a dar mole para eles. Aprenda a enviar sinais objetivos. Se você gostou dele, olhe-o diretamente, em vez de ficar olhando e desviando o olhar, como se não estivesse interessada, ou como se ele estivesse te incomodando. Se ele sorrir para você, retribua o sorriso, em vez de amarrar uma tromba quilométrica. Enfim, trate-o com educação e cordialidade, pois os caras legais são educados e cordiais. Se você tratar os homens com estupidez e
brutalidade, só atrairá homens estúpidos e brutais, aqueles que nós, com
toda a razão, chamamos de babacas.


Por Laertón Glauquito.


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Sintomatologia do Mal da Mulher Fresca ou “Por que você não consegue segurar seu homem”?

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Se você não consegue segurar homem algum junto de você, se ele jura que te ama mas acaba te largando no altar para casar com outra ou, pior ainda, encerra o relacionamento para ficar sozinho, talvez você padeça de “Criogineíte”, doença mais conhecida como “Mal da Mulher Fresca”.

O vírus da criogineíte provoca alterações morfológicas facilmente visíveis a um olho treinado. Por exemplo, no cérebro da Mulher Fresca, a doença impede que ela perceba que os homens consideram a mulher como o maior de todos os ansiolíticos.

Para compreendermos melhor esse ponto, faz-se necessária uma breve digressão sobre o funcionamento do organismo do macho que a Mulher Fresca está prestes a perder.

As elevadas dosagens de testosterona no sangue dos homens tornam-nos irritadiços, prontos a apertar o botão que desovará os mísseis para detonar essa merda toda de uma vez. Cabe à mulher evitar o cataclisma mundial, desviando para seus órgãos macios e quentinhos toda essa transbordante agressividade testicular.

O vírus da criogineíte bloqueia a percepção feminina desse fato natural básico, permitindo que o macho desvie seus fluxos testosteronais para outros canais menos adequados, como o comportamento no trânsito – homem de saco cheio é o maior causa de acidentes automobilísticos, a pelada de domingo, a cervejada no botequim ou a vaca daquela vizinha oferecida, que vive se oferecendo para seu homem porque a oferta de homem está escassa.

Ainda na cabeça da Mulher Fresca, observam-se extensos e contínuos movimentos na cavidade buco-faringeal, que produzem vocalizações como “Ai, que nojo”, “Cruzes, que horror”, “Não estou a fim hoje”, “Não sou um objeto”, “Aí, não”, “Mais devagar”, etc.

A longo prazo, a atividade do vírus da criogineíte tende à destruição progressiva das cordas vocais da Mulher Fresca, dotando-a de um tom infantilizado e ligeiramente anasalado, semelhante ao de um gato engasgando-se com uma espinha de peixe.

O efeito mais destrutivo exercido pelo vírus sobre o cérebro de suas vítimas, porém, é exercido sobre a energia neuronal. Quando o vírus atinge o pico de sua atividade, o cérebro da Mulher Fresca conduz-se rapidamente para um estágio terminal, no qual a cura se torna impossível e o prognóstico mais otimista é o de um divórcio-relâmpago.

Nesse penoso estágio, a Mulher Fresca analfabetiza-se, não consegue articular duas palavras por escrito, torna-se incapaz de ler qualquer texto pouco mais complexo do que os da revista Caras sem atribuir às palavras lidas delirantes duplos sentidos persecutórios, imaginando-se vítima de ofensas claramente não intencionadas pelo autor.

Condenada pela doença a uma atitude permanentemente defensiva e paranóica, a Mulher Fresca em estado terminal interpreta com desconfiança mesmo os atos mais carinhosos, rejeitando inclusive os elogios mais inocentes, agredindo qualquer macho que lhe dirija uma palavra terna, como “querida”, por exemplo.

Não há homem que agüente.

Infelizmente, a cabeça não é a única parte do organismo dos relacionamentos que é virulentamente afetada pelo Mal da Mulher Fresca. A sensibilidade do corpo com criogineíte atinge níveis tais em que até o leve roçar de uma barba no cangote resulta em histéricos urros de dor. Qualquer toque, em qualquer parte do corpo da Mulher Fresca, ou está doendo, ou é forte demais, ou é fraco demais... O homem, por mais que se esforce, jamais consegue encontrar o maldito meio-termo que a agrada.

A sensibilidade corporal advinda dessa terrível doença pode provocar impresivíveis tragédias pessoais e profissionais. Um inocente roçar de coxas no sofá se pode se transformar em acusações de tentativa de estupro. Um simples elogio no ambiente de trabalho, em uma ação na Justiça por assédio sexual. Uma simples mensagem de e-mail, em um festival de baixarias sem sentido.

O lado mais irônico desse aspecto da horrenda virose é que, apenas seis meses antes, esse mesmo toque, que agora provoca dor e reações iradas, causava gemidos de prazer e pedidos de “quero mais”.

