Diário de um viajante

Notas sobre um ano na Irlanda

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O vizinho americano

Lembrei dessa passagem e resolvi escrever para não esquecer, e contar um pouco, os muidos detalhes da vida do intercambista, que nem sempre é somente fácil. (Pode ser também engraçada e vergonhosa, que é mais ou menos como sinto esse "pequeno sucedido")

* * *

Tinha sido uma luta encontrar nosso primeiro apartamento. Hoje, que já estamos em outro, melhor, a gente meio que esqueceu a tensão dos primeiros dias. É que essa tensão era justamente a expressão do fato de que não sabíamos o que iríamos encontrar, nem SE iríamos encontrar alguma coisa. Nós mal chegáramos em Dublin, depois de 4 meses de angústias e dúvidas sobre "vir ou não vir" - eis a questão... - , "quanta grana levar", "o que seria necessário" - documentação, etc -, "será que iria valer a pena ou não", "o que fazer com as coisas que ficariam no Brasil nesse meio tempo" - apartamento, carro, móveis, trabalho, clínica, amigos, parentes, vida - enfim, todo um rosário. Depois de carregar tudo isso como deu, resolvendo aos tropeços o que dava e o que não dava, na chegada, quando uma parte da gente imagina - não sei porque - que as coisas se resolveriam, e os problemas ficariam pra trás, outros problemas surgem, ou continuam, e o intercambista não tem descanso.
Aquilo que era teórico ou imaginário ganha forma e peso: "onde vamos ficar"? As questões financeiras também se agrandam, pois o dinheiro é curto e as demandas não cessam. Por fim a questão do inglês, mais as dúvidas que vinham nos assombrar de vez em quando, tudo contribuia pras 'tensões nossas de cada dia'. Assim, a situação concreta de encontrar um apê não era nem de longe tão simples quanto parece, ao somente escrever isso.

Outro problema era encontrar os lugares. Dublin tem um sistema de endereçamento meio... estranho. Aqui, as ruas mudam de nome a cada tanto - duas quadras, quatro quadras, e a mesma rua já é outra; a numeração muda também, e, se percebi bem, as vezes a contagem vai no sentido crescente numa direção, e dali a pouco, muda, e começa a diminuir! As vezes não se encontra nem nome de rua, porque o endereçamento é feito com base no prédio: os prédios tem nome "próprio", e assim, imagino eu, os nativos encontram um lugar as vezes pelo nome - do prédio - as vezes pelo nome - da rua, as vezes... pelo google. É que eles falam, além do inglês deles (se é que isso é inglês; quem já falou com um irish vai entender...), o gaélico, que é uma língua daqui, que as crianças ainda aprendem na escola, que só eles falam, e que o google, vai saber porquê, usa pra nomear as ruas de Dublin. Não é fácil...
Bem, tudo isso pra dizer que, pra quem mal chega, já com toda sua carga de dúvida, a procura não é fácil. Então peleamos, uma semana, duas, caminhando horas a fio pra encontrar os lugares, até que a demora vai sendo um novo peso, mais uma pressão, e a gente, que começa criterioso na busca, vai ficando mais permissivo, mais tolerante...

Bem, no fim, encontramos nosso apê. Já deu pra ver que ele não era tudo isso que a gente queria, mas... estavamos felizes de ter algum lugar pra ficar. Feita a mudança, e degustadas as benesses nos mínimos detalhes, começamos a perceber os problemas do lugar. Aos poucos. E contrariados, claro.
Já falei um pouco disso aqui (link). Uma coisa que não mencionei na época, até por não ser o pior dos problemas, era o vizinho de cima.

* * *

Sim, porque nosso quarto era na parte térrea do prédio. Acima de nós não havia ninguém, e a casa parecia silenciosa. Lembro que quando fomos ver o apê, eu cheguei a notar o estilo da construção, que parecia a mais sólida; na hora de ver o lugar bateu um "clik" e pensei: "vou subir no andar de cima e fazer um barulho, pra ver se a Lisa ouve e se não vamos penar com a vizinhança". Mas que nada: andei uns passos na escada e percebi (ou pensei perceber) que o prédio era "mais que sólido", e então "bóra" alugar duma vez que atrás vem gente (sim, porque aqui os aluguéis não ficam esquentando cadeira, e se não se fecha na hora, se perde o lugar).

Hoje, lembrando disso, acho que fechamos aquele lugar muito em função da pressão, essas todas que falei um pouco acima. Enfim, instalados, e os problemas - e remorsos - começando a bater, eis que chegam uns americanos, um pai e um filho. Eles começam a mudança deles, e até aí tudo bem. Apesar do barulho. Que não parava. Que seguia por horas. Que era alto PACAS. Que... que saco! Já no primeiro dia deles eram duas da matina e os caras não paravam! Cheguei a pensar que eram os pedreiros do Landlord que estavam fazendo reforma no andar de cima, porque o prédio estava em obras mesmo...

Àquela altura da madrugada não tive dúvidas: saquei de uma vassoura e dei-lhe umas vassouradas no teto. O resultado foi fulminante: logo o barulho parou e pudemos dormir o sono dos justos (sim, porque além de tudo a cama era justa demais, e eu não podia nem espichar as pernas direito...).

Logo, isso meio que se tornou uma rotina, e volta e meia eu acabava pegando na vassoura e dando-lhe umas pancadas no teto, pra ver se o vizinho se acalmava. É que o índio não parava quieto, parecia que ficava o dia inteiro em função, arrastando as coisas daqui pra lá, de lá pra cá, e eu penando. No esforço de aprender inglês, passando frio naquela casa gelada onde nunca batia sol, lembrando dos gastos que íamos ter numa casa bastante mais cara do que queríamos, a vassoura acabou servindo de válvula de escape, e eu batia no teto como quem pede ajuda aos poderes divinos para que se resolva a situação. (Drama, modo on)

Até um dia em que a gente estava vendo um filme, bem deitados - ou antes, mal deitados, porque a cama era justa... - e o cara dê-lhe fazer barulho lá em cima. Esperei um pouco e, vendo que a situação não melhorava, taquei-lhe a vassourada no teto. Ele parou, mas dali a poucos minutos desceu e veio falar com a gente.

- "Será que eu posso passar o aspirador na minha casa?", perguntou ele, num inglês que eu ainda não entendia. Lisa, com um inglês bem melhor que o meu, disse que sim, e voltamos ao nosso filme meio culpados.

Resolvemos subir, então, e pedir desculpas ao americano, que, afinal, só estava querendo ter um quarto um pouco mais limpo, como, aliás, era também o nosso caso, pois os primeiros dias foram gastos em função da faxina no nosso flat (o que, pelo visto, não é nem de longe a regra por essas terras).

Enrolei um inglês para me desculpar com o vizinho, mais atrapalhado que gato em dia de faxina, como se diz lá no sul, já pela situação, já pela ignorância da língua. E sei que, no fim das contas, isso acabou nos ajudando a sair dali, pois os problemas se acumulavam e não podiam ser resolvidos a vassouradas.

Hoje, que moramos no último andar de outro prédio, procuro ser bem cuidadoso nas pisadas, pra não fazer muito barulho...

* * *

E assim íamos nós, naqueles primeiros dias de exploração. Como dizia o Jayme Caetano Braum:

"E a coisa ia indo assim,
Balanceei a situação,
- Já quase sem munição,
e Todos atirando em mim..."

Mais ou menos assim se sente o intercambista nos seus primeiros dias: entre os enlevos de descobertas e encontros, como num bom baile, mas também lidando com tiroteios que vêm de todos os lados, da língua, dos medos, dos custos, do ser estrangeiro.

Paris, parte 3 - As ruas, o Sena, e a Notre Dame

Resolvemos caminhar à pé. O tempo estava indecidido, chovia, parava, chovia de novo, uma chuvinha fina e fria, mas decidimos encarar. Com meu super celular em mãos - com GPS offline, uma beleuza! - fomos nos perder um pouco pelas ruas da capital francesa.

