Maria de Lurdes Rodrigues não tem condições para continuar a gerir o sistema de educação em Portugal
Wednesday, 7. May 2008, 23:03:53
Porque já não é eficaz nessa função
Mário , Crespo, Jornalista
Maria de Lurdes Rodrigues não tem condições para continuar a gerir o
sistema de educação em Portugal. Porque já não é eficaz nessa função.
Porque é um facto insofismável que o pessoal que ela administra não
aceita a sua administração. Isso esvazia de conteúdo as suas funções.
Já não está em causa a eficácia da sua política. A questão é que ela
não vai conseguir implementar as boas ideias que tem, nem impor as
más. O argumento de a manter no cargo para não "desautorizar" o
Primeiro-ministro é falso e perigoso. Mantendo-a nas funções que
desempenha a desautorização do governo de Sócrates é constante. Chegou
a altura de ver que isso é mau para os alunos. Só podem ser eles quem
está em causa. Não pode haver razões de defesa de imagem política que
justifiquem esta intransigência porque a manutenção de um percurso de
imposição administrativa começa a ser um risco de segurança nacional.
É péssimo para o quotidiano escolar ter um sistema totalmente
desautorizado com professores a desafiarem o governo e o governo a
desautorizar-se em frémitos de afirmação de voluntarismo vazio. Da
necessidade de reformas sabe-se com fundamento científico desde o
trabalho de Ana Benavente que denunciou que um quarto dos portugueses
mal sabia ler e que só dez por cento da população é que entendia
completamente aquilo que está escrito. Mas esse estudo tem década e
meia e nada de substancial foi feito no entretanto. Por isso, o que
está em questão não é a avaliação de professores. Apreciações de
desempenho são meros pormenores de gestão de pessoal. O que é preciso,
como consta de uma lúcida reflexão dos docentes da Escola Rainha D.
Amélia, é fazer a escola cumprir com as suas funções na socialização
de crianças e jovens. É promover a criação de hábitos de disciplina
interiorizados que se multipliquem depois na vida adulta. Entre Cavaco
Silva, o governante confrontado com o estudo de Ana Benavente, e José
Sócrates, este processo de calamitosa estupidificação do país não foi
interrompido por um projecto lúcido. O governo actuou agora como se o
problema estivesse nos docentes e não no sistema de docência e nos
curricula. Actuou como se o problema único de Portugal fosse o do
excesso de privilégios e não o do defeito de cultura.
E assim as frágeis construções da demagogia política trouxeram, mesmo
com a intimidação de PSPs à paisana e processos disciplinares da DREN,
uma centena de milhar para as ruas de Lisboa. E o Primeiro-ministro
mostrou a sua fibra assistindo em silêncio ao martírio de Maria de
Lurdes Rodrigues que se desdobrou nas TVs a tentar demonstrar o
indemonstrável axioma socrático que a sua política é infalível e o
défice de compreensão é do país. A resposta de Sócrates foi a de
marcar uma manifestação de desagravo para o Porto. Primeiro era para
ser na rua, depois numa praça, depois num pavilhão e vai sempre soar a
falso no clamor sem fim das turbas dos indignados. Foi um
contra-ataque ridículo no meio de muito comportamento bizarro. O
Professor Augusto Santos Silva protagonizou o momento de infelicidade
quando em Chaves quis assinalar os três anos de governação numa
espécie de estágio para o anunciado comício do desagravo. Foi vaiado.
Ripostou tentando conjurar os seus Manes. Invocou os nomes dos pais
fundadores, dos velhos companheiros que diz serem os seus da luta que
diz ser a sua. Salgado Zenha, Mário Soares e Manuel Alegre. E nenhum
lhe respondeu. Tentou depois o exorcismo, amaldiçoando os seus
demónios pessoais, os grandes e os mais pequenos. Álvaro Cunhal e
Mário Nogueira. E nenhum lhe respondeu. Ouviu vaias cada vez mais
altas e a voz embargou-se e disse: "eu não me calo...eles calam-se
primeiro que eu." Depois repetiu, baixinho como que a querer
convencer-se "...eles calam-se primeiro que eu". E não se calaram. Ao
ouvir na Antena 1 este terrível registo de desgovernação só me
ocorreram as sábias palavras de Juan Carlos para o tiranete
venezuelano: "por que no te callas".
Uma rectificação há duas semanas partilhei com quem me lê as minhas
opiniões sobre os méritos de um pedido de desculpas pelos excessos
coloniais. Quis um lapso infeliz que a minha crónica saísse com um
título em que se dizia que os excessos da descolonização exigiam
desculpas. Obviamente, como se depreendia de todo o meu texto, quis
dizer e disse, que os excessos da colonização é que mereciam retrato.
Novamente na minha opinião a descolonização em si foi dos actos mais
redentores na história de Portugal. Não há que pedir desculpas por
isso. Há que aplaudir. Agradeço ao General Pezarat Correia o ter-me
chamado a atenção para este erro que agora corrijo.
Mário Crespo escreve no JN, semanalmente, às segundas-feiras