No início do relacionamento com a Mulher Fresca, o incauto macho que caiu em suas garras por pouco não conseguia dar conta de seu desejo insaciável. Hoje, ele tem que implorar para que ela concorde em afrouxar a fivela do cinto da calça jeans.

Toda Mulher Fresca é uma ninfomaníaca no início do relacionamento. Em menos de seis meses, vira em freira.

O sonho de todo macho é casar-se com uma freira que, após o casamento, descubra-se uma ninfomaníaca. A Mulher Fresca faz exatamente o contrário, depois reclama que não consegue segurar macho algum.


Por Laertón Glauquito.


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Animais (Um conto antiquíssimo!)

“Seja bem vindo à frustração inerente aos seus maiores desejos” - dirá meu patrão, ao final deste relato. E você não pode imaginar o quanto ele está certo.

Estou infeliz, embora devesse estar satisfeito. Quando na faculdade, o meu maior desejo, e o de todos os meus colegas, era trabalhar “na área”. Trabalhar “na área” significava o sucesso, o triunfo sobre o dragão do mercado de trabalho. Para nós, um baixo salário pago por uma empresa “da área” soava melhor do que um alto salário ganho fora “da área”.

Nosso maior pesadelo era o serviço público. Céus, não encontrar outra solução que não a do concurso público era a derrocada final, a prova incontestável de nossa mediocridade. A própria ante-sala do inferno. Em nossa imaginação, pior do que o serviço público, talvez só o guichê de caixa de qualquer banco, público ou privado.

Pois bem, após meses de tentativas infrutíferas, eu estava, finalmente, trabalhando “na área”. Há cerca de três semanas, fui contratado por uma empresa de consultoria, em troca de um salário irrisório. Nos nossos sonhos de faculdade, partilhados em mesas bar, imaginávamos salas high tech em empresas multinacionais, repletas de computadores e de gente bonita, inteligente e bem-paga, elaborando estratégias brilhantes que trariam lucros astronômicos aos nossos clientes, que nos recompensariam com vultosas somas em dinheiro. Fama, reconhecimento, dinheiro, poder. Em uma palavra, sucesso. O mais autêntico sonho yuppie da finada década de ‘80. Em nenhum momento, nem mesmo em nossos piores pesadelos, pudemos imaginar que a realidade de mais de noventa por cento das empresas dessa “área” tão glamurosa fosse a de infectas salas comerciais em edifícios suspeitos, dirigidas por gente de uma desonestidade enervante, sempre “bolando armações” e “esquemas” para ganhar alguns centavos a mais, enquanto os verdadeiros milhões passavam ao largo dessas pocilgas.

Sim, pocilgas, pois o meu chefe era um porco. Um porco gordo, suarento, que aparentemente nunca tomava banho, sempre fedendo, a barba mal feita pingando gotas do sebo que lhe escorria da pele impregnada pela fumaça dos cinqüenta cigarros que fumava por dia. Suas camisas estampadas, baratas e de péssimo gosto, sempre abertas até a altura do umbigo, indefectivelmente exibiam catinguentas rodas de suor sob as axilas. Um medalhão enorme e oxidado adornava-lhe o peito, enquanto a valente correntinha que o sustentava desaparecia nas banhas de seus incontáveis queixos.

Jamais consegui compreender para quê alguém poderia querer consultar aquele pardieiro. Além do suíno e de mim, chafurdavam na pocilga dois ratos amarfanhados que, embora não fossem fisicamente semelhantes, pareciam clones um do outro. Suas roupas invariavelmente não caíam bem sobre o corpo, as golas e mangas puídas, tudo sempre encardido e desbotado. Quando falavam, cometiam todos os erros possíveis e imagináveis. Quase chegava a me divertir com a idéia de que cometiam erros de ortografia até quando falavam. Mas, em seguida, me entristecia ao lembrar que, na faculdade, gozávamos tanto de qualquer um que cometesse um mínimo deslize no bom uso do idioma.

Quanto a mim, não sabia bem o que fazia ali. Ou melhor, não sabia bem o que se fazia ali. O porco escancarava a porta de sua sala, um cubículo um pouco menor do que o quadrado onde nos espremíamos os dois ratos e eu, e vomitava um monte de berros incompreensíveis que, em seguida, eram traduzidos pelo rato mais experiente como ordens para pegar tal ou qual documento no arquivo, para preencher este ou aquele formulário padrão, e coisas do gênero. Assim, os dois ratos passavam a maior parte do dia fofocando entre si e comendo bolachas “cremecráqui”. E eu, eu fugia do tédio e da frustração lendo um bom livro ou torturando até a morte alguma das milhares de baratinhas que infestavam o escritório.

Mas aquele era um dia especial. O dia em que receberíamos a visita de um cliente. Dois ratos em polvorosa varriam as migalhas de biscoito do chão, esvaziavam os cinzeiros, espalhavam inseticida nos esconderijos das baratas, arrumavam freneticamente os papéis sobre suas velhas mesas... E eu também participava da faxina com alguma animação. Afinal, talvez a visita de um cliente pudesse me dar algum incentivo, talvez algum trabalho real surgisse em conseqüência dessa visita, talvez finalmente acontece algum fato novo que me levasse a não ter vergonha de dizer que trabalhava em uma empresa de consultoria “da minha área”.

