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Pensando bem...

...sermpre é possível mudar de idéia!

Posts tagged with "contos"

Um ato de amor

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por Géssica Hellmann



Nos mantiveram presos ao passado.

Queriam nos fazer pensar que não era possível sair de lá.

Éramos tantos...

Duas pessoas foram escolhidas. Um deles era meu pai.

Foram escolhidos para conhecer o segredo e carregar somente para eles esse encargo, pois era a única maneira de salvar a todos.

Os dois escolhidos se preparam para a batalha com as armas que tinham em mãos: o conhecimento da verdade.

Disse a eles que eu poderia ajudá-los mesmo que, da verdade, nada soubesse: Eu empunharia uma arma para defende-los. Peguei uma faca de açougue.

Todos estavam assustados, entre eles os que eu amava profundamente.

Ao iniciar a batalha reafirmei meu maior desejo: levar toda minha família para um lugar seguro fora daquela prisão.

Mal sabia eu, que havia aprendido o mais valioso: o ato de amor.

Prendo meu filho com um faixa às costas para protegê-lo com a vida, se preciso for.

Empunho a faca como a uma espada.

Percorremos um longo caminho até a estrada que nos libertaria.

Muitos atrás de nós vieram, outros se perderam ao longo do caminho.

Ao me sentir fora da prisão, olho para meu pai:

- Pai, o que aconteceu? Por que muitos não conseguiram chegar?

Ele continuava em silêncio com seus olhos sábios mirando profundamente os que ali estavam.

Então percebi que eu havia sido a única a desejar salvar em primeiro lugar os que eu amava: minha família. Todos os outros preocuparam-se mais com os bens materiais que haviam deixado para trás perdendo, assim, entes queridos no caminho.

Foi então que disse a todos: Tolos desejaram o que era menos importante! O desejo, para ser realizado, precisava ser formulado dentro da prisão.

Arrependidos, muitos resolveram voltar para a prisão. Um pouco cansados, mas certamente mais sábios. Desejaram o que era importante: o amor e as pessoas que amavam.

Havia um rapaz, solitário e triste. Com meu filho preso às costas, decidi acompanhar-lhe até a prisão para que ele desejasse o amor e a felicidade.

Chegando lá, ele desejou ficar mais 8 anos preso no passado.

Eu disse a ele: se você quiser ainda pode sair daqui. Sabe o que precisa ser feito.

Em resposta ele me entrega os meus bens materiais: livros antigos que haviam ficado por lá. Passa-os um a um pelo beiral da porta.

Olho para os livros e para o meu filho que brincava agora a meu lado. Sorri, peguei meu filho no colo e disse a ele que ficasse com os livros antigos e fui para casa em segurança.


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Sheila

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"Sheila - lindíssima, irresistível, seios fantásticos, bumbum de ouro, corpo escultural, nível universitário, poliglota, educadíssima, super carinhosa. Com tantas qualidades, nem sei por que é que fui virar puta."

Citado por Alexandre Inagaki no F! em idos de 2000


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Sete Pecados Selecionados 1 - Por Indigo Girl

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Indigo Girl é uma escritora boa que só a peste e dividiu espaço com o múmia LG nos tempos do F! Confere aí!

“Dona Maria José. Confessionário particular. Sigilo absoluto. Penitências justas.”

- Trouxe tudo organizado, como a senhora mandou.
- Ótimo! Isso ajuda muito, minha filha. Bem, mas vamos lá. Aceita um café, chá, água?
- Aceito sim, um cafézinho.
- Fique à vontade. Pode deitar no sofá, sentar na poltrona, o que você preferir...
- Coloquei tudo em ordem cronológica. Acho que ajuda a colocar em perspectiva, né?
- Ajuda.
- Olha, Dona Zezé, antes de começar, eu queria agradecer a senhora.
- Que é isso, querida. Nessas horas a gente faz o que pode.
- A senhora entende que com aquele padreco eu não conseguiria fazer isso, não entende?
- Nem você e nem metade das moças desse bairro.
- Experimenta um pedacinho desse bolo de fubá que eu fiz.
- Adoro bolo de fubá!
- Então vamos começar. Fica à vontade, tá? Sou toda ouvidos.

A moça olhou para sua lista. Dezembro de 1989. Pecado nesse mês, pensou, pesa mais. Com um marcador destacou o título: “traição”. O pobrezinho nunca descobriu. Se bem que era um mané mesmo. Aí estava seu primeiro dilema. Não tinha certeza se aquilo chegava a ser um pecado de fato. Na época sentiu que o que fazia era errado. Implorou perdão, por medo de perder o namorado, uma situação realmente patética. No final da noite, quem pedia perdão era ele. Mané!

- Pode falar.
- É que tem um aqui... Que não sei se compensa contar... Faz tempo, e pensando bem, ele merecia sabe?
- Traição?
- Pois é...

- Traição é assim: se ele não descobriu, esquece. Se ele descobriu mas perdoou, esquece. Se ele descobriu e te deu um pé na bunda, esquece, porque o pecado já está pago. Se ele não descobriu e você está se sentindo culpada, aí tem que contar.

- Então esquece.
- Próximo.

Fevereiro de 90. Os de fevereiro deviam ter desconto, por motivos religiosos até. Esse era da categoria luxúria, misturado com vaidade, sodomia, cobiça, exibicionismo. Chegou a ficar vermelha, lembrando dos detalhes. Ai... tempo bom que não volta mais.

- Vou ler conforme aconteceu, tá?