Todo mundo indica passear a pé por Paris, e eu não fujo à regra. Adorei as ruazinhas de Paris, e fico só imaginando como deve ser bom caminhar por lá no verão, com tempo bom. Isso sem falar em morar lá... Caminhando, logo chegamos numa avenida arborizada, onde batemos nossas primeiras fotos. Essa avenida se parece um pouco com as avenidas de Pelotas, com um grande espaço no centro, dividindo as ruas - na verdade não um simples espaço, mas um parque inteiro entre uma avenida e outra. Isso, que parece um certo esbanjamento - e é - constitui o cerne da beleza de Paris.

Não é que "aquele" café seja bonito, ou que "aquela" igreja, específica, valha a pena. Paris é bonita principalmente pelo contexto, isso é, pela exuberância de todos os seus detalhes. Mais que "o" café, "a" rua ao lado, o conjunto que eles formam; mais que um café elegante, o fato de haver trocentos outros cafés iguais ou mais bonitos, trocentas ruas, que de certa forma se espelham, se resumem, naquela ali, "a" famosa rua, "o" famoso café. Assim, até a rua não é simplesmente uma rua, mas eles se permitem perder espaço, e em vez de fazer uma avenida com 8 pistas, fazer duas avenidas de 3 pistas cada, e, entre as vias, "perdem" duas pistas fazendo um jardim como divisória.

O mesmo excesso que faz as janelas serem grandes, bonitas, estilizadas; as portas não são simples portas, mas têm molduras, estátuas, cores; cada casa parece se esforçar para não ficar no limite do simples suficiente, mas vai além - esbanja-se por toda parte, e, no conjunto, mesmo a simplicidade adquire outro tom, parece arte, parece poesia, parece... Paris.

Mais ou menos como diz o poeta - "não estou contido entre meu chapéu e meu sapato", Paris não está contida entre a Torre e a Notre Dame, mas reflete, em cada detalhe, um algo mais, que a gente imagina ou sonha, um suspiro por uma humanidade mais alta que ali parece, as vezes, se realizar.

Gostamos de Paris por sentir que, ali, de alguma forma, fazemos parte desse algo mais que todo humano carrega, mesmo que escondido, esquecido. Paris nos acorda para o algo de bom que temos.

* * * * *

Conhecemos, nesse espírito, a praça da Bastilha (foto 1), a Ópera de Paris (foto 2) - "Carmen" estava em cartaz naquele dia... pena que não deu tempo de ficar - e uma parte do rio Sena, bem onde ficam as ilhas: tudo muito lindo.

Foto 1: Praça da Bastilha



Foto 2: Ópera de Paris



O Sena e arredores



Encontrando um Natal

Mistura de ambíguos sentimentos - o natal sempre me demanda tanto - não sei o que dizer, mas, é verdade, preciso dizer algo, quero dizer algo - o natal...
- Passei o natal longe de quase todos. Lisa e eu, Luciano e Fran, uma boa janta, boa conversa, mas também suspiros e a impressão de que, no fundo, todos alí - brasileiros, como eu, em terra estranha, longe dos seus - todos queria alguma coisa "de casa".
De minha parte, não consegui nem ligar para as pessoas no Brasil. A correria da ceia - fui o cozinheiro - , o problema das linhas numa ligação tão distante, a vontade de dizer algo mais próximo do que um genérico "feliz Natal" na internet, tudo me fez preferir escrever algo aqui. E porque não imaginar como seria a ceia, tal qual se rascunhou em meus desejos?

* * *

- Na ceia que eu desejei havia, ao mesmo tempo, muita gente e espaço para encontrar cada um em particular. Nela estavam meus amigos, todos, toda minha família, o pessoal da clínica, colegas de trabalho, amigos que fiz e venho fazendo aqui em Dublin. E entre uma música - que dançaria com a Lisa, uma piada trocada com o Dani ou o Léo, uma conversa despretensiosa com os parentes, uma taça de vinho na mão, as palavras iriam, como pontes, nos ligando, nos aproximando, pouco a pouco, sem pressa, respeitando os tempos, tão diferentes, dos encontros.
Em cada um dos que conheço encontraria, assim, uma parte de mim, aquilo que me liga a eles, e, da mesma forma, cada um encontraria em mim algo seu. Encontraria ou, porque não, criaria? E nessa mistura que nós somos haveria espaço também para ressoar algo dos outros, nesse "patchwork" imenso que é nossa alma, feita de pedaços e peças que vamos juntando pelo caminho.
A ceia, espelhando esse espaço de troca em comum, nos ligariam num outro nível, e outros prazeres nos fariam amigos e irmãos também nisso, na forme que dividimos, e acalmamos, no sabor da carne. Depois disso, as esperanças, os desejos pro futuro, lançados como flechas, seriam só uma outra forma de expressar a alegria de estar ali, juntos, no presente; seriam só um desejo de "espichar" o presente no futuro, desejo de ser sempre assim.
Por fim, e depois de cada um se encontrar no outro, nós nos despediríamos satisfeitos, tendo saciado a fome de existir - pois existimos nesses outros que nos devolviam algo - nós mesmos, a alegria de estar conosco, de acreditar em nós - coisas de que nem sempre dispomos, sozinhos, em nossa própria "reserva" de existência. E seguiríamos nossa vida, mas leves, mais firmes, mais capazes de ser o que somos, de sustentar nossa incerteza essencial, ao apoiá-la nesses bons encontros -

* * *

Bom, esse foi o natal que eu quiz. O que fiz, de fato, foi um pouco menor, mas repondeu, como que eu resumo, a esse mesmo anseio. Espero que os que não puderam estar comigo tenham encontrado, de alguma forma, sentimentos como esses. No fim das contas, esse texto talvez sirva de ajuda, como um "empurraozinho" pro mesmo fim. Afinal a realidade é sempre mesclada de sonhos, e, ao menos para mim, escrever é uma maneira de me aproximar. Creio, então, que já nos encontramos ...-

25.12.2012

Paris, cidade luz - parte 2



Nossa próxima surpresa foi... o hotel. Sim, o hotel! Ponha-se na nossa situação: você está ali, chegando num lugar superbadalado, emocionado simplesmente por estar vivo, e, ao mesmo tempo, receoso, porque seu hotel foi contratado pela internet, onde nunca se sabe o que é válido e o que é fake, e então, ao virar uma esquina - já bastante agradável, ladeada por um parque - vemos surgir uma placa com o nome do hotel, e pensamos, aliviados, "haaaaa... então deve ser um bom hotel, que legal essa pracinha, que rua linda, isso não tem em Santa Maria, etc, etc, etc..." - quando entramos na porta do hotel e vemos que é uma porcaria.

A recepção era coisa nunca vista. Devia ter tirado uma foto. Um corredorzinho estreito, onde, no lugar das paredes tinha... uns pedaços de pano pendurado. Bota coisa de china velha, tá loco! As poucas paredes que havia não sei se não eram piores que os panos. Dai, virando num "pano" à direita, onde tinha um pedaço de papel escrito "recepção" ou algo assim, damos de cara com uma escada no mesmo estilo - pelo menos o hotel tinha senso de combinação - tudo era do pior gosto... - e, ao lado, uma salinha, também com divisórias de pano e mal-gosto, e um cara , com uma legítima cara-de-bunda francesa - decerto pra combinar com o ambiente...


Reuní minha coragem e saí correndo - não!, digo, reuní minha coragem e falei com o cara. Nessas alturas, já tava todo galo usando minhas 3 palavras em francês - eram só três mas não eram de pano pelo menos! - e expliquei que eu tinha reservado pela internet, etc. Ele confirmou minha reserva (num caderninho furreca, que só faltava ser feito de saco de estopa) e respondeu - a cereja do bolo - que, tudo bem, mas o quarto não tava pronto. Ia precisar de mais uns 40 minutos ainda!