O cliente deveria chegar às cinco horas. Às quatro, o porco dispensou os dois ratos e me chamou à sua sala.

- Você tem potencial, garoto. É educado... Fala bem... Por isso é que eu mandei aqueles dois babacas para casa mais cedo. Tu vai receber os clientes lá fora, com o maior dos rapapés, mas vai pedir para eles esperarem um pouco. Então tu entra na minha sala, fica uns dois minutos. Depois sai, bota eles pra dentro e fica esperando lá fora. Aguardando instrução. Se tu se sair bem, vai acabar virando o meu braço direito. Agora pode ir.

Balbuciei um tímido “sim, senhor” e saí, disposto a cumprir as ordens conforme as recebera, mas sem saber se a perspectiva de me transformar na pata direita daquele porco me entusiasmava ou me enojava. Em todo caso, às cinco e quinze chegaram os clientes, duas raposas com cara de gângster, ternos fora de moda e pastas de couro ensebadas. “Bem, não podia ser muito diferente”, pensei, mas procedi conforme as instruções, antes de retomar a leitura de meu livro.

A reunião já se prolongava por quase uma hora quando levantei os olhos para a janela de vidro que dava para o corredor. A persiana estava entreaberta e pude ver um rosto de mulher, um rosto dolorosamente familiar. Um choque de mil volts percorreu-me o corpo ao reconhecê-lo. Suelen. Suelen, meu amor da faculdade, meu anjo de pele branca e olhos negros cintilantes. Suelen, que me abandonou sem dar explicações. Suelen, que via naquele instante pela janela do chiqueiro, com um envelope pardo em uma das mãos e, na outra, um papelzinho, talvez um cartão de visitas, para o qual olhava com ar incrédulo, como se não acreditasse que o endereço fosse aquele mesmo. Ah, Suelen, eu também devo ter feito essa expressão quando vim aqui pela primeira vez, mas não com a mesma graça, não com a mesma pureza que via em seu rosto naquele momento.

Meu cérebro girava dentro crânio a mil rotações por segundo. Seria possível que minha Suelen ainda estivesse tentando trabalhar “na área” e que viera procurar emprego justamente aqui? Aquele envelope pardo certamente continha o seu currículo, primorosamente digitado e impresso, como os trabalhos que ela produzia na faculdade. Trabalhar com Suelen ao meu lado seria o paraíso. Com sua inteligência e bom-humor, faríamos planos como nos bons tempos e, juntos, encontraríamos nosso caminho rumo ao sucesso.

Sim, o porco estava certo. Eu e Suelen tínhamos um enorme potencial, mas não o desperdiçaríamos aqui. Pelo menos, não por muito tempo.

Vencida a hesitação, Suelen entrou no escritório. Meu coração saltitava no peito, explodindo de alegria e ansiedade. Pulei da cadeira e precipitei-me à sua frente. Suelen olhou-me com espanto, seus olhos negros arregalaram-se. Mas logo o espanto foi substituído pela surpresa e por um sorriso, o sorriso mais lindo e mais doce, um sorriso que tantas vezes recebi no passado, um sorriso que extirpou os meus últimos resquícios de ansiedade e me levou a explodir num fulgor de paixão. Linda, linda, mais linda do que nunca, não me contive e beijei-a antes que ela pudesse pronunciar uma palavra. Tomei o envelope de suas mãos e joguei-o sobre minha mesa sem deixar de beijá-la, apaixonado. E ela correspondeu, com o mesmo fogo daquela época, ardente, minha, minha, minha, toda minha, a minha Suelen.

Após uma eternidade de cálidos beijos, ela desvencilhou-se suavemente de meus braços e sorriu:

- É melhor fechar a persiana.

Enquanto caminhava para a janela, observei encantado o seu corpo mignon, o suave e elegante balanço de seus quadris, os cabelos negros e lisos repousando sobre os ombros. Ao voltar, e antes de me beijar mais uma vez, Suelen fitou-me nos olhos e sussurrou, com ar enigmático:

- Não sabia que era para você.

Não meditei por mais de um segundo sobre o sentido daquelas palavras. Pois, para meu espanto, ela imediatamente começou a livrar-se das roupas, revelando um conjunto vulgar de lingerie vermelha: sutiã transparente, calcinhas com aberturas presas por lacinhos, corpete, cinta-liga e meias. Chocado, incrédulo, pasmo, não conseguia esboçar uma reação, pronunciar uma palavra, mover um único músculo.

Foi então que o meu chefe abriu de supetão a porta da sala, pronto para dar mais um de seus berros. Mas calou-se ante a visão de Suelen. Sua expressão suavizou-se, tanto quanto é possível a um porco suavizar sua expressão.

- Ah, já chegou. Você não cobrou do garoto por fora não, hein?

