Monday, 12. June 2006, 21:05:07
Reichenbach nas filmagens de Filme Demência“É o filme onde eu mais me expus. Nele revisitei a perda do principal vínculo familiar e, de certa maneira, fiz as pazes com o meu pai. O filme foi feito não só para refletir o processo da perda de identidade, mas também o fracasso econômico do país com a conseqüente decadência moral que acompanha todas as inflações.”
Carlos Reichenbach sobre Filme Demência
O Cineclube Kino Glaz promove, no dia 22 de junho,
depois do jogo do Brasil, às 20 horas, no Teatro do Sesc, em Curitiba, a exibição da cópia restaurada de
Filme Demência, com a presença do diretor Carlos Reichenbach. O evento é uma realização do Grupo Kino Glaz, com patrocínio do Sesc da Esquina e apoios da Fnac e Hotéis Slavieiro. Na oportunidade, serão sorteados dez exemplares do livro
Carlos Reichenbach: o Cinema Como Razão de Viver, de Marcelo Lyra. A programação prossegue no domingo, dia 25, quando será projetado, às 19 horas, no Auditório 1,
Lilian M., Relatório Confidencial. Nos dias 2 e 9 de julho será a vez de
Alma Corsária e
Dois Córregos.
Serviço: Exibição da cópia restaurada do Filme Demência com presença do diretor Carlos Reichenbach. Teatro do Sesc – Sesc da Esquina (R. Visconde do Rio Branco, 969), (41) 9991-4351. 22 de junho (quinta-feira) às 20 horas. Entrada franca. Informações: www.my.opera.com/kinoglaz
O cineastaReichenbach é um dos maiores cineastas brasileiros em atividade, dono de uma filmografia pessoal e inquieta. Nasceu em 1945, em Porto Alegre, no berço de uma família de editores e industriais gráficos. Um ano depois, mudou-se para São Paulo, onde descobriria o cinema como jovem, nos “poeiras”, como eram chamadas as antigas salas da cidade.
A incursão, em 1965, na Escola Superior de Cinema São Luiz foi decisiva para que se definisse como diretor de cinema, graças à influência de mestres como Roberto Santos, Anatol Rosenfeld, Paulo Emílio Salles Gomes, Mário Chamie, Décio Pignatari, e, principalmente, Luis Sérgio Person. Embora não fossem estudantes, Rogério Sganzerla, Jairo Ferreira, José Mojica Marins, Ozualdo Candeias, Fauzi Mansur e outras figuras do circuito de cinema emergente de São Paulo – a base do dito “cinema marginal” – freqüentavam a escola.
O curta-metragem
Esta Rua Tão Augusta, produzido por Person, foi o primeiro filme de Reichenbach, que iniciava, paralelamente, colaborações como crítico em jornais de bairro paulistas.
Corrida Em Busca do Amor, um aprendizado que, de acordo com o cineasta, nenhuma escola lhe permitira desenvolver, iniciou o currículo de longas-metragens em 1970.
Depois de uma passagem pouco gratificante pela produtora publicitária Jota Filmes, Reichenbach largaria tudo para fazer o segundo longa,
Lílian M., Relatório Confidencial. Também seguiria a carreira de técnico cinematográfico, com numerosas atividades como operador de câmera, diretor de fotografia e ator.
Filme DemênciaA obra de Reichenbach seria reconhecida pela primeira vez internacionalmente em 1985, quando
Filme Demência recebeu o título de Obra Inovadora do Ano. “É o filme onde eu mais me expus. Nele revisitei a perda do principal vínculo familiar e, de certa maneira, fiz as pazes com o meu pai. O filme foi feito não só para refletir o processo da perda de identidade, mas também o fracasso econômico do país com a conseqüente decadência moral que acompanha todas as inflações”, afirma o cineasta no livro
Carlos Reichenbach: o Cinema Como Razão de Viver. Seguiriam, ainda, homenagens pela Cinemateca Real de Bruxelas, com prêmio L’Age d’Or, por
Anjos do Arrebalde, e o prêmio de Ditruibuição por Amor, palavra prostituta. Alma Corsária venceria o prêmio dos 30 anos do Festival do Novo Cinema de Pesaro.
Em 2001, depois de sobreviver a três infartos do miocárdio e ganhar três pontes de safena e uma mamária, foi o primeiro cineasta a receber o Troféu Eduardo Abelim, no 29° Festival de Gramado. Recebeu também o troféu Barroco, pela obra, na 3ª Mostra de Cinema Brasileiro de Tirandentes, Minas Gerais, e o troféu especial do Guarnicê de Cine-Vídeo, em São Luiz do Maranhão.