No meio daquela decepção toda, nem me lembrei que, de fato, eles avisavam já na reserva que o horário do chek-in começava as 14hs, e ainda era meio dia. Resolvemos sair pra almoçar (levando nossas coisas, tá louco, vá que pegassem minhas cueca pra fazer mais uma parede, sei lá - ), não sem antes pedir pra ir no banheiro e piorar mais ainda nossa impressão.

Então vejamos: tinhamos acordado as 4 da manhã, viajamos, pegamos avião, ônibus, chuva, toda a emoção do metrô e ainda, naquelas alturas, um hotel daquele jeito e um banheiro sem papel, com aquela escada saída de um filme de terror de quinta e aquele atendente - era meio demais né?... mas tudo bem, éramos apenas dois imigrantes latino-americanos, sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes, precisando de um vaso e de um lugar pra ... LARGAR (não, não pense na rima) aquelas mochilas, e, mais importante, tendo que decidir - ficar ou correr? Eis a questão.

* * *

Papel higiênico pedido, horário de retorno combinado, pegamos nossas coisas e fomos procurar um lugar para comer. Bem do lado do hotel tinha um restaurantezinho desses de bairro, algo que dependendo do humor um cara poderia qualificar como uma evolução do Bar do Garça (em Santa Maria) ou uma versão mais simples do Babbete (também em Santa - mas pensando bem, não, nada a ver, seria muito otimismo!). Chovia ainda. Seguimos andando, pois queríamos algo mais; as ruas eram feias, mendigos na calçada, uns latinos com cara de mexicanos espalhados como cocô de cachorro pelo caminho (quanta poesia!...), até que - resolvemos ficar com o restaurantezinho mesmo, porque nada parecia melhor naquela região.

Mesmo sendo no centro, pertinho do bairro 3 (estavamos no 11), com aquela chuva e o frio que fazia - esqueci de dizer que eu estava gripado - tudo somado nosso astral estava meio baixo. Eu me esforçava pra pensar no lado positivo da situação - coisas do tipo: "bom, no hotel não há de faltar lençol, pois tem até nas paredes", etc etc etc - mas a verdade é que não estava funcionando.

Nesse espírito entramos no restaurante. Fui logo pedindo um prato tipo prato-executivo que eles oferecem no almoço, e um cara meio simpático meio trator nos encaminhou pra uma mesa. Ele falava alto, estilo fortinho-animado; a garçonete, que nos atendeu, era baixinha, franzinha, morena - até parecia brasileira - começou então a explicar (ou melhor, tentar) o que compunha o menu. Detalhe: com mímica. Nenhuma das minhas 3 palavras era sobre comida, e aí lá ficou ela apontando pras tripa porque tinha um prato não-sei-do-quê, depois pras folhagens pra falar da salada, pra língua (acho que tinha língua de boi) - o que, claro, não ajudou nada. Só faltava essa: depois de tudo, ainda pagar mico pros franceses do restaurante - meio chineloso ainda por cima - que por essa altura deviam estar pensando: "mas daonde vieram esses cuéra?" ou algo assim.

Claro que a mi(mi)cagem da mulher não adiantou muito. O fato é que a comida francesa é muito diferente da nossa, eles comem cada coisa que ... nós, num primeiro momento, nem achamos que eram coisas de comer! Bom, basta dizer que eles usam o lençól na parede e nós na cama, hehehe - mas, falando sério, não entendemos nada até que veio o cara simpático-trator nos ajudar. Ele foi logo perguntando de onde a gente era e, quando respondemos, meio tímidos, já rastejantes com a situação - Brasil - ele deu-lhe um grito: "Hà! Brasil! Copacabana! Futebol! Pelé! Caipirinha! Muito obrigado!" - tudo em português, e seguiu, em inglês, explicando que já tinha visitado o "Rhio de janheirho" (como eles dizem), que gostava muito do Brasil, etc etc etc



Esse calor humano destoou de nossos últimos três meses porque, aqui em Dublin, o pessoal opera meio que em outra frequência; eles vão mais do estilo grã-bretão de ser (quando são educados) ao estilo porra-loca (em todos os outros casos), as vezes com pitadas de esquizofrenia mais ou menos pronunciada, mas sempre, nisso tudo, com um algo mais frio. Eles não riem, ou, quando o fazem, é com um toque de malícia, ou um toque de loucura esquizo - mas nunca com calor, como a gente está acostumado no Brasil. Aquela coisa mais africana, ou italiana, ou espanhola, os ingleses e os Irish não têm, e eu não tinha percebido isso até me deparar com esse francês maluco e sua alegria "latina".

Pois então, com a ajuda de nosso francês maluco escolhemos o cardápio. Ele não permitiu que eu comesse salada, afinal "eu estava na França!" - e com isso ele quis dizer, acho eu, que os franceses têm a melhor carne do mundo, como, aliás, os Uruguaios, os Argentinos, os Espanhóis e - os gaúchos, claro. Não sei bem porque, mas todo mundo acha que tem a melhor carne nesse mundo... Bom, sei é que comemos até bem, eu, uma salada mista (com um molho bem especial, diferente), um patê (eles adoram essa coisa do patê; é uma coisa tão estranha que vale a pena conhecer - é tipo uma "fatia" de um patê meio que pendendo pra gelatina) e o mais decepcionante, a carne, que veio num espetinho-de-gato. Mas, para ser justo, tava bem saborosa a carne, o molho também muito especial, e essa foi, de longe, nossa melhor refeição nessa rápida passada por Paris.
Tomamos também uma taça de vinho da casa e estava muito bom. Nessa brincadeira gastamos 34 euros (uns 85 reaus...) e voltamos pro nosso hotel já com melhor disposição.

* * *

O que não faz uma boa refeição? Nosso espírito mais tranquilo não conseguiu remover os lençóis da parede mas, ao menos nos ajudou a perceber que o quarto até que era bom. Tinhamos decidido olhar o quarto e depois correr, se fosse o caso, mas não, o quarto era bem razoável, cama boa, lençois limpos - brancos - aquecimento, banheira, tudo simples, mas palatável. E os lençóis estavam NA cama, o que foi uma surpresa, visto a decoração da recepção, mas... ficamos no hotel e, pra nossa alegria - felizes.
Quando saímos já era perto das 3 horas da tarde, e finalmente pudemos dar nosso primeiro passeio, caminhando romanticamente por Paris como dois aventureiros que finalmente encontram sua paz -


(continua na próxima parte)


Paris, cidade luz - parte 1



Agora sim - bem sentado em frente à janela, com uma boa vista, o sol nascendo, um quarto quieto e aconchegante (é que nos mudamos faz pouco; logo quero escrever um post sobre isso) - agora sim, posso tentar escrever um pouco.
Escrever sobre Paris não é fácil: é preciso estar suficientemente alegre para conectar o tempo presente com o encantamento da visita. Dizem que Beethoven queria escrever a 9ª sinfonia a muito tempo e não conseguia, porque, segundo ele, "não estava alegre o suficiente" para isso. Até que um dia, lendo a "Ode à Alegria", de Shiller, ele viu que a alegria havia chegado e se atracou a escrever essa que, hoje, é uma das músicas mais famosas do mundo. (Pots, preciso ler esse cabra um dia!)