Terminada a leitura, não conseguiu tirar os olhos do papel, também não ouviu nenhuma reação. Cabisbaixa, aguardava o castigo.

- Você já pensou em publicar?

Era bom mesmo. Acabou saindo em formato de crônica. Não só havia lhe ocorrido publicar, como já tinha o projeto editorial fechado na sua cabeça. Sete capítulos, formando um crescendo, como numa ópera, começando com “A Gula,” onde entrariam os contos da sua fase anoréxica e progredindo vertiginosamente até: “A Ira,” onde entraria um conto extremamente gótico, envolvendo Exu Rei, Lilith e o diabo a quatro.

- A senhora gostou?
- Menina! Está maravilhoso! Leia os outros.

A moça leu seus “Sete Pecados Selecionados”, era esse o nome que daria para a coletânea. Dona Zezé lembrou-se de quando tinha aquela idade e dos banhos no açude. No final recomendou que a moça aproveitasse aquele restinho de juízo final para continuar pecando, que nessa idade, é o melhor que se tem a fazer.

A moça abraçou Dona Zezé e lhe desejou muita sorte nos negócios. Foi embora sentindo-se serena. Ainda ganhou um pedaço de bolo de fubá, para comer em casa.


Indigo Girl © Copyright 2000


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Sete Pecados Selecionados 2 - Por Indigo Girl

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Nasceu padre porque nasceu por último. O acordo da mãe era esse, o caçula seria padre. Desde pequeno caminhava pela casa como uma miniatura.de santidade. Era ele entrar na sala e a mãe dispensava a mocinha da Avon. O pai mudava o canal da televisão. A irmã enfiava a revista debaixo da almofada.

Os irmãos tinham ordem de ponderar as palavras na presença do caçula. Sem saber o que dizer, pediam benção e saíam correndo. Uma vez tentou acompanhá-los, mas a vó surgiu do além:
- Nã nã nã nã nã! O senhor não brinca com moleques. O senhor é especial. Vem cá que a vó vai te ensinar uma reza nova.

Uma vez ousou retrucar:
- Mas vó! Por que eu tenho que ser padre?
- Porque Deus escolheu você. E sabe o que acontece se você não seguir a vontade de Deus?

Pela unha dura achatando a ponta do seu nariz, desconfiou que coisa boa não era.
- Vira lobishomem.

Nunca mais discutiu o assunto. Em compensação, logo percebeu as vantagens da profissão. Lixo para fora, nunca levou, trocar o gás muito menos. Ir para armazém, nem pensar. "O que é que tem esse menino?" perguntava quem não sabia do seu destino. Ah, é que esse vai ser padre. Assim, até os desconhecidos lhe pedia a benção, para logo depois, de mansinho, sairem de perto.

Uma das poucas brincadeiras de que participava era a "Visita Papal". Ele era o Papa. Os irmãos; os mafiosos. Sentava-se sobre um skate, dentro de uma caixa de papelão blindada com vidros invisíveis . Os irmãos, com armas de plástico, matavam uns aos outros. O Papa deslizava entre o tiroteio, abanando para a multidão fervorosa, imune e sossegado no seu papamóvel. Às vezes, dependendo do seu humor, ao ver um corpo estirado no chão, fazia o sinal da cruz. Ressuscitava um irmão dizendo: "Levantai-te filho de Deus!" Ressuscitava aquele que ganhasse no dois ou um.

No fundo sempre teve um pressentimento que seria assim mesmo. O Homem teria que descer em carne e osso, trazendo os cavalheiros, as bestas cheias de olhos, a alegoria toda, conforme mandava o figurino. Não O repreendia. As pessoas estão cada vez mais exigentes. Ele, melhor que ninguém, sabe a dificuldade que é manter a atenção das massas. Por melhor que fossem seus sermões, se não tivesse um efeito especial para acompanhar, nem que fosse gestos mais fervorosos, os perdia. Sem a menor inibição bocejavam, saiam para fumar um cigarro, perguntavam as horas para o fiel ao lado.

Mas quando viu as imagens na televisão, se assustou. Os monstros eram reais, como num filme. Imaginava algo mais etéreo, como as visões dos santos, que logo desaparecem numa nuvenzinha de fumaça. Bem,essa era a maior prova que Ele entendia a natureza humana. No ponto em que as coisas etavam, era preciso de uma atitude drástica.

Pegou a lista telefônica e abriu no índice de eletroeletrônicos. Precisava de um telão, um megafone e gelo seco.


Indigo Girl © Copyright 2000



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O Perdedor

O estádio vazio. A torcida em casa. Os perdedores afogam suas mágoas no botequim mais próximo enquanto os vencedores bebemoram até o nascer do sol. Bola recolhida, luzes apagadas.

O silêncio domina o estádio.

Um jogador, solitário, obstina-se na recusa em reconhecer a derrota.

Permanece em pé, no meio do campo, à espera de um terceiro tempo que jamais virá.



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Lúcio, O Rei dos Macacos

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Meu nome é Lúcio e fui o filho mais bonito de meu pai.

Não sou o mais velho, nem o mais novo, sequer o mais inteligente: sou apenas o filho mais bonito.

Todos os que visitavam nossa casa encantavam-se com as gracinhas espertas de meus outros irmãos. Mas, quando eu aparecia, as pessoas só tinham olhos para meus cabelos louros como a luz do sol, para minha pele branca como areia de praia e para meus lábios rosados como sorvete de morango.