Suelen observou minha expressão constrangida e entendeu o que se passava. Notei uma ponta de tristeza em seu rosto, porém ela rapidamente se recompôs.

- Cobrei sim. Ele estava incluído?

- Claro que estava. Devolve o dinheiro dele, que no final a gente acerta.

O porco voltou a entrar na sala e eu me senti derreter. Meus olhos gritavam “Por quê?” e os de Suelen não os evitavam. Limitavam-se a me indagar, com uma candura incompatível com o absurdo da situação, algo como “então você não sabia?”.

O que se seguiu permanecerá para sempre em minha memória. Suelen sendo devorada como uma galinha pelas duas raposas. Suelen trepando com o porco. Suelen lambendo o suor e o sebo das virilhas do porco. As raposas incansáveis, voltando à carga. O porco, saciado, me perguntando impaciente:

- Como é, garoto, não vai entrar no bacanal?

E eu, congelado. Imóvel. Morto por dentro.

Terminada a orgia, todos já vestidos novamente, as raposas já tendo ido embora, o porco cobrou de Suelen a devolução de meu dinheiro, dinheiro que eu não havia pago, pois nunca haveria de pagar para ter Suelen em meus braços:

- Afinal de contas, o garoto nem aproveitou.

Suelen, então, retirou disfarçadamente do envelope que havia recebido do porco, uma pequena quantia em dinheiro e a entregou em minhas mãos, dando uma piscadela:

- Ah, ele não devia estar se sentindo bem. Mas tenho certeza que embaixo dessas calças tem um machão incomparável. Outra hora a gente tenta de novo, né amor?

E beliscou minha bochecha antes de ir embora.

O porco olhava para mim, com ar de decepcionada reprovação.

Finalmente meu corpo reagiu. Tomado por violentos espasmos de vômito, corri para fora daquela sala, daquele pardieiro, daquela... Sim, daquela ante-sala do inferno! Quando atingi as escadas, não suportei mais e vomitei ali mesmo. Meu corpo desfaleceu e desandei a chorar, convulsivamente.

Pouco depois, ouvi um ruído. Era o porco, que havia jogado o envelope pardo ao meu lado. Abri-o e retirei de seu interior um panfleto que anunciava um “serviço de acompanhantes para executivos”. Reconheci imediatamente o estilo inconfundível do texto de Suelen. Reconheceria a autora daquele texto mesmo que o canto esquerdo do panfleto não estampasse um minúsculo logotipo seguido de um número de telefone. O logotipo de Suelen - Publicidade e Programação Visual.

Uma lágrima escorreu-me dos olhos. Uma lágrima de sarcástica alegria e resignação. Sim, Suelen estava trabalhando “na área”. Suelen era um sucesso, Suelen finalmente estava trabalhando “na área”.

O porco continuava em pé ao meu lado. Ergui a cabeça e fitei-o tranqüila e resignadamente enquanto ele me saudava:

- Seja bem vindo, garoto. Seja bem vindo à frustração inerente aos seus maiores desejos. Seja bem vindo ao Inferno, garoto.

E então os seus olhos se transformaram em dois abismos negros e gelados, nos quais mergulhei para nunca mais voltar.



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PUTAS: UMA CANÇÃO DE AMOR.

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Puta é a mãe dos outros.

Puta é a filha do vizinho.

Puta é a mulher daquele corno

que mora no outro lado da rua.



Minha mãe não,

só dava para o meu pai,

antes dele ficar broxa (1).



Minha filha não,

só dá para o noivo

(tudo bem que toda semana

ela aparece com um noivo diferente,

mas os jovens são tão volúveis).



Minha mulher

só dá pra mim,

tá pensando o quê?



Putas são profissionais.

Dão por dinheiro,

vejam só que absurdo.



Antes por dinheiro.

Toda relação humana é uma barganha.

Se o preço de um trabalho

não é cobrado em grana,

costuma ser alto demais.



Putas são profissionais.

Pagou, tomou, tchau.



Quanto te custa por mês cada trepada com sua mulher?



Deixemos de lado o cartão de crédito

que você deixou na mão dela

para comprar aquelas "miudezas indispensáveis",

para "ficar linda para você",

"para o nosso conforto"

ou "para as crianças".



Calcule os custos em termos

de carregamento de mala sem alça;

de pepinos altamente dispensáveis;

de complicações inúteis;

de bate-bocas intermináveis sobre...

qual era mesmo o assunto?;

de diversões não-vividas;

de jogos de futebol não-assistidos;

de cantadas malsucedidas –

"Ah, você é casado...

Não quero nada com homem casado";

de "o Júnior brigou na escola";

de "a mamãe vem almoçar com a gente

e vai trazer junto a Dona Ninoca";

de "amor, joga o lixo fora"

quinze vezes por dia;

de intermináveis cerimônias de casamento

de sobrinhas da manicure,

você usando terno em pleno domingão;

de "estou menstruada"

(ou pior: "a menstruação

está demorando a vir");

de cólicas e dores de cabeça diárias;

de humores que variam instantaneamente...