* * * * *

Paris foi nossa primeira viagem na Europa (depois de Dublin, claro). Pra completar, enquanto Dublin é uma cidade relativamente pequena, em que pode-se fazer tudo no centro, sem andar demais, Paris é uma cidade grande, as coisas são mais longes e, portanto, tudo fica um pouco mais difícil para o viajante desavisado.
Então, primeira coisa, tratamos de nos informar sobre a cidade: onde ir, como chegar, localização, preço... foram dias e dias de prerrogativas para, no fim, meras 36hs na capital francesa. Mas, fazer o quê né? Mesmo assim valeu a pena!
Porque tão pouco tempo? Pois é, essa não foi a nossa melhor escolha. Tínhamos a questão do trabalho da Lisa, que ela não podia faltar muito, o custo do retorno (mais caro nos fins de semana mesmo na Ryannair)... no fim concordamos que saiu "mais caro" passar tão rapidamente pela cidade do que aproveitar o fato de que, já que estamos ali, vamos fazer valer esse deslocamento.
Experiência é sempre o "bônus" pra próxima viagem.

Pois é, então dá-lhe procurar voos baratos pela Ryannair. Sempre nos falaram de voos por 5, 6 euros, as vezes centavos de euro, mas, claro, isso - se existe - não é o dia-a-dia da empresa. São promoções relâmpago que você tem que estar muito atento para encontrar, e também com uma boa disposição de tempo e dinheiro. Se sai para amanhã um voo para Berlim por 2 euros, não basta ter os 2 euros para viajar, mas preciso poder faltar o emprego amanhã, não ter nenhum compromisso sério, saber mais ou menos o que vou visitar, como chegar nos lugares, onde vou ficar... No nosso caso, encontramos voos por cerca de 30 euros (mais 30 no retorno), o que, com taxas, deu cerca de 140 euros, ida e volta, para os dois.
Nosso vôo saía de Dublin as 06:20hs da manhã... pois é, não basta ter que acordar as 5hs todo dia, em função do emprego da Lisa, ainda teríamos que acordar as 4hs para poder chegar a tempo de fazer o chek-in, conformar onde pegar o voo, etc... combinamos então com nosso "personal taxizêitor" para nos levar até o aeroporto as 4 e pouco da matina - um brasileiro que, como muitos outros, trabalha nos táxis daqui, de propriedade dos Irishs, of course. Enfim, depois de levarmos a facada habitual de 18 euros pela corrida (uns 50 reais), chegamos no aeroporto com tempo de sobra para fazer tudo o que precisávamos.

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Falando um pouco sobre a Ryannair, posso dizer com tranquilidade que nosso voo foi "suficientemente" satisfatório. Fora o fato de que eles não marcam lugares no avião (aliás, marcam, mas cobram uns extras pra isso...), e que também não é permitido levar malas extras, além da mala de mão (ou melhor, é permitido, mas também com uma salgada taxa extra), o voo é supernormal, como qualquer outro. O avião deles, aliás, é tal e qual qualquer um desses aviões comuns que a gente pega no Brasil por exemplo, tipo GOL ou Webjet- Claro, sem serviço de bordo.
o voo é bem rápido, coisa de uma hora e meia. "Estacionamos" no aeroporto de Beauvais, a uma hora e pouco do centro de Paris - sim, pois outra questã da Ryannair é que os voos geralmente saem e chegam em aeroportos menores, secundários - e aí era hora de pegar um bus para então chegar no centro.

* * *

Ainda dentro das preliminares à viagem, fizemos a reserva do hotel pelo Hostelbookers. Como sempre (pobre é bucha!) procuramos pelo mais barato, e encontramos um que sairia por 130 euros as duas noites (o casal). E não é que, procurando referência uns dias depois, encontro um cuéra falando que " ... não indico o bairro 19 porque é onde as gangues e a malandragi se pegam no pau - mas é difícil encontrar um brasileiro nesse bairro, etc, etc". Tá, ele não falou bem assim, craro, mas o bairro 19 era bem onde a gente ia ficar!!! Cancelamos a reserva e conseguimos encontrar outro até mais barato. Ufa! Ficadica: o centro de Paris é dividido em bairros numerados, a partir do 1 (bem central) até o 20 e poucos, já no limite com a "piriferias, mâno"; as atrações ficam, na maioria, entre o 1 e o 6, logo, é legal pegar um hotel nas imediações.



Trocamos então de hotel, e esse novo era tão furreca que deu uns 110 euros por DUAS noites, o casal. Já já conto com mais detalhes... mas não sem antes contar que, pra confirmar a reserva online - imagina os dois se preparando pra viajar, gastando tempo, grana e espírito pra conhecer a capitar cultural do mundo e, quando chegam lá, cadê-lhe o hotel? melhor confirmar! - arresolvi ligar pra frança (daqui não é caro) e, claro, falar em francêis com a muié da hospedagi. Ôigalê-te galo véio! Claro que tinha feito uma "colinha" no google tradutor... e mesmo assim me embananei todo na hora de perguntar se havia limite de horário pra chegar, huehuehue... eu não sabia como dizer "horas" em francês... é fogo. Mas deu, consegui entendê-la, e ela à mim (acho eu!) e peloaomenos consegui confirmar a vaga no estabelecimento.

* * *

Chegamos então, finalmente, à Paris. Como eu ia dizendo, tivemos que pegar um ônibus de chegada, para ir do aeroporto até o centro. Não sei se essa foi a melhor opção. Parece que existe linha de ônibus ou metrô de Paris mesmo que chega até Beauveais, mas não encontramos. A solução, claaaaaro, foi despencar mais trintinha para chegar ao centro (uns 80 reais o casal). Vá somando, meu filho, vá somando...

Então tá! Pegamos o maldito ônibus e fomos indo, eu já loco de faceiro, querendo ver alguma coisa fantástica, completamente absurda e fora do comum e... - que nada, tudo igual, asfalto, avenidas, um monte de carro e motoristas com cara de bunda, como em qualquer lugar do mundo. A única diferença é que ali eles deviam falar francês - na verdade não sei, porque no meu lado do ônibus sentou um Irish-com-cara-de-bunda, na nossa frente tinha um bando de italianos fazendo baderna e, no fundão do bus, o tradicional grupinho de brasileiros falando alto. Eita nóis, esse mundo globalizado é tudo igual, sô!...

Até que - finalmente!! - fomos chegando, chegando, chegando... as avenidas foram ficando mais bonitas, árvores pra todo lado, e a cena, que até aqui podia ser de um filme no interior de sapiranga ou num vilarejo qualquer dos Estados Unidos começou finalmente a se transformar na cena de um filme francês. Passamos pelos típicos cafés, os restaurantezinhos, as lojas, vimos as pessoas caminhando com suas roupas estilosas, os cachorros estilosos - e aquela inveja... "há, porque eu não moro na frança?", eu suspirava... já tava com inveja até do cachorro naquelas alturas... e a procissão continuava, cafés, bares, lojas - deve ter algum abatimento no imposto do café em Paris, porque nunca vi tanto café junto - as árvores estilizadas, ladeando as ruas, formando passarelas, e eu só pensando "porque não tem isso em Santa Maria?", "porque não tem cafés em Santa Maria?", "porque não fazem uma passarela assim em Santa Maria?" - etc, etc, etc, e MAIS etc. Mas, enfim, CHEGAMOS!

* * *

O ônibus nos deixou numa pequena praça em PORTE MAILLOT (um bairro?), perto da estação de metrô de mesmo nome (linha 1). Eu continuava pensando: "porque não tem isso em Santa Maria?", "porque não tem metrô em Santa Maria", etc, etc, etc, e MAIS etc - quando - começou a chover. Suspirei, aliviado: "Haaaaa, isso TEM em Santa Maria"... e logo acrescentei um "droga!" - porque, afinal, se era pra ver chuva, podia ter ficado em Santa Maria. Pegamos nossa parca bagagem - duas mochilas - e corremos pro metrô, ou melhor, pra procurar o metrô, porque não sabíamos onde exatamente ficava o dito cujo. Antes ainda compramos nossa passagem de volta pro aeroporto de Beauvais, e aí, infelizmente, meu estrondoso conhecimento de francês - que, se fosse contabilizar, creio que montaria a umas... 3 palavras - se mostrou insuficiente, e tivemos que apelas pro inglês. (Tivemos não, a Lisa teve, porque eu, além das 3 palavras em francês, devo falar umas 2 em inglês, então - me restringi ao meu parco português memo).