Kino GlazO Grupo Kino Glaz foi fundado em janeiro de 2006, em Curitiba, com objetivo de formar um núcleo de produção de cinema. O Cineclube Kino Glaz é uma de suas ações paralelas, criada para combater um quadro deficiente de distribuição de filmes brasileiros e títulos raros em Curitiba.
Ficha técnicaFilme Demência (Brasil, 1985). Direção e argumento de Carlos Reichenbach. Roteiro de Carlos Reichenbach e Inácio Araújo. Com Ênio Gonçalves, Emílio Dibaisi, Imara Reis, Fernando Benni, Rosa Maria Pestana, Orlando Parolini, Alvamar Taddei, Benjamin Cattan, Vanessa Alves, Renato Master, Roberto Miranda. 90min, cor.
SinopseApós assistir impotentemente a falência de sua pequena indústria de cigarros, Fausto mergulha no interior de si mesmo. Rompe com Doris, a esposa infiel, rouba o revólver do zelador do prédio onde mora, e sai pela noite de São Paulo em busca de Mira-Celi, seu paraíso imaginário. Em seu trajeto suicida encontra personagens emblemáticos de sua existência obscura: o amigo de infância e desonesto Wagner, a amante suburbana Mércia, o visionário guru Honduras, um ex-colega da faculdade de economia que vende carros de segunda mão, o cunhado salafrário Dr. Gildo Lobo e seu sócio Dr. José Carlos Barata, amante de Doris, e entre outros, e sobretudo, Mefisto, que surge transvestido de várias formas, inclusive como uma simpática velhinha. É a eterna busca do conhecimento que o conduz à descoberta de seu próprio espelho. Uma viagem onde o importante não é chegar, mas viajar; um movimento circular permanente que leva Fausto a concluir quem nem a alma tem para oferecer a Mefisto.
ComentárioAmbicioso projeto de Reichenbach, único de seus filmes realizado com financiamento da extinta Embrafilme. Uma adaptação pessoalíssima da lenda de Fausto, e sua trágica e eterna busca do conhecimento. Goethe, Marlowe, Coleridge, Murnau e as óperas de Mahler e Gounod, sob a ótica urbana e fractal do cineasta. Uma experiência radical que trafega por caminhos nunca antes tentados pelo cinema brasileiro. Na opinião do saudoso crítico Edmar Pereira : " Uma investigação existencial e filosófica capaz de fascinar ou irritar o espectador. ". Em sua estréia mundial, no Festival de Rotterdam de 1986, foi votado para o prêmio de "filme inovador do ano".
Polêmico, desgovernado, carregado de citações literárias, Filme Demência (anagrama de filme de cinema) indica uma nova guinada na obra de Reichenbach: um cinema confessional, inspirado diretamente na experiência existencial do realizador; no caso, a sua relação com a própria extirpe. Reichenbach, filho e neto de industriais gráficos e editores, tendo perdido o pai aos 13 anos de idade, assistiu impotentemente a perda de todos os bens de família, inclusive a tradicional e primeira indústria litográfica que seu avô veio, no início do século, instalar no Brasil. Na tela, o mito de Faetonte, o filho de Apolo que perdeu o "carro de fogo" herdado do pai.
As filmagens foram interrompidas por três vezes devido às dificuldades na liberação do financiamento, e o filme só pode ser concluído graças à dedicação de seus dois atores principais. Toda a última parte do filme, as seqüências de estrada e litoral, foram fotografadas pelo próprio Reichenbach, e com o auxílio de uma equipe reduzida pela metade. A premiada trilha musical de Manoel Paiva e Luiz Chagas se inspira diretamente na Oitava Sinfonia de Gustav Mahler. O filme foi totalmente rodado em São Paulo e nas proximidades de Bertioga.
CitaçõesGosto de enxergar o cinema como minha manifestação de vida. Busco em todos os filmes que vejo entender a pessoa que o fez. Continuo um ardente e radical defensor do cinema autoral. Desprezo todo e qualquer filme que esconda a alma do seu realizador.
Carlos Reichenbach, em entrevista a Carlos Adriano
Não dá para confiar em filmes que não se detenham alguns segundos nos olhos de seus personagens e que mascaram o ódio (ou a indiferença) pelos seus personagens com a firula técnica e ausência de humanismo.
Idem
Quando a produção começou a voltar, veio essa conversa de industrialização, de mercado. Aí vai tudo pro buraco de novo. Isso se verifica historicamente, desde a Vera Cruz. [...] Falta inspiração, tá todo mundo preocupado com o mercado, com roteiro bem escrito. O grosso da produção atual tem o Oscar como parâmetro estético, com exceção dos independentes. Temos de aprender a lição de Buñuel: quando a câmera está bem enquadrada, vai lá e chuta o tripé.
Carlos Reichenbach na matéria Um utopista de carteirinha, de Alexandre Agabiti Fernandez; Valor, 10 de agosto de 2001