Tudo isso em troca de

uma ou duazinhas por semana,

no maior sufoco,

porque as crianças podem acordar,

porque o telefone pode tocar

e ela está esperando uma ligação urgente

da mamãe,

porque está com dor aqui ou ali,

porque hoje não está a fim

mas vai fazer o supremo sacrifício

de dar pra você hoje

porque o amor etcétera e tal.



Mas esposa cobra apenas

o terceiro michê mais caro do mundo.



Em segundo lugar, vêm as filhas.

Aquela coisinha linda se transformando

em um mulherão bem ali debaixo do seu nariz...

E você não pode comer,

senão comete crime de incesto,

é tachado de pedófilo,

te mandam para a cadeia,

onde você vai virar mulézinha (2)

de um negão

para aprender a deixar de ser tarado.



As suas filhas sabem

do tesão que você sente por elas

e se aproveitam de sua impotência

para enfiar a mão no seu bolso.



Penduram-se no seu pescoço,

tacam-lhe um monte de beijinhos,

te chamam de papaizinho,

ronronam,

fazem beicinho,

não há coração que agüente,

você dá tudo o que elas pedem

antes que a perspectiva

de virar mulézinha daquele negão

comece a não parecer tão assustadora.



Mas o michê mais caro de todos,

hors-concours,

é o da mãe.



De esposa,

você sempre pode se divorciar.

Lógico que ao preço de uma polpuda

pensão mensal para as crianças,

porque ela não quer nada para si mesma,

por ela você poderia ir

para o inferno junto com o seu dinheiro,

mas atrase um mês o

pagamento da pensão

e aquele negão estará pronto

para dar-lhe as boas-vindas.



Filhas crescem

e logo arrumam outro otário

para sustentá-las.

Você só precisa comprar

e equipar do teto ao piso

o apartamento

onde eles vão aprender juntos

o que é bom pra tosse.



Mas, mãe...

Cara, mãe é para a vida toda.



Tá fudido (3).



Se você sequer pensar em sexo

com sua mãe,

Deus castiga,

te manda direto pro inferno.



Ou pruma clínica psiquiátrica.



Essa mulher,

que te viu pelado desde que você nasceu,

que limpou sua bundinha

e lavou seu pingolim

esfregando-o com muito cuidado e carinho,

de quem você chupou os peitos até se lambuzar,

de quem você teve o privilégio

de ver a vagina pelo lado de dentro,

essa mulher é o ícone do que há

de mais intocável e assexual na face da Terra.



Mãe provoca o seu tesão

e castra sua ereção pelo resto da vida.

Pela sua mãe,

você não comeria ninguém.

Em cabeça de mãe, o seu nascimento

deveria ter representado para você

a trepada cósmica.



Os cuidados e carinhos concedidos a você

ao longo da sua infância,

a ontificação superlativa

do Gozo Universal Abstrato Absoluto Sintético.



O que Mãe não consegue entender

é que um saco vazio volta a se encher

e precisa esvaziar-se novamente.



Porra, se você não pode nem olhar

quando ela desfila de sutiã pela casa

na sua frente,

o que ela quer que você faça?

Se candidate a fornecedor perpétuo

da Laticínios Catupiry?



Michê por michê,

o das putas com carteira carimbada e

registro na associação profissional

até que sai muito mais em conta.



Né, dona Juanita?

*************

NOTAS:

(1) Atenção revisão: você por acaso já deu uma broxada com "ch"?

Portanto, não me corrija, broxa é com "x":

senão no dicionário, pelo menos na sua cama.

(2) Atenção revisão: se não sabe a diferença entre uma

"mulherzinha" e uma "mulézinha", pode ficar com a segunda

e mandar a primeira lá pra casa...

(3) Atenção revisão: você já fudeu alguém com "o"? Nem eu.


Por Laertón Glauquito.


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Piercing Pedagógico

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Chego à sala de aulas quinze minutos atrasado e me arrependo de ter chegado tão cedo ao meu local de trabalho. Os alunos só começam a pingar, no mínimo, meia-hora após o horário previsto.

As primeiras a entrar em sala, como sempre, são as meninas, que beleza, e alguns garotos meio efeminados, ai meu saco. Os machos, graças a Deus, só entram em sala no final, para "pegar presença".

Está quente. Falo sem parar e minha voz respinga em rostos sonolentos. “Alguma pergunta”?

Silêncio tumular.

Coxas se descruzam sob as saias, exibindo somente para meus olhos a mancha avermelhada do pronlongado contato pele a pele. Concentro-me em meu texto decorado, não posso gaguejar, nem mesmo quando as coxas se cruzam novamente e expõem num relance as bordas arredondadas de um triangular e fofinho cor-de-rosa.

Prossigo, impávido, o suor gotejante nas axilas, a garganta ressecada pelo pó de giz. Não posso fixar o olhar em ponto algum, um professor deve dirigir seu discurso a todos e, portanto, a ninguém em especial. Deslizo minhas pupilas por testas brilhantes de calor e seborréia, por seios pendentes sob blusas folgadas e seios eriçados sob blusas apertadas, por cabelos mal partidos formando labirintos para experimentos com cobaias...

