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Campanhas eleitorais custam caro?

Nas últimas eleições para prefeito, em 2004, trabalhei para duas campanhas.
Ajudei a eleger o prefeito de um município com cerca de quinze mil eleitores, sem TV, sem rádio, sem dinheiro para grandes comícios, sem trios elétricos, sem parafernálias.
Perdi na cidade maior, com setenta mil eleitores, com quase oito minutos de programa eleitoral na TV e em cinco emissoras de rádio, placas de outdoor, centenas de mini-outdoors, banners e placas para todo lado, com um trio elétrico fantástico, showmícios que enchiam as ruas com doze, quinze, vinte e cinco mil pessoas!
A diferença entre as duas campanhas, entretanto, não estava nos custos. Estava nas vaidades de cada candidato. E no grande erro cometido pelo candidato mais endinheirado, infelizmente o primeiro erro, que se repete campanha após campanha, grande ou pequena: a escolha por um consultor político ou por uma produtora de vídeo e/ou áudio para conduzir o processo.
No meu exemplo pessoal, a campanha modesta tinha um tema adequado, foi dimensionada para os recursos existentes. A criatividade foi a grande orientadora de tudo. Vencemos porque conseguimos mostrar à população a real vantagem de eleger nosso candidato, mesmo disputando com o prefeito em exercício, que tinha muito mais recursos e o apoio do governador, de seu partido.
Na campanha maior, fizemos apenas os programas eleitorais em TV e rádio, sob orientação exclusiva do dono da produtora. As peças impressas foram feitas sob outra orientação, sem redator ou diretor de arte para criá-las, porque, pasmem!, um garoto de quinze anos, prodígio no Corel Draw, cuidou dessa parte, porque era priminho do candidato e, como salário, recebeu um computador novo de presente.
A temática apresentada pelo dono da produtora era absolutamente vaga, mas apoiada por um jingle maravilhoso, magnífico, que enfeitiçou a inteligentzia da campanha e, diga-se a verdade, era cantarolado espontaneamente pelas pessoas nas ruas.
Mas, para os programas, a ordem era seguir o que a inteligentzia determinasse, porque a responsabilidade da produtora era fazer programas bonitos para a televisão. E repeti-los no rádio. Única recomendação explícita: desmentir o prefeito em exercício, candidato à reeleição, porque isso tinha funcionado numa certa campanha para governador!
Nada contra os donos de produtoras. Eles estão defendendo seus ganhos. As campanhas praticamente permitem fazer o upgrade de todo o equipamento eletrônico, como ilhas e câmeras. Na tal campanha abastada, o resultado final de nossos programas, tecnicamente, era melhor do que a própria emissora conseguia em sua programação. Várias vezes houve diferença expressiva nas cores, porque a qualidade do nosso equipamento era tanta que a emissora não conseguia acompanhar.
Cansei de ver, nos showmícios, de cima do trio elétrico fabuloso, as pessoas lá embaixo empolgadas com os artistas preliminares e com o grande show final. Mas completamente alheias aos discursos do candidato a prefeito, do vice, dos candidatos a vereadores. A claque contratada, misturada à multidão, conseguia incentivar uns poucos. E só isso. Nos comícios dos adversários aconteciam as mesmas coisas. E o prefeito acabou sendo reeleito, com ampla margem, porque as pessoas estavam vendo o que ele estava fazendo pela cidade já há três anos.
Na campanha menor, o prefeito no poder também tinha uma administração razoável para mostrar. Seus comícios foram mais exuberantes.
Mas, diante do palanque simples de nosso candidato, as pessoas se divertiram igualmente com as apresentações dos artistas locais e de um ou outro convidado de cachê modesto. Só que suas fisionomias estavam atentas à fala do candidato, empolgadas com suas palavras de ordem, silenciosas vendo e ouvindo respeitosas os discursos gravados com uma pequena mini dv que eram apresentados no telão. O programa de governo foi distribuído de mão em mão, pessoa a pessoa, no silêncio do intervalo entre o último discurso do prefeito e a entrada do artista convidado para o número final.
Proibir camisetas? Em cidades pequenas, é a época de colocar alguma peça nova no armário de roupas de gente que mal tem o que vestir. Proibir chaveirinhos, um brinde simpático que ilumina os olhos do povão do salário mínimo? Proibir as pesquisas ou punir as empresas de pesquisa que se revelem manipuladoras? Vedar o uso do dinheiro do fundo partidário ou acabar com esse financiamento público atravessado e deixar cada partido se virar com o que seus afiliados permitiram? Afinal, o fundo partidário não é uma forma de patrocinar partidos com dinheiro do povo?
Campanhas eleitorais não custam caro. Custa caro contratar marqueteiros que repetem as mesmas campanhas eleição após eleição ou que fazem, numa mesma eleição, campanhas idênticas para diferentes candidatos em cidades distantes umas das outras. Custa caro subir num trio elétrico suntuoso e não ter o que dizer para o povo lá embaixo a não ser promessas sem nenhuma consistência.
Campanhas eleitorais custam barato quando são iniciadas e discutidas com antecedência, com tempo para o consultor político estudar a praça do candidato, aconselhar este ou aquele procedimento, participar e orientar como parceiro do seu candidato e não como um aproveitador do momento de ganhar um bom dinheiro.
Campanhas eleitorais custam pouco quando se decide fazer programas para a televisão baseados no real e não na fantasia do mundo da publicidade. Tem consultor político que trata candidato como se fosse sabonete e faz campanhas maravilhosas, em 35mm e em VT transportando de avião dezenas de figurantes para filmar numa locação mais bonita. E se esquece de que o sabonete não tinha perfume, não tirava a sujeira e, pior, até acontecia de ter efeito contrário.

Hermínio Naddeo
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