Aliás, aproveito esse momento solene para mencionar que quase todos a quem nos dirigimos em Paris em inglês souberam nos responder em inglês, donde concluo que:
a) todo o resto do mundo é ignorante, menos os franceses;
b) o Brasil deveria adotar uma outra língua, como o inglês, o francês ou até mesmo o espanhol - isso facilitaria muito as viagens. E. por último
c) é mentira que os parisienses só falam francês (mas francês eles falam muito bem, é o caso de se dizer!)

Exageros à parte, o francês não nos fez falta no passeio; você, pobre não-francês como eu, pode se largar em Paris com sua língua não-francesa, que você provavelmente irá sobreviver. Claro, não ter o francês não quer dizer que você escapará de falar a língua do euro... mas isso são outros 500. Sim, 500 euros -



... Pegamos então o metrô, e, como isso TAMBÉM não tem em Santa Maria (...), ficamos lá os dois cagad** de medo porque, nunca se sabe né, "e se for o metrô errado", "e se a gente se perder", "e se nos sequestram" (? einh?), enfim, todos os medos infundados e delirantes que passam pela cabeça dos viajantes de primeira viagem. Mas acertamos - há, quase esqueci de contar a "saga" que foi, não tanto o andar de metrô, mas o COMPRAR o bilhete. Sim, porque isso "também não tem..." etc, etc, etc, e MAIS etc -

O tal do bilhete é vendido numa máquina tipo caixa eletrônico, e o dito caixa até tem a possibilidade de fazer a compra em outras línguas, mas a questão não era essa, e sim o "mouse" da dita cuja máquina: ele não funciona por toque (tipo celular), ele NÃO funciona por teclas (tipo caixa de banco) - ele funciona na base de um TRECO parecido com um rolo de macarrão que tu tem que girar pra cima e pra baixo até selecionar a opção que tu queres, e, então, clicar no "ok" ou no "Merci" ou no "clique aqui" ou no "Ici" ou no "**&¨#E*¨&¨&" - dependendo da linguagem que tu escolheu, claro. Enquanto tentávamos destrinchar o funcionamento dessa esquisitíssima máquina, a fila, claro, começou a aumentar, e a tensão a pressionar, até que um cara com cara de russo veio e começou a fazer a compra pra nós, tudo muito rápido, e nós resolvemos desistir e sair correndo - vá que fosse um mafioso?

Bom, não saímos correndo, mas fomos comprar os bilhetes no guichê, onde minhas 3 palavras em francês conseguiram dar conta do recado.
Feita a compra, em uma ou duas "baldeação" a gente chegou na estação final. Pertinho do hotel, foi só caminhar umas três quadras e estávamos prontos para nossa próxima surpresa...

(continua no próximo capítulo)


Nota rápida sobre - O FRIO!

O frio tá chegando!!!!!! Ô desgraça. No sul não sabemos o que é frio. Lá, no máximo, a gente chega naquele limite em que começaria a esfriar, do ponto de vista deles aqui... Coisa estranha, aqui parece mais frio de meio-dia!! Hoje mesmo fiz um teste completamente científico, acho que mereço até o Guinnes ou o Cannes ou outro prêmio qualquer pela minha genialidade (não, não é geniTalidade, você leu mal): hoje, como todos os dias desde algum tempo, saí com a Lisa para acompanhá-la até a estação do ônibus, as 5:20hs da manhã - sim, ela precisa pegar o ônibus cedo. Notei que nem estava tão frio. Pra mim é ótimo, já que aproveito essa caminhada com ela para fazer a minha caminhada matinal depois - isso é que é saúde! Caminhando as cinco da manhã, com o tempo beirando zero graus! Tá, mas até aí tudo bem, nada de novo. A questão é que o "calorzinho" da manhã me deixou encafifado - como assim? Lembrei das vezes em que precisava caminhar pra lá e pra cá, sempre perto do meio dia, e o frio é DE RACHAR! O vivente não consegue nem respirar direito, chega a doer o nariz de tão frio o vento daqui. Mas e então? Será que é mais frio de meio-dia ou eu é que sou impressionável? Como saber? Pois hoje tirei a prova. O Causo é que tive que sair as 5 da manhã, e depois perto das 11hs precisei sair de novo e fazer o mesmo trajeto. E o que foi que percebi, cara pálida? Que as 11hs, quase meio dia, quando saí, a água emmpoçada da chuva (que aqui chove sempre, pelo menos uma vez, pelo menos de noite) estava congelada! E eu tinha visto com esses olhos que a terra há de comer que, pela manhã, a água NÃO ESTTAVA congelada. Logo, ou algum maluco anda colocando gelo na calçada e em cima do nosso lixo, OU a água que estava ali congelou de meio dia. Detalhe é que agora - são quase 15hs aqui - a agua descogelou de novo... Pronto, podem entregar meu prêmio aqui na 229 south circular road, obrigado.


PS.: POST sobre Paris no forno...

Não tá morto quem peleia!!!

Então, o tempo foi passando e nada de atualizar o blog. Por um lado há sempre o que fazer quando se é um pobre diabo imigrante latino americano sem dinheiro no banco, etcetcetc, por outro lado chega de desculpas e vamos pra substância do post.
A idéia é solamente atualizar um pouco o que viemos fazendo nesses últimos dias, o que serve de notícia e servirá de recuerdos - na volta.
Estamos nos mudando de apartamento. Este em que estamos é bom, e foi com certeza o melhor que encontramos nas nossas virginais andanças (??) dos primeiros dias nessas terras "treventas" (do verbo "cheias de trevo"), maaaaaaassss... ele era um pouco afastado dos nossos interesses (não, não estou falando do bar...!), sem contar que estava um pouco acima de nossas posses, e... com o tempo, e os miúdos problemas do dia a dia (a internet que cai, a porta do banheiro que perde um pino, o cheiro estranho que não sai nem com reza braba - conste dos autos que tentamos limpar também, além de rezar...) tudo isso foi se somando até chegar no resultado insofismável de que "quem sabe a gente se muda daqui, einh?".

Então um dos motivos para não estar escrevendo é que eu estava na busca por algum outro apê que valesse a pena. No fim das contas encontramos outras boas ofertas, e acabamos fechando mesmo com o studio dos nossos amigos "os gaúcho", como dizia a Nathalie, também conhecidos por Mateus e Vanessa, e estamos nos mudando pra lá dia 01 de dezembro. Com isso ganhamos uns euros na diferença do aluguél, e um aquecedor incluído, o que muito me interessa. Teremos também secadora de roupas, o que vai facilitar muito a vida DA LISA (digo, a nossa vida, hehuehuehue).

Outra boa nova é que estamos nos propramando pra nossa primeira visita à Paris - chique do úrtimo. Tudo começou em função das passagens de avião para voltar ao Brasil. O fato é que compramos a vinda já com a volta inclusa, porque é mais barato, claro, mas no fim, o mais barato, pra variar, se mostrou bem caro. Como nossa volta (incluída) seria pro dia 27.nov.2011, teríamos que trocar a data da volta. Até aí tudo bem, já sabíamos disso quando compramos. O que não sabíamos é que teríamos que pagar 320 euros por pessoa para fazer essa troca... Diga-se de passagem, no Brasil, quando compramos o pacote, nos informaram que a mudança seria em torno de 200 reais (ou dólares, não lembro; uma dessas "Moedinhas americanas" não européias aí p ); mas pô: 320 euros dá uns 800 reais, vai se f**ê mâno! E pros dois daria uns 1600 reais!