Até que minha voz se engasga pela primeira vez quando entra na sala um piercing pendente em um umbigo perfeito.

Meu silêncio é obrigatório; meu olhar, um decreto.

Ela desfila consciente de que é o centro das atenções, prolonga esse gozo pelo tempo que lhe convém, nenhuma palavra de objeção por parte dos presentes.

Olhares de censura invejosa no rosto de algumas fêmeas. Boquiabertismo no queixo de alguns machos. Puro despeito nas risadinhas dos demais.

Ela se assenta suave na carteira logo em frente à minha mesa. Pousa delicada a sua bolsa, sem deixar de me fitar.

Durante o resto da aula, minha boca pronuncia palavras desprovidas de maior significado aos meus próprios ouvidos. A quintessência do ser e do tempo sintetizam-se naquele piercing com o qual ela brinca enquanto finge ouvir atenta minhas palavras.

Professor ganha mal, mas pelo menos se diverte.


Por Laertón Glauquito.


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Sobre o tema da próxima edição do Falaê: Sexo e Poder!

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Ah, sei lá, porra, sexo & poder é um tema tão óbvio, tão batido. Poder é foder e foder é poder, poder é poder foder, foder é foder o poder, foder é poder o foder, que falta de originalidade, porra!

Queria ver uma hora dessas uma edição especial sobre o mergulho da libélula no minuto anterior ao esticar da língua do sapo; ou sobre as hemorróidas do poeta; ou sobre a elasticidade do rabo da lagartixa; ou sobre a curvatura da banana; ou sobre os reflexos refratários na impressão digital da lente dos óculos; ou sobre qualquer merda que não fossem essas obviedades de classe média urbana zonasulista, que eu próprio sou de classe média, urbano e zonasulista, mas não sou narcisista, não tenho saco para ler nem para escrever o que vejo todo dia no espelho, ou pela janela; quero ler e escrever sobre as areias da caatinga, sobre o fundo do mar, sobre o pico da montanha; não sobre o suvaco fedido do afro-brasileiro que está de pé ao meu lado no ônibus lotado; grande merda isso; sinto cheiro de suvaco de afro-brasileiro em ônibus lotado desde que afro-brasileiro era crioulo mesmo, e o samba era do crioulo doido, e ninguém se ofendia babacamente com essas merdas, porque racismo não é chamar um afro-brasileiro de crioulo, é pular nas tamancas quando vê a carapinha do namorado da sua irmã, ou da sua filha; então, caguei para o poder do foder do sexo do poder foder, que isso é assunto de quem não tem nem um nem outro, mas acha que é muito liberado só porque sente uma comichão na genitália e pensa que é orgasmo; quando orgasmo mesmo é existencial; orgasmo é foder quem você ama, só é poderoso quem ama o que fode, e broxa é quem fode o que deveria amar.

Então, cambada, eis aqui minha contribuição para o tema desde mês, se quiserem publicar, ótimo, se não quiserem, fodam-se, porque quem não tem sexo que use o seu poder para censurar quem os censura.

E tenho dito.


Por Laertón Glauquito.


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Assunto de família

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Eram três homens e duas mulheres, numa mesa de bar à meia-penumbra de lâmpadas alaranjadas pendentes do teto por um fio parcialmente encapado com esparadrapo. O homem ruivo de barba espessa vestia uma jaqueta de couro reduzida a colete por golpes de navalha, calças jeans cobertas por manchas de origem inidentificável - uísque ou urina? - e fundia os pêlos de sua barba vermelha aos cabelos negros colados pelo suor ao pescoço branco de sua esquálida acompanhante, alta e magra, dois protótipos de mamilos esboçando um esforço de insinuação através do algodão de sua camiseta acizentada.

O homem louro também usava barba, um pouco mais curta, calças brancas e uma camisa florida, botões abertos até a metade do peito cujos pêlos eram acariciados pela loura alta e de seios fartos que o beijava, e de quem ele afagava suave os cabelos, sugerindo uma real paixão que os unisse.

O terceiro homem estava sozinho. Pele e cabelos morenos, vestia-se de preto, botas, paletó e gravata, esfregando os dedos no copo de uísque, borrando-o com suas impressões digitais, observando o movimento do bar sobre as hastes dos óculos.

Os homens do quinteto pareciam perigosos pela maneira despreocupada com que deixavam visíveis suas armas enfiadas em coldres sob as axilas, na cintura e nos tornozelos. Também pareciam à vontade em seu território, indispostos a demonstrações gratuitas de agressividade. Inofensivos, desde que não provocados.

Os demais freqüentadores do bar eram homens de diversas classes sociais, a maioria trabalhadores braçais, embora fosse possível identificar aqui e ali pequenos grupos que se vestiam como executivos bebericando após o trabalho. As poucas mulheres presentes limitavam-se a agarrar-se caladas ao braço ou ao pescoço de seus acompanhantes, algumas visivelmente entediadas.