Eu desdenhava dos elogios que me dirigiam. Apenas sorria debochado, exibindo meus dentes brancos perfeitos, para maior encanto dos que se deixavam seduzir pela minha aparência encantadora.

Mas isso foi antes. Antes dos macaquinhos.

Meu pai apareceu um dia com um casal de macaquinhos. Dava-lhes mais atenção do que a mim ou aos meus irmãos.

Meus irmãos não se importaram com as atenções de meu pai aos macaquinhos. Pelo contrário, adotaram-nos como se fossem seus irmãos, brincavam com eles e os protegiam de meus ciúmes.

Eu queria destruir aqueles macaquinhos. Mas meu irmãos não deixavam e meu pai me olhava com severidade sempre que eu ameaçava machucá-los.

A mágoa instalou-se em meu coração, eu não conseguia mais dormir, nem me alimentar. Eu precisava encontrar um jeito de destruir aqueles macaquinhos estúpidos, para voltar ao centro das atenções de meu pai.

Um dia, um de meus irmãos ofereceu um chocolate aos macaquinhos e levou uma bronca de meu pai:

"Não dê chocolate aos macaquinhos, senão eles ficam com dor de barriga"!

Dor de barriga...

Arquitetei o plano durante alguns dias.

Um de meus irmãos mais novos, bobinho como ele só, comia um chocolate enquanto brincava com os macaquinhos. Disse a ele que era maldade não oferecer um pouco aos bichos.

"Mas o papai disse para não dar chocolate para eles, senão ficam com dor de barriga"!

Respondi que era melhor não comer na frente deles. Ou comia o chocolate ou brincava com os macaquinhos.

Meu estúpido irmão mais novo já estava saindo de perto dos bichinhos quando o agarrei pela camisa.

"Espere, um pouquinho só não vai fazer mal!! Dê um pouco de seu chocolate aos coitadinhos, olha só a cara de fome deles"!

Meu irmão ficou em dúvida. Dei-lhe o meu mais lindo sorriso e ele não resistiu: ofereceu todo o seu chocolate para os macaquinhos.

Eu ria, ria e ria enquanto os macaquinhos choravam com a dor de barriga.

Meu pai apareceu e ficou furioso quando viu os macaquinhos doentes. Meu irmãozinho chorava e me acusava: "Foi ele quem mandou, eu não queria, foi ele, foi ele...".

Meu pai tinha os olhos em lágrimas. Parecia sentir um gosto amargo na boca.

Eu não entendia porque. Expliquei que, de agora em diante, eu teria de novo o lugar que era meu no centro de suas atenções.

Meu pai chorou. Disse que os macaquinhos jamais foram mais importantes do que eu... Até eu fazer essa maldade com eles.

Como castigo, meu pai me trancou num quarto e não vem mais me ver, para que eu aprenda que a maldade não conquista o amor.

Mas eu sou teimoso e meu nome é Lúcio e sou o filho mais bonito de meu pai. Nunca vou admitir que um macaquinho tire o meu lugar.

Os macaquinhos que passam pela janela do meu quarto se encantam com meu sorriso, acham lindo o meu rosto e vêm comer chocolate em minhas mãos...

Tenho vários macaquinhos presos aqui comigo no meu quarto. Grito para que meu pai venha me ver e salve os macaquinhos de minhas maldades.

Mas meu pai responde apenas, sem abrir a porta do quarto:

"Eles entraram aí porque quiseram, porque se deixaram enganar pela beleza do seu rosto e não viram o quanto você é feio por dentro! Mas trancado aí, você não pode fazer mal aos macaquinhos que estão comigo! Pare de fazer mal aos macaquinhos e eu soltarei você, para ser de novo o meu filho mais bonito, o preferido entre todos".

Não concordo e jamais concordarei. Prefiro ser um rei em meu quarto a ser um escravo lá fora, entre macaquinhos feios e atrevidos, que não sabem o seu lugar.

Estou há tanto tempo trancado neste quarto com os macaquinhos que quiseram provar o meu chocolate... Sinto que estou me tranformando num deles. Meu rosto bonito está virando um focinho. Não ando mais com a cabeça erguida, mas meio curvado, com as mãos arrastando no chão.

O ciúme e a maldade estão me transformando naquilo que mais odeio... Às vezes, penso em fugir daqui mas, quando penso que, lá fora, os macaquinhos andam livres por aí e não posso fazer maldades com eles, logo desisto...

Quem sabe se eu não me transformar de vez num deles o meu pai não volte a me amar...

De que me adianta ser bonito, se meu pai não deixa ninguém ver minha beleza?

De que me adianta ser bonito, se minha beleza só é admirada por macaquinhos presos?

Olho pela janela e vejo crianças bonitas brincando... Penso se elas não gostariam de ganhar um chocolate... Minha beleza teria muito mais valor se fosse vista por crianças bonitas...

Ei, você aí que está lendo está história... Aceita um chocolate? Vem buscar, está aqui na minha mão... E tenho mais um montão escondido aqui no meu quarto!



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Morgana

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Sei lá o que me deu no dia em que meu humano de estimação tirou essa foto. Eu não sou como os outros gatos, que gostam de subir no colo e deixar os humanos passarem a mão à vontade onde bem quiserem. Nada disso, eu detesto mãos humanas, sempre detestei.

Quando eu era pequenininha, meus dentes também eram pequenos e eu quase não tinha força na boca. Quando uma mão chegava perto de mim eu NHAC! - tacava os dentes.

