Thursday, 8. October 2009, 20:55:29
Sara Aleixo - Mas há sempre condicionalismos, quer dizer, há uma pessoa que nasce, a sua autonomia vai ser completamente condicionada pela educação familiar, pela zona do país em que vive, as escolas que frequenta, o tipo de pessoas que conhece. Onde é que está a vontade pura?.

Charlie - Não confundir vontade com autonomia, autonomia é uma coisa que se ganha pelo exercício da nossa vontade. Aquela trilogia do que cada um pensa ser, autonomia, liberdade e responsabilidade, entra em função quando nós vamos exercer a nossa vontade. E, digamos que é a interacção entre esses factores que determina a nossa maneira de determinar a nossa vontade sobre os outros.
Mas, no fundo, penso que tem a ver com os dois conceitos de autonomia, exercer a vontade sem olhar para fora e tentar colocar-se na situação do outro, sentir o outro, e exercer autonoma, capitalistica e fascisticamente a vontade, sem ter interesse pelas repercussões que isso tem no exercício de vontade da outra pessoa.
A sociedade pode criar três tipos de educação que modelam em termos sociais esses três vectores da autonomia-responsabilidade-liberdade.

Descobriu-se que se pode criar três tipos de educação: a educação laissez faire- laissez passer, nomeiam-me líder daquilo mas eu não lidero nada, não quero saber o que se está a passar.
Depois há o democrático, nomeiam-me líder para eu por aquelas pessoas a interagir sem que eu esteja lá a exercer a minha vontade, mas o objectivo tem de ser, pôr todas as pessoas a exercer a sua vontade.
Ou então cria-se uma educação fascista como a dos meus professores de há vinte anos.
apesar que todos eram bons professores...só que metade deles eram autocráticos
Chegou-se á conclusão de que só no grupo democrático é que as pessoas mudavam pelo exercício da sua vontade
Talvez, descrevendo-se um exemplo, seja mais fácil. Pretendia-se que os americanos passassem a comer miúdos de toda a carne porque se estava durante a guerra. Ninguém gostava de miúdos e deitava-se fora.
Mas como se estava durante a guerra resolveu-se aproveitar e então o Kurt Lewin criou três tipos de grupos, experimentando aqueles três tipos de liderança educacional, para ver em qual desses grupos se começava a comer esses miúdos.
Chegou-se à conclusão de que no grupo Laissez faire, laissez passer”, toda a gente falou sobre aquilo, mas ninguém ganhou os hábitos de consumo. No grupo de liderança fascista (directiva), pode ter havido alguém que mudasse, mas porque estabeleceu uma relação de medo com o educador directivo.
Descobriu-se que no grupo de liderança democrática, onde estava um indivíduo a pedir às pessoas que dissesse como é que se fazia, que fosse para casa pensar que petiscos se poderiam fazer e depois discutirem-no em grupo.

Nesse grupo, onde todas as pessoas exerceram as suas vontades, tinha-se conseguido que 90% do grupo ganhasse hábitos de consumir miúdos.
O que está subjacente nesse tal grupo social é o modelo de educação do sistema educativo que pertence ao poder e é gerido por ele. Isto traz-nos a grande questão, que é a mais antiga, temos de voltar a Shakespeare, entre o ser e o não ser.
Sara Aleixo - Mas como é que se passa a ser? As sociedades democráticas são as que conseguem promover mais autonomia nas pessoas, não é? Isso passa a ser um ciclo...
Charlie - Está sempre em ciclo. Vão evoluindo conforme vai evoluindo a cultura, vai evoluindo a consciencialização das pessoas que estão sujeitas a esse ciclo, a essa educação e a essa cultura. Isto é o ciclo constante do ovo e da galinha. Ovo e galinha são uma unidade estrutural indissociável. Ovos produzem galinhas, que vão produzindo. São um só ser.
Sara Aleixo - Nesse caso, como é que se põe o ovo da autonomia numa sociedade fascista?
Charlie - Modificando o tal sistema de educação, no fundo, com a diversidade de comunicação cultural, podem estar abertas algumas hipóteses das pessoas seguirem alguns modelos novos de alternativa estruturalista.