Uma baixinha solitária de vestido negro e sapatos sem saltos, nenhuma maquiagem sobre o rosto de traços indígenas, cabelos negros curtos eriçados, dirige-se ao balcão e pede uma bebida. O olhar tenso, as pálbebras inferiores comprimidas, as mãos crispadas em punho ocultando parcialmente o esmalte escuro e roído em suas unhas. Deglute sôfrega a bebida forte e pede outra dose. Um dos freqüentadores do bar, camisa xadrez e físico de lenhador, se aproxima e diz alguma coisa, algo que pretende ser uma piada, ou uma cantada. O mau-humor da pequena torna-se óbvio no violento murro que desfere no plexo solar do impertinente, obrigando-o a dobrar-se em meio às gargalhadas de seus acompanhantes, que o recolhem engasgando-se em busca de ar de volta à mesa de onde nunca deveria ter-se levantado.

O moreno de óculos a tudo observa, com expressão inalterada.

A baixinha dirige-se à sua mesa, o rosto corado pela bebida, o olhar injetado pelo ódio.

- Laertón, seu canalha. Nossa mãe morre de fome e você aí, bebendo com esses vagabundos e essas...

- Marguerita, elas não são nada que você também não seja - interrompo-a com suavidade - E se nossa mãe está morrendo de fome, você sabe de quem é a culpa. Dou-lhe dinheiro todos os dias, mas o que posso fazer se você injeta cada centavo do meu suor em suas veias necrosadas?

A baixinha esbofeteia-me. O meu amigo ruivo leva a mão ao coldre.

Contenho-o com a mão esquerda, sem desviar o olhar do rosto de minha irmã viciada em heroína.

- É assunto de família - digo ao meu esquentado colega, que solta a pistola, não sem alguma hesitação.

- Sim, eu me injeto, mas faço companhia à nossa mãe - esbraveja Marguerita - Eu me injeto porque não há diferença entre você e nosso falecido pai. Ele era um ausente, como você é, e eu sofro, NOSSA MÃE sofre com a falta de um homem que nos ajude e proteja, que traga um pouco de calor à nossa casa.

A magricela pálida suspirou um "coitada" e me esmurrou metaforicamente com sua expressão de censura.

A loura peituda aninhou-se assustada - parecia temer a reação de Marguerita à simpatia da colega - atrás do ombro de seu namorado louro.

Pousei os óculos sobre a mesa.

- Quer me esmurrar novamente? Esteja à vontade.

Conheço desde criança o temperamento e os punhos de minha irmã mais nova. Não era novidade a seqüência de jabs que aplicou em meu rosto, abrindo fendas sangrantes em meus supercílios e meus lábios.

Ela parou quando meu nariz também começou a sangrar. Caiu de joelhos, as mãos lavadas em meu sangue espalmadas contra o rosto, os espasmos de choro convulsionando-lhe os ombros.

Sinalizei ao balconista que trouxesse duas bebidas à mesa, e fui atendido com a pressa dos que temem pela própria vida. Bebi o meu uísque num só gole, agarrei com a mão esquerda os cabelos de minha irmã,
estendendo-lhe o outro copo com a mão direita.

Em silêncio, ela bebeu até normalizar a respiração.

Mulher baixinha é foda.


Por Laertón Glauquito.


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Pensamentos de libélula no minuto anterior ao encontro com a língua do sapo

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Eu sou uma libélula, recém saída sei lá de onde saem as libélulas, minhas asas ainda úmidas,
Eu sou um libélulo, experiente e macho pra caralho, já escapei de tudo quanto é predador,

esvoaceio pra lá e pra cá, libeluleando livre na minha estréia na vidinha de libélula,
e já depositei meus genes em muita libelulinha por aí, como aquela ali, por exemplo,

nada conheço do mundo, que ir para ali, quero ir para lá, são tantas novidades,
bem novinha e jeitosinha, até que dá pro gasto e tá pronta pro abate,

como aquele simpático grupo de bichos gordinhos que está meditando à beira do lago,
vou chegar de mansinho, quando ela menos perceber, eu CRÁU!,

vou apresentar-me a eles e quem sa
puta que o pariu, tem sapo na área, a mina dançou, é melhor fu


Por Laertón Glauquito.


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A diferença entre machos e boiolas

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Macho gosta de mulher. Ponto final.

Mas o que significa dizer que “gosta de mulher”?

Há muito boiola por aí que diz que gosta de mulher mas, de fato, nutre um ódio às mulheres que vai até o fundo de seu reto. “Gostar de mulher”, para esses boiolas inadmitidos, é gostar de masturbar-se céleres no interior de incautas vaginas. A companhia das fêmeas não os apetece. É visível a ansiedade, a pressa com que se dispõem a trocar o calor de um corpo macio por calosas mãos espalmadas no meio de costas cabeludas. O afago tenro de uma voz suave, pelo mau hálito de uma voz roufenha. O arrepio do toque de uma mãozinha macia, por patoladas no campo de futebol.Não que os machos não gostem de um papo com os amigos no boteco, ou de um futebolzinho amigável.