Minhas mordidas não machucavam e os humanos riam de mim. Eu ficava com raiva, e agarrava os braços deles com as unhas das minhas patinhas da frente, que já eram bem afiadinhas. Com as unhas das patas traseiras, que são as mais fortes, eu tentava rasgar os braços deles...

Aí, os humanos paravam de rir e me deixavam em paz.

Então eu cresci um pouco mais e passei a ter força para machucar de verdade os humanos. Eles não riram mais. Eu mordia e eles gritavam.

O meu humano de estimação passou a me bater toda vez que eu o mordia. Para cada NHAC que eu dava, ele me lascava um tabefe no bumbum.

Depois de um tempo, parei de mordê-lo. Quer dizer, só mordo quando me provoca muito. Já sei que não é bom negócio ficar mordendo meu humano toda hora... Senão, PLÉFT!

Já os outros humanos... Morrem de medo de mim. Eu gosto do cheiro que eles soltam quando estão com medo. Eu me sinto poderosa, a dona da casa. Quando estão com medo, os humanos não ficam passando a mão em mim. Como já disse antes, eu DETESTO mãos.

Mas gosto dos pés do meu humano. De vez em quando, eu esfrego os meus bigodes nos pés dele... Os pés do meu humano têm um cheirinho de sardinha que eu adoro!

Eu já contei como foi que eu escolhi esse humano?

Foi assim: eu nasci com mais três irmãozinhos e uma irmãzinha. Eu mamava com meus irmãozinhos na barriga da minha mamãe e ali era o lugar mais quentinho e gostoso do mundo.

Só que minha mãe era dona de um casal de humanos que servia a mais alguns outros gatos... Esses humanos não gostaram quando a gente nasceu. Então, começaram a trazer outros humanos para ver a gente.

Meus irmãozinhos, um a um, foram escolhendo os humanos de quem eles queriam ser donos e foram embora. Ficamos só eu e um irmãozinho, que tinha um pêlo dourado e listras negras que nem um tigre. A gente brincava o tempo todo e eu gostava muito dele.

Os humanos que serviam à minha mãe ficaram preocupados porque ninguém queria pegar a gente. Pensavam que não iam dar conta de servir a tantos gatos. Pensaram em fazer coisas feias com a gente. Ficamos com medo, muito medo.

Uma humana branquelinha veio nos ver e fomos para a casa dela, onde tinha mais um montão de gatos e gatinhos. Ficamos felizes lá, porque a humana branquela gostava muito de nos servir. Nem se incomodava quando eu lhe tacava os dentinhos, para ensinar a ela quem é que manda.

Só que ela também não queria ficar com a gente. Foi chamando outros humanos para nos ver. Eu nem dava bola, só queria ficar ali com meu irmãozinho e os outros gatos.

Eu já estava achando que ia ficar ali para sempre...

Até que, num dia frio, chegou o meu humano. Ele estava vestindo uma jaqueta cheirosa. Ele brincou comigo, brincou com meu irmãozinho. Ele estava em dúvida, não sabia se queria servir a mim ou ao meu irmão.

Acabei com a dúvida dele num segundo: pulei pela abertura da jaqueta e me aninhei bem gostosa ali dentro, sentindo o calorzinho dele!! Dormi tranqüila, sabendo que aquele humano era meu, ninguém mais o tiraria de mim.

Fui muito boba ao pensar assim. Esse humano me levou para uma casa onde tinha uma humana de maus-bofes, que queria me expulsar. Ele a chamava de "mãe" e eu não gostei nada dela. Vivemos juntas por quase dez anos, mas eu nunca a respeitei. Sempre que podia, tacava-lhe os dentes, até quando ela não estava fazendo nada!

Até que ela era boazinha comigo. Botava a ração no lugarzinho que eu queria, trocava minha água todos os dias e não reclamava muito quando eu mordia suas mãos. Fazia todas as minhas vontades. Quando ela se fechava no quarto, era só miar beeeeemmm alto, que ela vinha correndo abrir a porta para eu entrar. Ou sair, se eu já estivesse dentro do quarto.

Também detesto porta fechada, sabe?

O meu humano não quis me dividir só com essa senhora. Ele também trazia uma moça a quem ele chamava de "namorada". Veja só que absurdo: ele queria fazer carinho nessa tal de "namorada" e não em mim!

Nem conversei: taquei os dentes na exibida! Meu humano brigou comigo, latiu alto, mas a tal da namorada acabou aprendendo qual era o lugar dela... Bem longe do meu humano!

Meu humano é muito bobo. Arrumou outra moça "namorada". Mordi e arranhei, mas ela não foi embora. Voltava sempre. E acabou levando-o embora...

De vez em quando, ele vinha me ver. Mas ficava um tempão sumido. Eu fui ficando velha, vivendo com aquela senhora que ele chamava de mãe. Fiquei com raiva dele. Não adiantou.

A raiva passou. Acabei entendendo que era melhor aproveitar as vezes em que ele aparecia para fazer-lhe carinhos nos pés... Porque podia demorar muito tempo até ele aparecer de novo.

Um dia, faz pouco tempo, ele veio me pegar e me levou para outra casa. Nessa casa, ele vive com a tal da "namorada" que o levou embora.

Só que agora ele não a chama mais de "namorada". Ele a chama de "esposa"...

A coisa que mais me enche de raiva é que essa "esposa" já serve a mais duas gatas. Dá tudo o que elas querem e nem liga pra mim. Enquanto isso, o meu humano fica dividido no meio de tanto gato e não me dá tudo o que eu quero.