O problema é que as pessoas se vão reportar a revoluções a-históricas, que aconteceram há muitos anos, para hoje fazerem a revolução, e hoje não existe nenhuma filosofia idealista revolucionária, que provoque um “estado nascente”, do Dr. Alberoni, que, na sua tese de doutoramento que se chama A Génese, levanta a tal questão da vontade autonómica de grupo. O marxismo era um idealismo muito bonito que leva ao fim equalitário, sem exercício do poder, todos teriam acesso ao poder.
Quando os seres humanos pegam nos idealismos, é preciso perceber o estado volitivo das pessoas que acreditaram nesse idealismo, e já está aqui a diluir-se a vontade pessoal colectiva.
O estado nascente é, precisamente, quando as pessoas olham umas para as outras perceberem que todas elas têm um estado volitivo comum, não há um estado volitivo pessoal. Esses tais estados nascentes, que os artistas e filósofos seguiram, quando tomado pelos indivíduos e transformados em instituição...
Ele, enquanto idealista, tem a vontade de uma multidão se tornar autónoma e ser democrática, mas aparecem depois pessoas que tomam o poder e que utilizam esse idealismo e esse exercício da vontade pública, transformando num sistema de regras que vai destruir exactamente esse estado idealístico e transforma-o numa coisa material, se formos a um Lenine ou Staline, é criar um sistema cultural que destrua a vontade colectiva a zero, passando eles a exercer a sua vontade (um bom exemplo de mau exercício da vontade).

Lenine, mandou matar milhões de pessoas para exercer a sua vontade em nome de um idealismo. O grande problema é que os ideais mais lindos do mundo, por exemplo, o ideal de Cristo, em nome do qual se assassinou mais pessoas na história.
Porque as instituições, com o seu poder, pegam na cultura transformando-a pelos meios de comunicação, para poderem exercer a sua vontade. Quanto “mais bonito” for o ideal nascido, mais morte, sangue e destruição pode provocar.
Como no caso de Cristo, os novos idealistas do marxismo, ao tomarem o poder, tornam-se grandes assassínos, esses ideais de comunidade, igualdade, fraternidade e solidariedade, todos estes valores que estão normalmente subjacentes aos ideais de exercício de vontade da multidão, os do grupo, são imediatamente tomados sempre pela estrutura do poder. O que se põe é que o poder concentrado vai diminuindo na história, mas no seu limite lógico-matemático, ele nunca será destruido e nunca haverá igualdade. Isto é bem explicado na rábula do Triunfo dos Porcos, de George Orwell.

Os animais de uma quinta, revoltam e expulsam o dono, mas após os primeiros momentos de euforia colectiva, o grupo dos porcos toma o poder através dos cães como polícias, e apoderando-se da comida para si próprios, voltando os outros animais ao estado primeiro de subjugação.
Exercício do poder corresponde à possessão material da terra que pertence a todos.
Por exemplo, 5% da população que detém 95% do poder material do mundo, destrói 95% da terra, em termos de poluição. A autonomia está sempre ligada portanto, ao poder, que jamais será destruido, nunca podendo chegar a haver autonomia pura.
Porque há uma força imanente do inconsciente colectivo histórico e da cultura que, mesmo que haja uma revolução e a capacidade de exercício da autonomia colectiva, há sempre uns do grupo, ou vindos de fora, que tomam o poder e exercem a sua vontade e detém os meios de produção e materiais.
Mesmo havendo um estado gasoso de desestruturação social, devido ao enraizamento do poder, acaba sempre por se reestruturar e destruir esse tal ideal que permite o exercício da vontade colectiva... Não é possível criar o estado idealista que possa destruir o poder para sempre.

Estes estados nascentes autonómicos da multidão, parecem ser um mal necessário para o poder, para que o poder dominante nunca estagne, criando as condições para a sua perpetuação, com uma parecença com a diversidade biológica de adaptação, complexificação e crescimento.
Apesar do poder dos reis se ter desmultiplicado nos parlamentos, há diferenças culturais, por exemplo na Holanda de comunalismo democrático, um regime em que as pessoas participam mais nas decisões políticas, mas nunca se atingirá o estado autonómico do poder para todos.