Num primeiro momento, pensamos então em aproveitar esse vôo já comprado, que ia passar por Paris, e descer na capital francesa, ficar uns dias por alí e voltar para Dublin. Assim, pelo menos não perderíamos todo o dinheiro da passagem. Na hora de voltar ao Brasil compraríamos outro vôo ou veríamos a possibilidade de voltar de barco. Sim, porque de barco talvez fosse mais barato, e com certeza seria menos sacrificante para minhas costas.

Mas eis que, os dias foram passando e a situação não se encaixava nos nossos planos, vejam só, quem diria... SE fossemos voltar de navio, teríamos que ficar até novembro do ano que vem, porque é só a partir desse período que começam os cruzeiros para o Brasil. Ocorre que não dispomos de todo esse tempo, já porque a Lisa tem visto de um ano, para estudante, já porque eu estou de licença no meu trabalho no Brasil até agosto do ano que vem. Por outro lado, pesquisando as passagens de volta daqui para o Brasil, vi que elas de fato são mais caras ainda do que a taxa de "ajuste" que nos estavam cobrando: sairia uns mil euros só a volta, por pessoa, sendo que isso é mais ou menos o que pagamos pelo pacote de ida e volta, quando viemos pra cá.

No fim das contas, preferimos pagar a estuprante taxa, pensando que assim, pelo menos, as outras opções ainda seriam possíveis. Na hora de voltar, se mudarmos os planos e quizermos ficar mais um pouco, ou deixar pra voltar de cruzeiro, é só fazer o mesmo esquema: voltamos com o avião até Paris, aproveitamos a viagem, depois voltamos pra cá e tocamos nosso barco.

Que mais? Nesse meio tempo tenho me aventurado um pouco solito por essas terras gringas, e, mais ou menos como o faria uma criança analfabeta, com sérios déficits cognitivos e manca ainda por cima, tenho tentado falar um pouco com os irish, sempre me metendo nas situações mais constrangedoras e idiotas possíveis, mas, fazer o quê, é assim que se aprende. Outro dia por exemplo, estava numa fila e a atendente ia chamando as pessoas. Cansei de esperar e fui caminhar um pouco lá fora, e, na volta, arrisquei uma frase em inglês, querendo dizer mais ou menos algo como: "eu acho que eu ouvi o meu nome?". Como a flexão verbal é tão ou mais difícil que a flexão "barrigal", ao menos pra mim, nesses juvenis engasgos de aprendizagem do inglẽs, deixei de lado a flexão e taquei-lhe um "I think I LEARN my name?". Só que, pior do que a flexão, acabei trocando os verbos! "Learn" é "aprender", e eu queria falar "licent", ou seja, "escutar". Ai ai... fico só imaginando a cena, a atendente olhando com cara de taxo pra um bagoal barbado que chega todo campante pra dizer, totalmente fora do tempo, algo como "eu acho que eu APRENDER meu nome"...

Bem feito, quem mandou não estudar??

Algo sobre a Irlanda e os Irlandeses

Estava eu aqui a olhar algumas fotos quando me dei por conta que ainda não falamos nada mais específico e detalhado sobre os irlandeses. Com este post pretendo então começar a sanar essa lacuna. Não do ponto de vista do entendido, claro, mas do ponto de vista da nossa experiência.
Os irlandeses... nunca tinha pensado muita coisa a respeito deles antes de vir pra cá. Conhecia alguns escritores (James Joyce, Oscar Wilde), a banda U2, e alguma coisa meio vaga sobre duendes e trevos. Bom, a verdade é que eu não estava tão errado, huehuehue
os escritores: eles se consideram um povo de escritores. Isso pra nós ainda não fez diferença nenhuma, até porque eu ainda não me aventuro nas leituras em inglês. O que, atrelado a isso, pude notar, é que há uma espécie de "nacionalismo" planando no ar em terras irishs. Eles parecem bastante ocupados em destacar o "verdadeiro" irish, e, nisso, o escritor é um dos temas que aparecem. Mas também a carne. Se quero dizer, por exemplo, que é uma boa carne, posso dizer: "legitimamente irish". O leite, as bebidas, os pratos típicos, tudo é assim. Isso dá a impressão de uma certa insegurança, que ainda não pudemos apreender de todo. Talvez seja em função da dependência histórica deles em relação à Inglaterra, talvez seja a crise, talvez seja eu, o turista ignorante, que fique inventando histórias.
Uma coisa que chamou a atenção foi o tipo físico deles. É bastante diferente do que a gente esperava. Eles são ... estranhos. Claro que nunca existe um tipo só, o mundo inteiro é uma mistureba braba, mas o que mais a gente vê na rua são os tipo que no Brasil a gente chamaria de "bicho de goiaba" ou algo assim: uns caras superbrancos, meio magrelos, com a pele sardenta e manchada, muuuuito cabelo ruivo, e as contrapartes femininas, umas meio magrelas, outras gordinhas, sardentas e ruivas. Some-se a isso os hábitos meio medievais deles (ao menos em termos de alimentação e higiene) e você terá um resultado mais ou menos assim:



Bom, estou exagerando, É CLARO!!. Mas a parte da higiene não é tão exagerada assim: DIZ-QUE eles tomam banho, em geral, uma vez por semana, e os dentistas por aqui o que mais fazem é arrancar dentes. Se pelo nível da profissão ou pelo estado dos dentes eu não sei, mas o fato é que também se encontra muita gente na rua com dentes ruins, feios, malcuidados. Sem esquecer que eles bebem muito, sendo a bebida uma espécie de epidemia por aqui.
Já que não estou sendo um visitante muito simpático, é bom falar também do outro lado, e das qualidades que pudemos perceber até aqui. Uma coisa que me surpreende bastante é a tolerância geral que eles parecem ter com os estrangeiros. Nesse ponto a Irlanda me surpreendeu, porque cresci ouvindo dizer que o Brasil era o país da miscigenação, que no Brasil existia muita mistura de raças, muitos povos diferentes... que nada, no Brasil é tudo muito igual, tirando meia dúzia de povos aqui e ali (Italianos, alemães, africanos, portugueses, etc), todos compartilhamos a mesma cultura (ou falta de), estamos todos na mesma esculhambação geral. Aqui em Dublin, ao contrário, quase dá pra dizer que o que menos se vê pelas ruas é Irlandês: a toda hora esbarramos em Chineses, coreanos, árabes, indianos, (brasileiros, of course), espanhóis, colombianos, polacos, russos, romenos, poloneses, etc, etc, etc, e todos, na medida do possível, mantendo suas diferenças, sem se misturar na indiferenciação ou padronização do "grupo dominante". Aqui mesmo perto de onde a gente mora tem uma mesquita, onde funciona o centro Israelense em Dublin, e o pessoal anda com suas roupas típicas, têm seus mercadinhos com sua comida típica, e por aí vai.
Existe, é claro, um contraponto a isso, e já escutamos histórias de pessoas (inclusive fiscais no aeroporto) tratando muito mal os estrangeiros. Nas ruas a gente vê de tudo, desde pessoas supereducadas até os "de mal com a vida" que resmungam a cada respiro, gente que nem nos olha, outros que são cordiais. Mas acho justo dizer que, no geral, o país recebe bem os estrangeiros, excetuando casos particulares.
Um assunto muito próximo a esse diz respeito ao valor que o estrangeiro assume aos olhos deles. Minha impressão como recém chegado é que o estrangeiro, ou ao menos o brasileiro, é visto por eles como alguém inferior. Como disse, eles toleram muito bem os estrangeiros no geral, e são quase sempre muito educados, mas isso não impede que nos julguem algo "abaixo" deles. Novamente não há como saber se isso tem raízes históricas, se tem relação com a crise atual, ou até se não é algo mais ou menos natural e esperado no ser humano, que afinal tem que lidar com "quebras narcísicas" a toda hora, e sempre com dificuldade. Aqui poderíamos estender esse assunto muito além, lembrando por exemplo dos imigrantes no Brasil (lembro dos italianos no sul, que conheço mais), quase sempre com uma ponta de orgulho rigidamente mantido, contra tudo e contra todos, em função de sua suposta origem.
Enfim, "dores e delícias de ser-se quem se é" - no caso, um ser humano.
Que mais? Gosto muito da maneira como o trânsito funciona aqui, lento e silencioso na medida do possível, e - é minha opinião, a Lisa já vê isso diferente - acho os Irish menos barulhentos, menos espalhafatosos, o que do meu ponto de vista é uma grande virtude.
Falei nos hábitos medievais deles e creio que isso merece uma complementação: como dizia o filósofo, "o inferno são os outros", e é sempre muito fácil criticar o diferente olhando a partir do próprio umbigo. Mas a "medievalidade" a que me referia tem a ver com o fato deles tomarem um café da manhã muuuuito pesado (ao menos comparado com o nosso, brasileiro), com carne de porco, ovo frito, feijão - e atenção: eles comem feijão DOCE... isto é, com molho de tomate e pouco sal, uma coisa beeemm estranha pra nós) e beberem muito. Muitos pubs aqui abrem as 9hs da manhã porque tem gente que já a essa hora está lá para o primeiro trago.
Bom, fico por aqui. No fundo no fundo a experiência está sendo ótima, exatamente pelas diferenças, e abarcando a questão de um ponto de vista mais amplo é exatamente isso que a gente buscava e que dá "tempero" à coisa. Esse cosmopolitismo de Dublin é algo invejável... maaas, that's all folks. See you next time.