Desde que vim para cá, estou tristonha, só fico deitada numa caixinha dentro de um quarto. O meu humano não me deixa sair dali. Tudo o que eu queria era estraçalhar as outras gatas, arranhar e morder a tal da "esposa" até ela ir embora. Mas o meu humano não deixa.

Sinto saudades da minha antiga casa. Também sinto falta da moleza que eu tinha com a "mãe" do meu humano.

Hoje, eu tenho onze anos de idade. Quer dizer, já sou uma gata meio velha. Queria que meu humano fosse só meu, sem ter que dividi-lo com mais ninguém, até chegar o dia de partir para o Céu dos Gatinhos...

Eu sei que meu humano me ama, mas eu queria que ele amasse só a mim.

Amor de humano é igual a uma patinha de gato. Fofinho, mas tem uma unha escondida que arranha e machuca.

É um amor que dói, mas é melhor do que amor nenhum.



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Isso dói: na linha da cintura | (e um pouco mais em baixo)

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Como vocês podem ver, sou irmão, quer dizer, meio-irmão, da Tarsila Tzara, essa gostosona que perfuma as páginas do Falaê com seus textos graciosamente fêmeos. Somos filhos do mesmo almirante tcheco, Istzvan Tzara, embora de mães diferentes. O insigne almirante era casado com a famosa poeta russa, Vladvsna Yurievna e o casal produziu esse piteuzinho totoso que vocês já conhecem, a Tarsila, ou Silinha, como gosto de chamá-la.

Mas, sabe como é marinheiro, sempre balançando os bagos ao sabor dos ventos. Numa de suas viagens para Cuba, o russo safadão conheceu, em mais de um sentido, inclusive o bíblico, minha mãe, uma respeitada chef de cuisine do bordel Maria Facunda, exclusivo para oficiais comunas, coisa do tempo da Guerra Fria. O resultado fui eu. Ainda grávida, mamãe embarcou como clandestina num banana boat, sonhando com a terra dos sonhos e das oportunidades, os tais esteites, mas calculou mal a direção dos ventos e acabou indo dar com o costado naquela terra tão longe de Deus e tão perto dos sanguebão de olho azul, minha muy amada terra natal, o Mexico.
Tive uma infância pobre e sofrida, mas estudei, trabalhei duro e, hoje, tive muito mais sucesso do que minha pobre mãezinha jamais poderia esperar. Acabo de ser promovido a chefe da segurança do bordel Juanita Facunda, irmã emigrada da cubana Maria, que não deu tanta sorte. Como seu congênere cubano, o Juanita é exclusivo para executivos de multinacionais americanas, coisa desses tempos de globalização, e minha mãe ainda exerce a nobre função de chef de cuisine.

Sabe como é, bordel mexicano desses tempos globalizados não é mais como os de antigamente. Nada de jukebox enferrujada tocando os mesmos velhos boleros de sempre. Hoje contamos com uma completa estrutura informatizada com processadores de última geração e conexão à Internet de alta velocidade, através da qual fazemos download em formato MP3 daqueles mesmos velhos boleros de sempre.

Como chefe de segurança dessa basilar instituição, verdadeiro pilar das tradições e da família mexicana, tenho muito tempo livre para coçar o saco, e não há coçassaco melhor do que a Internet, disso ninguém vai discordar. Mouse vai, mouse vem, acabei aportando meu banana boat no Falaê e vi o sobrenome Tzara.

Seria muita coincidência.

Os acordes dramáticos ribombaram pelas lajotas do Juanita.

O cachorro latiu "El dia que me quieras".

As meninas do estabelecimento cantaram em coro "Love story theme".

Reconhecemo-nos, irmão e irmã separados por uma eternidade finalmente unidos por um oceano de lágrimas, transportadas na velocidade da luz pelos mágicos bits e bytes da tecnologia moderna.

Trocamos as histórias de nossas vidas em longas noitadas no icq. Fiquei comovido quando descobri que o almirante Tzara afundou junto com uma banheira atômica furada de nome esquisito que a marinha tcheca insistia em chamar de submarino. Com a morte do marido, Vladvsna, mãe da Silinha, descobriu que não havia espaço na Rússia capitalista para mais uma poeta, e partiu em direção à terra da oportunidades, os esteites, é óbvio. Infelizmente, a sucata da Aeroflot em que Vladvsna embarcou com a Silinha fazia a rota Moscou-Nova Iorque via Johanessburgo, Buenos Aires, Grota Funda, Vila Valqueire, o diabo, era conexão que não acabava mais, e a pobre poeta, sem entender quaisquer outros caracteres que não o cirílico e nenhuma outra língua além do russo, acabou perdendo uma das conexões e se estabeleceu no RJ. Foi ficando, aprendeu o idioma, acabou montando um bem-sucedido atelier de poesia e picaretagens em geral para emergentes da Barra da Tijuca que não conseguem pronunciar uma sílaba de seu nome, mas a-do-ram qualquer coisa que venha de longe, de preferência com nome enrolado, bem ao estilo cariôco de ser. Os poemas de Vladvsna, todos em russo, enfeitam as paredes de Vera Loyola, que os toma por pinturas renascentistas, mas não sou eu quem vai melar o ganha-pão da mãe da Silinha.