Os machos, ao contrário dos boiolas, não encaram a companhia feminina como uma desagradável obrigação da qual têm que se desvencilhar o mais rápido possível. A companhia feminina é uma opção concreta para amizade e diversão. Machos gostam de sair para conversar com mulheres e se interessam porque elas têm a dizer, mesmo que não estejam necessariamente interessados em fazer sexo com elas.

Boiolas mal suportam os assuntos de uma mulher que pretendem comer, querem falar o tempo todo, sua impaciência é visível em cada intervenção de sua fêmea acompanhante.Boiolas só sentem à vontade na companhia de outros machos. Daí para começarem a desmunhecar, basta um passo.Todo macho é um feminista radical: gosta das fêmeas, não só pelo que as tornam fêmeas, mas pela sua feminilidade.

O homossexualismo masculino nada mais é do que uma forma extremada de machismo.


Por Laertón Glauquito.


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Deus abençõe os surfistas

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Maior segunda-feira, hora da siesta, recesso no Juanita, dia de folga, solzão, vou à praia. Me achego a um pequeno de surfistas e fico observando, meio à distância, esperando uma oportunidade. Nada melhor do que um grupo de surfistas para curtir a praia. Enquanto os carinhas ficam rebolando em cima das pranchas, as gatas fritam a pele à milanesa estiradas na areia.

[A maior dificuldade de azarar uma gatinha surfistinha é que você tem que exercer uma potente compressão nos próprios neurônios para acessar exclusivamente o vocabulário que adquiriu até o segundo ano do jardim-de-infância. Sabe como é, você só deve demonstrar inteligência suficiente para estabelecer de imediato uma ligeira superioridade intelectual sobre sua presa, para que ela não o despreze como um cara "sem mentalidade", nem sinta arrepios com a perspectiva de estar sendo vista ao lado de um cdf, que são aqueles caras que respondem sem pestanejar quanto é seis vezes sete (ela acha que é sessenta e sete)].

A menina com quem puxo assunto tem aqueles cabelos meio castanhos, meio louros, acho que chamam de reflexo, ou luzes, ou sei lá de que porra chamam isso, mas você sabe como é, um cabelo liso, brilhante ao sol, comprido até o meio das costas douradinhas, contrastando com as sobrancelhas negras que sugerem a presença de pêlos também negros em outros lugares igualmente sugestivos.

A bunda da Cris - esse é o nome que conseguiu me dar em menos de três tentativas - tem aquele aspecto ligeiramente quadrado de quem passa muitas horas por dia sentada na areia, não é muito redondinha, mas o quadril largo é atrativo o bastante para que eu imagine meia-dúzia de laertonzinhos paridos por aquelas ancas generosas, caso não me importasse em ter filhos chamados Tico ou Nana.

O sutiã está ligeiramente frouxo - ela vem à praia com freqüência, não há biquini que agüente a tanta água salgada. A cada vez que ela balança os cabelos, torno-me um fanático flamenguista torcendo para que desmorone o alambrado da torcida do Vasco.

Entre diversos assuntos meio tipo assim, noto que ela já "foi na água" hoje e minha língua se resseca ao pensar em sabores ligeiramente azedos e extremamente salgados. Também me permito adivinhar que temperatura revelaria um termômetro estrategicamente posicionado sob aquela lycra em que mentalmente me metamorfoseio por alguns segundos.

Já estou engatilhando um "pô, gata, tu é muito cabeça". Golpe mortal, ippon, xeque-mate, nunca falha, elogie o cérebro e você terá o resto.

[O quê? Você não quer o resto? E o que você vai fazer com o cérebro, ó panaca? Já dizia meu bisavô, "quem fode cérebro é meningite"].

Arma engatilhada, preparar, apontar... Na hora do "fogo", um garotão louro volta da água, se agacha ao lado da Cris e lhe dá um gostoso beijo de língua.

Estivéssemos em Ur ou Neanderthal, esse seria o momento em que esmurraríamos o próprio peito entre urros de buga-uga e flexões de bíceps. Entretanto, estamos em pleno século XXI, de modo que é preciso um pouquinho de fair-play. Apresento-me ao carinha, que se diz chamar algo que soa como "nhê", logo amarramos um animado papo sobre shows, carros, pranchas, luaus, beach boys, e a Cris logo faz aquela cara entediada de quem acha que praia não é lugar para conversas de tão alto nível intelectual.

O meu recém-amigo vai em busca de uma água de côco, enquanto me despeço de uma atordoada Cris, que me pede para não ir embora, porque me achou muito cabeça, bem mais cabeça do que o Nhê - ou seja o que for.

Aquele beicinho de quem não está habituada à rejeição pede um beijo, e dou graças a Deus porque os surfistas não são ciumentos, abençoados sejam por toda a eternidade, amém.


Por Laertón Glauquito.


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