Lúcio, O Rei dos Macacos
Tuesday, 22. July 2008, 04:02:38
Não sou o mais velho, nem o mais novo, sequer o mais inteligente: sou apenas o filho mais bonito.
Todos os que visitavam nossa casa encantavam-se com as gracinhas espertas de meus outros irmãos. Mas, quando eu aparecia, as pessoas só tinham olhos para meus cabelos louros como a luz do sol, para minha pele branca como areia de praia e para meus lábios rosados como sorvete de morango.
Eu desdenhava dos elogios que me dirigiam. Apenas sorria debochado, exibindo meus dentes brancos perfeitos, para maior encanto dos que se deixavam seduzir pela minha aparência encantadora.
Mas isso foi antes. Antes dos macaquinhos.
Meu pai apareceu um dia com um casal de macaquinhos. Dava-lhes mais atenção do que a mim ou aos meus irmãos.
Meus irmãos não se importaram com as atenções de meu pai aos macaquinhos. Pelo contrário, adotaram-nos como se fossem seus irmãos, brincavam com eles e os protegiam de meus ciúmes.
Eu queria destruir aqueles macaquinhos. Mas meu irmãos não deixavam e meu pai me olhava com severidade sempre que eu ameaçava machucá-los.
A mágoa instalou-se em meu coração, eu não conseguia mais dormir, nem me alimentar. Eu precisava encontrar um jeito de destruir aqueles macaquinhos estúpidos, para voltar ao centro das atenções de meu pai.
Um dia, um de meus irmãos ofereceu um chocolate aos macaquinhos e levou uma bronca de meu pai:
"Não dê chocolate aos macaquinhos, senão eles ficam com dor de barriga"!
Dor de barriga...
Arquitetei o plano durante alguns dias.
Um de meus irmãos mais novos, bobinho como ele só, comia um chocolate enquanto brincava com os macaquinhos. Disse a ele que era maldade não oferecer um pouco aos bichos.
"Mas o papai disse para não dar chocolate para eles, senão ficam com dor de barriga"!
Respondi que era melhor não comer na frente deles. Ou comia o chocolate ou brincava com os macaquinhos.
Meu estúpido irmão mais novo já estava saindo de perto dos bichinhos quando o agarrei pela camisa.
"Espere, um pouquinho só não vai fazer mal!! Dê um pouco de seu chocolate aos coitadinhos, olha só a cara de fome deles"!
Meu irmão ficou em dúvida. Dei-lhe o meu mais lindo sorriso e ele não resistiu: ofereceu todo o seu chocolate para os macaquinhos.
Eu ria, ria e ria enquanto os macaquinhos choravam com a dor de barriga.
Meu pai apareceu e ficou furioso quando viu os macaquinhos doentes. Meu irmãozinho chorava e me acusava: "Foi ele quem mandou, eu não queria, foi ele, foi ele...".
Meu pai tinha os olhos em lágrimas. Parecia sentir um gosto amargo na boca.
Eu não entendia porque. Expliquei que, de agora em diante, eu teria de novo o lugar que era meu no centro de suas atenções.
Meu pai chorou. Disse que os macaquinhos jamais foram mais importantes do que eu... Até eu fazer essa maldade com eles.
Como castigo, meu pai me trancou num quarto e não vem mais me ver, para que eu aprenda que a maldade não conquista o amor.
Mas eu sou teimoso e meu nome é Lúcio e sou o filho mais bonito de meu pai. Nunca vou admitir que um macaquinho tire o meu lugar.
Os macaquinhos que passam pela janela do meu quarto se encantam com meu sorriso, acham lindo o meu rosto e vêm comer chocolate em minhas mãos...
Tenho vários macaquinhos presos aqui comigo no meu quarto. Grito para que meu pai venha me ver e salve os macaquinhos de minhas maldades.
Mas meu pai responde apenas, sem abrir a porta do quarto:
"Eles entraram aí porque quiseram, porque se deixaram enganar pela beleza do seu rosto e não viram o quanto você é feio por dentro! Mas trancado aí, você não pode fazer mal aos macaquinhos que estão comigo! Pare de fazer mal aos macaquinhos e eu soltarei você, para ser de novo o meu filho mais bonito, o preferido entre todos".
Não concordo e jamais concordarei. Prefiro ser um rei em meu quarto a ser um escravo lá fora, entre macaquinhos feios e atrevidos, que não sabem o seu lugar.
Estou há tanto tempo trancado neste quarto com os macaquinhos que quiseram provar o meu chocolate... Sinto que estou me tranformando num deles. Meu rosto bonito está virando um focinho. Não ando mais com a cabeça erguida, mas meio curvado, com as mãos arrastando no chão.
O ciúme e a maldade estão me transformando naquilo que mais odeio... Às vezes, penso em fugir daqui mas, quando penso que, lá fora, os macaquinhos andam livres por aí e não posso fazer maldades com eles, logo desisto...
Quem sabe se eu não me transformar de vez num deles o meu pai não volte a me amar...
De que me adianta ser bonito, se meu pai não deixa ninguém ver minha beleza?
De que me adianta ser bonito, se minha beleza só é admirada por macaquinhos presos?
Olho pela janela e vejo crianças bonitas brincando... Penso se elas não gostariam de ganhar um chocolate... Minha beleza teria muito mais valor se fosse vista por crianças bonitas...
Ei, você aí que está lendo está história... Aceita um chocolate? Vem buscar, está aqui na minha mão... E tenho mais um montão escondido aqui no meu quarto!