Feitas as apresentações, vamos ao assunto do título. Minha proposta aqui, com esse bico que a Silinha me arrumou no Falaê, depois de eu conseguir um amplo provimento de vales-michê no Juanita para o dono do site, que viaja freqüentemente ao Mexico (viva a Alca!), é escrever sobre o jeito latino de ser macho, entre uma golada e outra de José Cuervo, entre uma bicota e outra nas meninas de dona Juanita, entre uma tapona na orelha e na outra de clientes mal-educados que confundem as meninas com sacos de areia para treinamento de boxe.

Não gostou da proposta? Pode enviar suas reclamações para suamãe@bordeljuanitafacunda.com. O atendimento é garantido, exceto na hora da siesta.


Por Laertón Glauquito.


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O mito do chute lá

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Ele bobeou por um minuto e meu pé direito explodiu contra a sua virilha.

Foi nesse dia que eu aprendi a não acreditar em mitos. Por exemplo, o mito de que basta um chute no saco para nocautear um homem adulto e furioso.

O meu chute atingiu-o em cheio, como toda minha força e eu estava em minha melhor forma.

Ele nem pareceu sentir.

Caiu sobre mim como um avalanche, eu desabei sobre as costas, ele montado sobre minha barriga, aplicando-me cabeçadas e esmurrando-me os rins.

Tensionei os meus músculos o máximo que pude, para atingir a posição fetal. Preocupava-me em não permitir que suas cabeçadas atingissem meu supercílio ou meu nariz... Mas que diabo de cabeça dura era aquela que me acertava bem entre as orelhas!

Consegui enfiar minha perna esquerda entre as pernas dele bombardeei-lhe a virilha com joelhadas, sem sucesso.

"Será que esse desgraçado não tem saco"? - eu pensava, buscando uma saída em desespero, sentindo-me prestes a ser nocauteado.

Graças a Deus, cabeçadas não tonteiam apenas quem as recebe. Ele bobeou de novo e ergueu demais a cabeça, expondo seu pomo de adão.

O golpe que apliquei poderia tê-lo matado se eu não estivesse tão tonto. O polegar esticado, os outros dedos em garra espremeram-lhe a laringe, tentando arrancá-la fora do pescoço.

Ele perdeu o ar e caiu de joelhos quando empinei a barriga para expulsá-lo de cima de mim.

Era minha oportunidade e estava disposto a aproveitá-la: um pisão com toda força no joelho e ele estaria incapacitado a se levantar e prosseguir a luta, permitindo-me fugir, que era o que eu queria fazer desde o começo.

Mas eu estava tonto. Errei o pontapé e caí como um comediante escorregando numa casca de banana.

O mundo girava à minha volta. Assistia às agônicas tentativas de respiração de meu oponente enquanto eu tentava firmar-me sobre os pés apenas para cair novamente sobre um braço. "Oh, Deus, que ele não tenha quebrado" – eu rezava, entre gemidos de dor.

Consegui ficar de pé, cambaleante.


Acessar rotina de avaliação de danos: Nenhum osso quebrado.

Meu adversário ainda tentava recobrar a respiração. Estendeu uma das mãos espalmadas, um mudo pedido de trégua.

Num único movimento, dei um passo à frente, encaixei meu cotovelo contra o dele, segurando-lhe o pulso com a mão esquerda. Com a direita, agarrei-lhe os dedos estendidos e dobrei-os para trás com toda a força que me restava, soltando-os das articulações.

Desta vez, o choque da dor foi suficiente para nocauteá-lo. Sò para garantir, apliquei-lhe um pisão em cada joelho para impedi-lo de me perseguir caso recobrasse a consciência antes que eu estivesse a, no mínimo, dois quilômetros dali.

O foda de transar com mulher casada é que elas sempre inventam de se encontrar com você em casa e, cedo ou tarde, você vai acaba sendo flagrado pelo corno.

Cornos, ao que parece, não têm saco no meio das pernas.


Por Laertón Glauquito.


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Animais (Um conto antiquíssimo!)

“Seja bem vindo à frustração inerente aos seus maiores desejos” - dirá meu patrão, ao final deste relato. E você não pode imaginar o quanto ele está certo.

Estou infeliz, embora devesse estar satisfeito. Quando na faculdade, o meu maior desejo, e o de todos os meus colegas, era trabalhar “na área”. Trabalhar “na área” significava o sucesso, o triunfo sobre o dragão do mercado de trabalho. Para nós, um baixo salário pago por uma empresa “da área” soava melhor do que um alto salário ganho fora “da área”.

Nosso maior pesadelo era o serviço público. Céus, não encontrar outra solução que não a do concurso público era a derrocada final, a prova incontestável de nossa mediocridade. A própria ante-sala do inferno. Em nossa imaginação, pior do que o serviço público, talvez só o guichê de caixa de qualquer banco, público ou privado.

Pois bem, após meses de tentativas infrutíferas, eu estava, finalmente, trabalhando “na área”. Há cerca de três semanas, fui contratado por uma empresa de consultoria, em troca de um salário irrisório. Nos nossos sonhos de faculdade, partilhados em mesas bar, imaginávamos salas high tech em empresas multinacionais, repletas de computadores e de gente bonita, inteligente e bem-paga, elaborando estratégias brilhantes que trariam lucros astronômicos aos nossos clientes, que nos recompensariam com vultosas somas em dinheiro. Fama, reconhecimento, dinheiro, poder. Em uma palavra, sucesso. O mais autêntico sonho yuppie da finada década de ‘80. Em nenhum momento, nem mesmo em nossos piores pesadelos, pudemos imaginar que a realidade de mais de noventa por cento das empresas dessa “área” tão glamurosa fosse a de infectas salas comerciais em edifícios suspeitos, dirigidas por gente de uma desonestidade enervante, sempre “bolando armações” e “esquemas” para ganhar alguns centavos a mais, enquanto os verdadeiros milhões passavam ao largo dessas pocilgas.