Quem tá vivo...

Boenas! Continuando então com nossas indiada - digo, aventuras - pela Irlanda...
Não tenho escrito muito no blog. O principal motivo, acho eu, é uma certa.... tristeza. Hoje ainda pensei nisso, enquanto davamos um passeio, o qual quero aproveitar a "verve" pra contar com mais detalhes.
Hoje resolvemos conhecer MALAHIDE, uma parte da cidade de Dublin (ou é outra cidade?? < -- bota informado nilso...) onde fica um castelo famoso, e uma praia também. Diz-que até o BONO (do U2) tem uma casa alí... (Ha, o Bono é Irish, pra quem não sabe).
PUES, faz horas que a gente queria conhecer ali, então, como hoje o dia amanheceu bonito, nos arrumamos e botamo os pé na estrada.
Esse castelo de Malahide é famoso. Procurando na internet descobri que ele pertencia a uma família local desde... 1100 e poucos. Puts gril, é phoda, ver que qualquer castelo por aqui tem o dobro da idade do Brasil. Mas nós chegamos lá (??? ou nãoo... hein???)
Imagina a cena, a tal da família se desfez do castelo em 1975 somente... devia ter um leito de quadro do peenta-exa-tetra-bi-quatrilavô em cima da lareira, essas coisas...
Mas antes de chegar no castelo, tivemos muita emoção mesmo é na hora de pegar o DART. O Dart é tipo um metrozinho daqui; a cidade é pequena na verdade, o país é pequeno, na verdade, mas eles tem muito recurso; muito onibus, muito trem e metrô pra todo lado. E bicicleta. Hoje também meio que estreiamos o serviço "Dublinbike", que é bem legal também. Tu paga 10 euros POR ANO e pode andar de bicicleta pra todo lado. Meia hora é di gratis (incluido nos 10 pila); se passar de meia hora paga centavos. Maaaas, é só devolver a bicicleta, esperar 5 minutos, e pegar de novo, e já está correndo nova meia hora, di gratis de novo. Tem mais de 40 pontos aqui no centro da cidade, e tu pode pegar em qualquer ponto e deixar em qualquer outro. As ruas tem corredores específicos pra bike, e existe até uma sinaleira pra bicicleta. Muito legal. Pros pobre que nem nós é uma mão na roda (olha o trocadiL), e pra completar as bici são bem boa até, com luzinha, protetor de correia (não suja as calça - hein???), marchas "automáticas"... bem legal mesmo. Pra finalizar, a cidade é plana...
O caminho que fizemos acompanha um riozinho que tem aqui perto de casa. Andando de bike por ali me senti meio que numa cena de filme: o riozinho, as árvores estilo "folha de outono", o trânsito tranquilo, a cidade organizada, bonita... isso aliás chama a atenção aqui, na maior parte da cidade (ou da cidade que conhecemos): é tudo bonito, o conjunto é bonito. Não é "aquele" prédio que é bonito, não é essa rua X do centro, mas tudo. Claro, tem os problemas, as pixações, o lixo, mas no geral o conjunto parece mais "ajeitado" na comparação com o Brasil. No Brasil estamos acostumados com uma divisão dura entre classes; tu logo vê quando o sujeito tem grana, pelo carro, pela casa, pelas roupas. Aqui o povo vive, de certa forma, um pouco mais "comunista". Não porque tudo seja igual, mas o básico é muito acessível, qualquer um pode ter. E no básico tou incluindo também o carro, uma roupa nova, sair pra jantar. Coisas que no Brasil já supõe um certo elitismo e que aqui qualquer um consegue, desde que trabalhe, claro.
Outra maneira de tentar expressar isso, que me ocorre agora: a gente vê as novelas do Brasil e as vezes nem percebe, porque obviamente é ficção - mas sempre tem os "núcleos" da novela - a família rica, com seu apartamentão, sempre bem vestida, carrão, etc, a família pobre, casa simples, roupa esculhambada... claro que existe na realidade quem tenha casão como esses de novela, mas são com certeza uma minoria. A novela não poderia não poderia mostrar só essas casas ricas sem ser um pouco parcial. Aqui, uma coisa que salta aos olhos é que os filmes "não mentem", isto é, quando aparecem as cenas da cidade, tudo bem arrumado, pessoas bem vestidas, etc, não é "cena". É assim mesmo, não é uma cidade cenográfica que aparece nos filmes, as cidades são assim mesmo, bonitas.
Pronto, falei. Esse é meio que o motivo da minha tristeza ultimamente: perceber que isso que eles tem aqui, essa distribuição de renda, esse capitalismo que deu certo (ou comunismo) ou sei lá como se chama isso, esse acesso facilitado à muitas coisas, que no Brasil parece que temos que sempre suar a camiseta pra conquistar, isso que, repito, não é exclusividade de uma elite, mas que a grande maioria das pessoas tem, e a impressão que dá é que, pra eles, isso é muito "natural", pois bem, essa "classe média" confortável, nós ainda vamos levar muito tempo para alcançar no Brasil. Não que eu seja um fã de classe média, deusolivre!, mas é que, se eu tivesse que apontar uma coisa que diferencia na realidade o terceiro mundo do primeiro, talvez eu apontasse isso: eles são um melhor "mercado". Todo mundo aqui é PELO MENOS classe média. Isso permite que as empresas disputem por estar aqui, que os melhores celulares estejam aqui, os melhores chocolates, os melhores vinhos, etc, e isso não precisa ser caro, porque existe um enorme mercado interessado nisso, não por esnobismo, mas simplesmente porque... é bom! E é barato! É fácil!... Então uma coisa puxa a outra, o mercado gira, e o resultado final é uma espécie de qualidade de vida que, para nós, talvez seja ainda bastante difícil. Não porque o fulaninho, singular, único, não consiga ter um baita salário com sem emprego no Brasil, mas porque nós não temos CONTEXTO. Pra cada um que é rico no Brasil, tem trocentos outros que são pobres, ou mais pobres. E porque uma empresa de celular vai querer se instalar ali se vai vender só pra esse cara rico? E isso vale pros carros, vale pro conteúdo da TV, vale pra tudo. Não é (só) a educação que nos diferencia, mas num primeiro momento esse nível básico, primário mesmo. Daí a minha tristeza. Não que eu não viva bem (materialmente) no Brasil, mas viveria melhor com uma sociedade mais rica. A riqueza dos outros "enriquece" a minha riqueza, por assim dizer. Mas bom, vamos adiante.
Após essa pausa para "os comerciais", vou retomar o fio da meada lembrando do fiasco que foi nós dois, baita dupla de iNgnorante, tentando comprar o "ingresso" do metrô daqui de Dublin (o Dart). Que nada! Ficamos meia hora na frente da maquininha (porque é tudo eletrônico) e só passamos vergonha... até que perguntamos pruma japinha que tava passando ali "como é que se fazia pra entrar nesse maldito metrô, pelamordeDeus!", e ela nos mostrou que era só... entrar. A gente já tinha um cartão de estudante daqui que pode ser carregado (que nem celular pré-pago), dai era só passar o dito cujo na maquina e seguir viagem. Fiasco.
Na verdade, pra além de grossura mesmo, foi também uma questão cultural, porque na verdade, tinha duas "cancelas" pra entrar (que se abriam com o tal do cartão) e uma terceira cancela ABERTA! Como assim Bial? Pois é, peloqueentendi, é só passar por ali e fazer cara de quem já pagou que tá tudo bem. É uma moda deles aqui, tu não precisa comprar a passagem pra entrar nas coisas (no Luas - outro metrô - é assim tambéem): tu compra a passagem porque tu é um cidadão de bem - e também pra evitar que um fiscal dê uma fiscalizada bem na hora que tu tá andando de trem e veja que tu não pagou o treco... daí a multa é salgada, mas na maioria das vezes não tem fiscal nenhum então, a rigor, tu não precisa pagar nada!
Bom, mas nós pagamos. Demoramos pra pagar mas pagamos!
(Ha, antes que eu me esqueça: hoje na pedalada também conhecemos o prédio do Google aqui na Irlanda, que fica bem perto da estação onde pegamos o Dart)
Dai, cancela vencida, fomos adiante. No fim, nem valeu muito a pena, o castelo tava fechado, o tempo emburrou, e a praia não tinha nada demais. Valeu mesmo pela emoção (!) de andar de metrô, hehehe, e pelas descobertas.
Bom, o post tá ficando grande então vou ficando por aqui.
Bye...

