Meia Três Oito
Tuesday, 22. July 2008, 02:03:12
Peraí, deixe-me explicar melhor que essa história está muito confusa. Vou tentar de novo.
Encontrei-a sentada no MEU sofá, no sofá da MINHA sala, cerzindo uma de MINHAS meias.
A filha da puta.
Agora está bem melhor. Não muito, mas um pouco, o bastante para começar.
Voltava do trabalho, meio grogue, dezoito doses de tequila nas idéias. Não, dezoito é exagero, mas parei de contar na quinta dose e ainda bebi um bocado depois disso. Em todo caso, abrir a porta de casa e encontrá-la sentada no MEU sofá, cerzindo uma de MINHAS meias, descarregou aquela adrenalina que quase faz passar porres menos graves. Em mim, naquela madrugada, no estado em que me encontrava, tive que segurar o vômito a meio caminho do esôfago; as têmporas explodiram em dor; retesei os músculos; avaliei meus reflexos. Estaquei no umbral, a porta semi-escancarada, olhos fixos na filha da puta que cerzia meias no MEU sofá, alerta, não faça movimentos bruscos, não se apalpe, descubra se o que precisa está ali sem se apalpar, idiota.
Ela sequer levantou os olhos do seu trabalho de costura.
- Oi, Laerteen, pensei que não viesse dormir em casa hoje.
Filha da puta. Oito anos. O corpo parecia tão magro e musculoso quanto há oito anos. Nem uma ruga, nem um fio de cabelo branco. Os dedos longos, magros, ágeis, nodosos, tão hábeis quanto há oito anos.
Talvez até mais.
O sotaque, filha da puta, ela sabe que eu odeio quando ela fala com esse sotaque, mas eu conheço bem demais a agilidade daqueles dedos, minhas costelas sabem melhor até do que eu, ela quer irritar-me, fazer-me perder o controle, tornar-me vulnerável.
Filha da puta.
- Quanto tempo faz desde a última vez Laerteen? Seis, sete anos?
- Oito. E pare de me chamar de Laerteen. Odeio esse seu sotaque.
Ela largou as meias e eu senti uma urgente necessidade de mijar. Um belo teste, os meus esfincteres ainda estavam funcionando, o que talvez não adiantasse muita coisa. Criei um pouco de barriga nos últimos oito anos e talvez precise de quase dois minutos para nocautear um fuzileiro naval. Completamente fora de forma, ao contrário da filha da puta que largou minhas meias e, agora, tricotava alguma coisa bem comprida, talvez um cachecol, algo comprido bastante para cobrir-lhe o colo macio, a coxas rijas...
Alerta. Algo comprido o bastante para ocultar-lhe o colo é algo comprido o bastante para ocultar o meu destino.
- Você odeia coisas demais, meu amor. Sempre fui eu a ceder aos seus desejos... Aprendi sua língua porque você não quis tentar aprender a minha. Não foi o bastante, tive que aprender o seu sotaque - uma laçada, um nó, não desvie o olhar dessas mãos - tive que abandonar os meus amantes, enquanto você me traía noite após noite...
- Não me fale em traição.
- ...quis até que eu abandonasse minha carreira...
- Carreira? - explodi - Prostituir-se para aquele maldito Marcolino...
- Você sabe que o nome dele não era esse, sempre arrogante, sempre julgando os outros, nunca querendo aprender...
- ...e você ainda queria, não só que eu aceitasse, mas que fizesse o mesmo que você!
- Não me fale você em prostituição, logo você, seu proxeneta maldito, o que eu fazia era um trabalho honesto, mais honesto do que o que fazem suas adoradas "meninas" do Juanita...
- Ainda faz?
- Não. Quer dizer, não mais para o Marco, apenas uns frilas de vez em quando. Uma garota solitária precisa viver...
- É isso? Você invadiu minha casa e me esperou até agora por um frila? Hoje é um frila? Eu sou um frila para você?
- Que é isso, meu amor? Relaxe! Estou aqui por vontade própria, não vim a mando de ninguém! Venha até aqui, sente-se ao meu lado, deixe-me massageá-lo, como nos velhos tempos...
Os velhos tempos...
Merda de tequila, o estalo demorou a chegar, os velhos tempos, era a senha, puta que o pariu, meu senhor Jesus de Marisales, se eu sobreviver a esta noite, que eu nunca mais encoste a borda de um copo nos lábios por mais de cinco vezes na mesma noite.
Hora de correr.
Uma agulha de tricô afiada como uma lança atravessa zunindo o espaço onde estava minha garganta no décimo de segundo anterior, cravando-se no portal de madeira-de-lei.
A segunda agulha fere-me o supercílio, merda, meus reflexos estão uma merda, merda, merda, merda...
Minha mão está colada coldre, tento sacar a porra do trinta e oito snubby de cinco tiros, porque não levei a porra do meu 45 para o trabalho, porque tive que bancar o discreto justamente hoje, puta que o pariu, ela já retirou a uzi debaixo do cachecol e eu ainda nem consegui tirar do coldre a merda dessa armazinha de bicha...
Fui salvo pela mesinha-de-centro, maldita mesinha-de-centro que fraturou minha tíbia enquanto eu fugia da saraivada de munição nove milímetros que explodiu o tubo de imagem de meu aparelho de tevê, bendita mesinha-de-centro que, ao quebrar minha canela, desviou a direção da minha lenta e previsível corrida rumo à saraivada de munição nove milímetros que, graças a Deus, apenas explodiu o tubo de imagem de meu aparelho de tevê.
Urrando de dor, rolei pelo tapete sobre a perna quebrada até conseguir sacar a maldita armazinha de bicha e disparei-a três vezes antes de perceber que a filha da puta já havia desaparecido.
Há oito anos, ela ficou me devendo uma costela quebrada, no dia em que a flagrei recebendo dinheiro do Marcolino por serviço sujo. Hoje, ela me deve uma tíbia fraturada, um aparelho de tevê transformado em sucata, um sofá com três perfurações calibre trinta e oito e, só agora percebo - maldita tequila! - mais uma costela quebrada. Que pontaria, a da filha da puta, não mudou nada nos últimos oito anos, uma das munições atingiu-me o lado esquerdo do tórax.
O meu celular está sem bateria. Se ela tiver desligado o telefone da tomada, estou morto.
Arrasto-me até o telefone. Deu sinal. Enquanto teclo os números do telefone de emergência do meu amigo ruivo, leio as palavras tricotadas em lã cinza no cachecol preto que ela abandonou sobre o sofá, ao lado das minhas meias.
"Love Tarsila".
Filha da puta. Quebrar minhas pernas, quebrar minhas costelas, destruir minha tevê, ameaçar minha família...
Isso é que chamo de relacionamento mal-resolvido. O resto é papo de botequim.
por Laertón Glauquito