Sim, pocilgas, pois o meu chefe era um porco. Um porco gordo, suarento, que aparentemente nunca tomava banho, sempre fedendo, a barba mal feita pingando gotas do sebo que lhe escorria da pele impregnada pela fumaça dos cinqüenta cigarros que fumava por dia. Suas camisas estampadas, baratas e de péssimo gosto, sempre abertas até a altura do umbigo, indefectivelmente exibiam catinguentas rodas de suor sob as axilas. Um medalhão enorme e oxidado adornava-lhe o peito, enquanto a valente correntinha que o sustentava desaparecia nas banhas de seus incontáveis queixos.

Jamais consegui compreender para quê alguém poderia querer consultar aquele pardieiro. Além do suíno e de mim, chafurdavam na pocilga dois ratos amarfanhados que, embora não fossem fisicamente semelhantes, pareciam clones um do outro. Suas roupas invariavelmente não caíam bem sobre o corpo, as golas e mangas puídas, tudo sempre encardido e desbotado. Quando falavam, cometiam todos os erros possíveis e imagináveis. Quase chegava a me divertir com a idéia de que cometiam erros de ortografia até quando falavam. Mas, em seguida, me entristecia ao lembrar que, na faculdade, gozávamos tanto de qualquer um que cometesse um mínimo deslize no bom uso do idioma.

Quanto a mim, não sabia bem o que fazia ali. Ou melhor, não sabia bem o que se fazia ali. O porco escancarava a porta de sua sala, um cubículo um pouco menor do que o quadrado onde nos espremíamos os dois ratos e eu, e vomitava um monte de berros incompreensíveis que, em seguida, eram traduzidos pelo rato mais experiente como ordens para pegar tal ou qual documento no arquivo, para preencher este ou aquele formulário padrão, e coisas do gênero. Assim, os dois ratos passavam a maior parte do dia fofocando entre si e comendo bolachas “cremecráqui”. E eu, eu fugia do tédio e da frustração lendo um bom livro ou torturando até a morte alguma das milhares de baratinhas que infestavam o escritório.

Mas aquele era um dia especial. O dia em que receberíamos a visita de um cliente. Dois ratos em polvorosa varriam as migalhas de biscoito do chão, esvaziavam os cinzeiros, espalhavam inseticida nos esconderijos das baratas, arrumavam freneticamente os papéis sobre suas velhas mesas... E eu também participava da faxina com alguma animação. Afinal, talvez a visita de um cliente pudesse me dar algum incentivo, talvez algum trabalho real surgisse em conseqüência dessa visita, talvez finalmente acontece algum fato novo que me levasse a não ter vergonha de dizer que trabalhava em uma empresa de consultoria “da minha área”.

O cliente deveria chegar às cinco horas. Às quatro, o porco dispensou os dois ratos e me chamou à sua sala.

- Você tem potencial, garoto. É educado... Fala bem... Por isso é que eu mandei aqueles dois babacas para casa mais cedo. Tu vai receber os clientes lá fora, com o maior dos rapapés, mas vai pedir para eles esperarem um pouco. Então tu entra na minha sala, fica uns dois minutos. Depois sai, bota eles pra dentro e fica esperando lá fora. Aguardando instrução. Se tu se sair bem, vai acabar virando o meu braço direito. Agora pode ir.

Balbuciei um tímido “sim, senhor” e saí, disposto a cumprir as ordens conforme as recebera, mas sem saber se a perspectiva de me transformar na pata direita daquele porco me entusiasmava ou me enojava. Em todo caso, às cinco e quinze chegaram os clientes, duas raposas com cara de gângster, ternos fora de moda e pastas de couro ensebadas. “Bem, não podia ser muito diferente”, pensei, mas procedi conforme as instruções, antes de retomar a leitura de meu livro.

A reunião já se prolongava por quase uma hora quando levantei os olhos para a janela de vidro que dava para o corredor. A persiana estava entreaberta e pude ver um rosto de mulher, um rosto dolorosamente familiar. Um choque de mil volts percorreu-me o corpo ao reconhecê-lo. Suelen. Suelen, meu amor da faculdade, meu anjo de pele branca e olhos negros cintilantes. Suelen, que me abandonou sem dar explicações. Suelen, que via naquele instante pela janela do chiqueiro, com um envelope pardo em uma das mãos e, na outra, um papelzinho, talvez um cartão de visitas, para o qual olhava com ar incrédulo, como se não acreditasse que o endereço fosse aquele mesmo. Ah, Suelen, eu também devo ter feito essa expressão quando vim aqui pela primeira vez, mas não com a mesma graça, não com a mesma pureza que via em seu rosto naquele momento.

Meu cérebro girava dentro crânio a mil rotações por segundo. Seria possível que minha Suelen ainda estivesse tentando trabalhar “na área” e que viera procurar emprego justamente aqui? Aquele envelope pardo certamente continha o seu currículo, primorosamente digitado e impresso, como os trabalhos que ela produzia na faculdade. Trabalhar com Suelen ao meu lado seria o paraíso. Com sua inteligência e bom-humor, faríamos planos como nos bons tempos e, juntos, encontraríamos nosso caminho rumo ao sucesso.