Mais um dia, mais um post

Mais um dia, mais um post.

Fiquei uns dias sem postar. Um pouco porque nossa internet aqui no novo apê ainda não está a contento (espero que amanhã ou até o fim de semana esteja), mas também porque, com três semanas de europeíces, acabou um pouco o "frisssom". Aos poucos a empolgação vai passando e vamos percebendo que aqui como alhures, a vida humana é feita de falhas e tropeços, independente do "mundo" em que tropeçamos - primeiro ou terceiro não faz realmente diferença. Basicamente porque o mundo com o nos chocamos, bem, é essencialmente nosso mundo, nossa condição de humanos.

* * *

Mas, filosofias a parte, vamos as "histórias" dessa viagem. Agora estava relendo os posts antigos e me dei conta da velocidade supersônica com que passei pela fase da "casa nova"; nem comentei que, na noite em que chegamos, abri o charuto cubano que nos foi dado pelo Sandro, coloquei o quadro com a foto do casamento que a Liange nos deu, e inauguramos, com um vinhozito, claro, nossa primeira "aquisição " aqui por essas terras (me refiro a casa, viu... não ao vinho, huehuehue)


* * *

A comemoração foi boa, mas, além das rusgas com a galerinha do oriente médio, conforme comentário da Lisa no post anterior, tivemos também alguns outros pequenos inconvenientes. O mais importante, ao meu ver pelo menos, foi o cheiro de cigarro que tava encranhado nesse apto. Diz-que é meio proibido fumar nos studios daqui, ao menos segundo o nosso atual landlord, mas pelo jeito isso é lei nova. Quem já teve experiência parecida sabe que o cigarro gruda na parede, e basta ser um pouco sensível - ou chato mesmo, que deve ser o meu caso -, pra isso se tornar um verdadeiro problemão.
Mas bendita seja a internet. Buscando por alí descobri que vinagre branco é um santo remédio pra esses causos, então tenho me atracado, sempre que o tempo e a idade permitem, a passar o bendito vinagreixon na parede, e aos poucos estamos vencendo a desgraçada da NHACA.


* * *

Outro problema que tivemos foi com o vizinho de cima, um velho dilema de quem vivem em apartamentos. O caso é que os prédios aqui na Europa, conforme concluí após um exaustivo exame de DUAS amostras - o prédio dos nossos amigos Nathalie e Diego e a nossa presente habitação - são TODOS feitos com divisórias de madeira. As bases e as divisórias principais são "de material", como se diz, mas a maior parte das divisões é feita de madeira, inclusive, parece, a nossa divisão com o famigerado vizinho de cima.
Creio eu, baseado na também imensa experiência que tenho com construção civil - que me permite, entre outros, dicernir cimento de areia num relance (mas-há!) -, que isso deve ter a ver com a manutenção da temperatura interna, se não for pra baratear o custo final da construção, ou outra razão qualquer. (baita explicação...)
Mas o fato é que o vivente do andar de cima fazia tanto barulho que acreditamos piamente, Lisa e eu, que não era uma pessoa que estava alí, morando dignamente, mas uma construção, uma reforma, ou até uma construção, qualquer coisa, MENOS um sujeito simplesmente "morando". Morar não faz tanto barulho, isso é o que pensávemos. Qual não foi nossa surpresa quando descobrimos que o meliante não fazia reforma alguma, mas de fato estava ali simplesmente morando? 'Menasmal' que a vizinha do lado já havia registrado reclamação junto aos órgãos competentes, à qual juntamos nosso humilde pedido de "menas bagunça", e o causo foi, ao que parece, resolvido, não sem um singelo "puxão de oreia" por parte de nosso querido landlord com relação ao dito cujo malfeitor.
(nessas horas até o landlord vira 'querido'...)

* * *

Fora isso, estamos bem acomodados. O fato de morarmos um pouco longe do centro não chega a ser mortal, e tem até lados positivos, como os 'muque' que tou ganhando nessa caminhança doida (e as vezes também doída). Mas está nos nossos planos futuros a aquisição de uma bicicleta (também conhecida como "bike" ou "magrela"), o que virá certamente facilitar "um leito" nosso deandar pelo velho mundo. Com os novos "jobs" virão também, espero, maiores facilidades, como o aproveitamento do bus e do LUAS, o metrô daqui. Agora, então, é montar a casinha,comprar o mínimo necessário - o que inclui talheres, pratos, toalhas, roupa de cama, coisas pra lavar essa tralha toda -, além, é claro, da nossa adega, nosso caviar e, bom, outras necessidades básicas...

* * *

Como reflexão à margem, gostaria de deixar dito que, podendo, com certeza faria uma viagem dessas mais vezes. É difícil dizer o quanto desse "gostar de estar aqui" se refere ao simples fato de não estar mais trabalhando ( ! ), ou à novidade que nos cerca, as diferentes conquistas desse povo um tanto mais experiente na arte de viver (o que não sei se quer dizer muita coisa, tendo em vista que o que eles mais fazem é... beber!), ou, enfim, a algum NDA - Nenhuma Das Anteriores. Dizem que um intercâmbio muda a gente, e ouço muito o pessoal dizer que é pelo trabalho que se passa aqui, pela necessidade de "se virar" (????), etc, etc, etc. Da minha parte, bem pelo contrário, acho que o que muda é o que chamaria de a "experiência do sucesso", isto é, o fato de você chegar longe, chegar onde você queria estar, e ver que, bem, na realidade, nada mudou... Que a vida continua, do mesmo jeito, com as mesmas insuficiências e dificuldades que antes. Isso desmistifica ilusões, que é fácil manter, á distância, e nos faz atentar um pouco para o que chamei de "outro mundo", para aquilo que chamamos de "nós mesmos", para nossa condição de humanos, como ficou dito acima. Mas isso carregamos conosco em qualquer lugar.


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