Sete Pecados Selecionados 1 - Por Indigo Girl
Tuesday, 22. July 2008, 13:59:50
“Dona Maria José. Confessionário particular. Sigilo absoluto. Penitências justas.”
- Trouxe tudo organizado, como a senhora mandou.
- Ótimo! Isso ajuda muito, minha filha. Bem, mas vamos lá. Aceita um café, chá, água?
- Aceito sim, um cafézinho.
- Fique à vontade. Pode deitar no sofá, sentar na poltrona, o que você preferir...
- Coloquei tudo em ordem cronológica. Acho que ajuda a colocar em perspectiva, né?
- Ajuda.
- Olha, Dona Zezé, antes de começar, eu queria agradecer a senhora.
- Que é isso, querida. Nessas horas a gente faz o que pode.
- A senhora entende que com aquele padreco eu não conseguiria fazer isso, não entende?
- Nem você e nem metade das moças desse bairro.
- Experimenta um pedacinho desse bolo de fubá que eu fiz.
- Adoro bolo de fubá!
- Então vamos começar. Fica à vontade, tá? Sou toda ouvidos.
A moça olhou para sua lista. Dezembro de 1989. Pecado nesse mês, pensou, pesa mais. Com um marcador destacou o título: “traição”. O pobrezinho nunca descobriu. Se bem que era um mané mesmo. Aí estava seu primeiro dilema. Não tinha certeza se aquilo chegava a ser um pecado de fato. Na época sentiu que o que fazia era errado. Implorou perdão, por medo de perder o namorado, uma situação realmente patética. No final da noite, quem pedia perdão era ele. Mané!
- Pode falar.
- É que tem um aqui... Que não sei se compensa contar... Faz tempo, e pensando bem, ele merecia sabe?
- Traição?
- Pois é...
- Traição é assim: se ele não descobriu, esquece. Se ele descobriu mas perdoou, esquece. Se ele descobriu e te deu um pé na bunda, esquece, porque o pecado já está pago. Se ele não descobriu e você está se sentindo culpada, aí tem que contar.
- Então esquece.
- Próximo.
Fevereiro de 90. Os de fevereiro deviam ter desconto, por motivos religiosos até. Esse era da categoria luxúria, misturado com vaidade, sodomia, cobiça, exibicionismo. Chegou a ficar vermelha, lembrando dos detalhes. Ai... tempo bom que não volta mais.
- Vou ler conforme aconteceu, tá?
Terminada a leitura, não conseguiu tirar os olhos do papel, também não ouviu nenhuma reação. Cabisbaixa, aguardava o castigo.
- Você já pensou em publicar?
Era bom mesmo. Acabou saindo em formato de crônica. Não só havia lhe ocorrido publicar, como já tinha o projeto editorial fechado na sua cabeça. Sete capítulos, formando um crescendo, como numa ópera, começando com “A Gula,” onde entrariam os contos da sua fase anoréxica e progredindo vertiginosamente até: “A Ira,” onde entraria um conto extremamente gótico, envolvendo Exu Rei, Lilith e o diabo a quatro.
- A senhora gostou?
- Menina! Está maravilhoso! Leia os outros.
A moça leu seus “Sete Pecados Selecionados”, era esse o nome que daria para a coletânea. Dona Zezé lembrou-se de quando tinha aquela idade e dos banhos no açude. No final recomendou que a moça aproveitasse aquele restinho de juízo final para continuar pecando, que nessa idade, é o melhor que se tem a fazer.
A moça abraçou Dona Zezé e lhe desejou muita sorte nos negócios. Foi embora sentindo-se serena. Ainda ganhou um pedaço de bolo de fubá, para comer em casa.
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