Sim, o porco estava certo. Eu e Suelen tínhamos um enorme potencial, mas não o desperdiçaríamos aqui. Pelo menos, não por muito tempo.

Vencida a hesitação, Suelen entrou no escritório. Meu coração saltitava no peito, explodindo de alegria e ansiedade. Pulei da cadeira e precipitei-me à sua frente. Suelen olhou-me com espanto, seus olhos negros arregalaram-se. Mas logo o espanto foi substituído pela surpresa e por um sorriso, o sorriso mais lindo e mais doce, um sorriso que tantas vezes recebi no passado, um sorriso que extirpou os meus últimos resquícios de ansiedade e me levou a explodir num fulgor de paixão. Linda, linda, mais linda do que nunca, não me contive e beijei-a antes que ela pudesse pronunciar uma palavra. Tomei o envelope de suas mãos e joguei-o sobre minha mesa sem deixar de beijá-la, apaixonado. E ela correspondeu, com o mesmo fogo daquela época, ardente, minha, minha, minha, toda minha, a minha Suelen.

Após uma eternidade de cálidos beijos, ela desvencilhou-se suavemente de meus braços e sorriu:

- É melhor fechar a persiana.

Enquanto caminhava para a janela, observei encantado o seu corpo mignon, o suave e elegante balanço de seus quadris, os cabelos negros e lisos repousando sobre os ombros. Ao voltar, e antes de me beijar mais uma vez, Suelen fitou-me nos olhos e sussurrou, com ar enigmático:

- Não sabia que era para você.

Não meditei por mais de um segundo sobre o sentido daquelas palavras. Pois, para meu espanto, ela imediatamente começou a livrar-se das roupas, revelando um conjunto vulgar de lingerie vermelha: sutiã transparente, calcinhas com aberturas presas por lacinhos, corpete, cinta-liga e meias. Chocado, incrédulo, pasmo, não conseguia esboçar uma reação, pronunciar uma palavra, mover um único músculo.

Foi então que o meu chefe abriu de supetão a porta da sala, pronto para dar mais um de seus berros. Mas calou-se ante a visão de Suelen. Sua expressão suavizou-se, tanto quanto é possível a um porco suavizar sua expressão.

- Ah, já chegou. Você não cobrou do garoto por fora não, hein?

Suelen observou minha expressão constrangida e entendeu o que se passava. Notei uma ponta de tristeza em seu rosto, porém ela rapidamente se recompôs.

- Cobrei sim. Ele estava incluído?

- Claro que estava. Devolve o dinheiro dele, que no final a gente acerta.

O porco voltou a entrar na sala e eu me senti derreter. Meus olhos gritavam “Por quê?” e os de Suelen não os evitavam. Limitavam-se a me indagar, com uma candura incompatível com o absurdo da situação, algo como “então você não sabia?”.

O que se seguiu permanecerá para sempre em minha memória. Suelen sendo devorada como uma galinha pelas duas raposas. Suelen trepando com o porco. Suelen lambendo o suor e o sebo das virilhas do porco. As raposas incansáveis, voltando à carga. O porco, saciado, me perguntando impaciente:

- Como é, garoto, não vai entrar no bacanal?

E eu, congelado. Imóvel. Morto por dentro.

Terminada a orgia, todos já vestidos novamente, as raposas já tendo ido embora, o porco cobrou de Suelen a devolução de meu dinheiro, dinheiro que eu não havia pago, pois nunca haveria de pagar para ter Suelen em meus braços:

- Afinal de contas, o garoto nem aproveitou.

Suelen, então, retirou disfarçadamente do envelope que havia recebido do porco, uma pequena quantia em dinheiro e a entregou em minhas mãos, dando uma piscadela:

- Ah, ele não devia estar se sentindo bem. Mas tenho certeza que embaixo dessas calças tem um machão incomparável. Outra hora a gente tenta de novo, né amor?

E beliscou minha bochecha antes de ir embora.

O porco olhava para mim, com ar de decepcionada reprovação.

Finalmente meu corpo reagiu. Tomado por violentos espasmos de vômito, corri para fora daquela sala, daquele pardieiro, daquela... Sim, daquela ante-sala do inferno! Quando atingi as escadas, não suportei mais e vomitei ali mesmo. Meu corpo desfaleceu e desandei a chorar, convulsivamente.

Pouco depois, ouvi um ruído. Era o porco, que havia jogado o envelope pardo ao meu lado. Abri-o e retirei de seu interior um panfleto que anunciava um “serviço de acompanhantes para executivos”. Reconheci imediatamente o estilo inconfundível do texto de Suelen. Reconheceria a autora daquele texto mesmo que o canto esquerdo do panfleto não estampasse um minúsculo logotipo seguido de um número de telefone. O logotipo de Suelen - Publicidade e Programação Visual.

Uma lágrima escorreu-me dos olhos. Uma lágrima de sarcástica alegria e resignação. Sim, Suelen estava trabalhando “na área”. Suelen era um sucesso, Suelen finalmente estava trabalhando “na área”.

O porco continuava em pé ao meu lado. Ergui a cabeça e fitei-o tranqüila e resignadamente enquanto ele me saudava:

- Seja bem vindo, garoto. Seja bem vindo à frustração inerente aos seus maiores desejos. Seja bem vindo ao Inferno, garoto.

E então os seus olhos se transformaram em dois abismos negros e gelados, nos quais mergulhei para nunca mais voltar.



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