O vizinho americano
Monday, May 13, 2013 7:51:18 AM
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Tinha sido uma luta encontrar nosso primeiro apartamento. Hoje, que já estamos em outro, melhor, a gente meio que esqueceu a tensão dos primeiros dias. É que essa tensão era justamente a expressão do fato de que não sabíamos o que iríamos encontrar, nem SE iríamos encontrar alguma coisa. Nós mal chegáramos em Dublin, depois de 4 meses de angústias e dúvidas sobre "vir ou não vir" - eis a questão... - , "quanta grana levar", "o que seria necessário" - documentação, etc -, "será que iria valer a pena ou não", "o que fazer com as coisas que ficariam no Brasil nesse meio tempo" - apartamento, carro, móveis, trabalho, clínica, amigos, parentes, vida - enfim, todo um rosário. Depois de carregar tudo isso como deu, resolvendo aos tropeços o que dava e o que não dava, na chegada, quando uma parte da gente imagina - não sei porque - que as coisas se resolveriam, e os problemas ficariam pra trás, outros problemas surgem, ou continuam, e o intercambista não tem descanso.
Aquilo que era teórico ou imaginário ganha forma e peso: "onde vamos ficar"? As questões financeiras também se agrandam, pois o dinheiro é curto e as demandas não cessam. Por fim a questão do inglês, mais as dúvidas que vinham nos assombrar de vez em quando, tudo contribuia pras 'tensões nossas de cada dia'. Assim, a situação concreta de encontrar um apê não era nem de longe tão simples quanto parece, ao somente escrever isso.
Outro problema era encontrar os lugares. Dublin tem um sistema de endereçamento meio... estranho. Aqui, as ruas mudam de nome a cada tanto - duas quadras, quatro quadras, e a mesma rua já é outra; a numeração muda também, e, se percebi bem, as vezes a contagem vai no sentido crescente numa direção, e dali a pouco, muda, e começa a diminuir! As vezes não se encontra nem nome de rua, porque o endereçamento é feito com base no prédio: os prédios tem nome "próprio", e assim, imagino eu, os nativos encontram um lugar as vezes pelo nome - do prédio - as vezes pelo nome - da rua, as vezes... pelo google. É que eles falam, além do inglês deles (se é que isso é inglês; quem já falou com um irish vai entender...), o gaélico, que é uma língua daqui, que as crianças ainda aprendem na escola, que só eles falam, e que o google, vai saber porquê, usa pra nomear as ruas de Dublin. Não é fácil...
Bem, tudo isso pra dizer que, pra quem mal chega, já com toda sua carga de dúvida, a procura não é fácil. Então peleamos, uma semana, duas, caminhando horas a fio pra encontrar os lugares, até que a demora vai sendo um novo peso, mais uma pressão, e a gente, que começa criterioso na busca, vai ficando mais permissivo, mais tolerante...
Bem, no fim, encontramos nosso apê. Já deu pra ver que ele não era tudo isso que a gente queria, mas... estavamos felizes de ter algum lugar pra ficar. Feita a mudança, e degustadas as benesses nos mínimos detalhes, começamos a perceber os problemas do lugar. Aos poucos. E contrariados, claro.
Já falei um pouco disso aqui (link). Uma coisa que não mencionei na época, até por não ser o pior dos problemas, era o vizinho de cima.
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Sim, porque nosso quarto era na parte térrea do prédio. Acima de nós não havia ninguém, e a casa parecia silenciosa. Lembro que quando fomos ver o apê, eu cheguei a notar o estilo da construção, que parecia a mais sólida; na hora de ver o lugar bateu um "clik" e pensei: "vou subir no andar de cima e fazer um barulho, pra ver se a Lisa ouve e se não vamos penar com a vizinhança". Mas que nada: andei uns passos na escada e percebi (ou pensei perceber) que o prédio era "mais que sólido", e então "bóra" alugar duma vez que atrás vem gente (sim, porque aqui os aluguéis não ficam esquentando cadeira, e se não se fecha na hora, se perde o lugar).
Hoje, lembrando disso, acho que fechamos aquele lugar muito em função da pressão, essas todas que falei um pouco acima. Enfim, instalados, e os problemas - e remorsos - começando a bater, eis que chegam uns americanos, um pai e um filho. Eles começam a mudança deles, e até aí tudo bem. Apesar do barulho. Que não parava. Que seguia por horas. Que era alto PACAS. Que... que saco! Já no primeiro dia deles eram duas da matina e os caras não paravam! Cheguei a pensar que eram os pedreiros do Landlord que estavam fazendo reforma no andar de cima, porque o prédio estava em obras mesmo...
Àquela altura da madrugada não tive dúvidas: saquei de uma vassoura e dei-lhe umas vassouradas no teto. O resultado foi fulminante: logo o barulho parou e pudemos dormir o sono dos justos (sim, porque além de tudo a cama era justa demais, e eu não podia nem espichar as pernas direito...).
Logo, isso meio que se tornou uma rotina, e volta e meia eu acabava pegando na vassoura e dando-lhe umas pancadas no teto, pra ver se o vizinho se acalmava. É que o índio não parava quieto, parecia que ficava o dia inteiro em função, arrastando as coisas daqui pra lá, de lá pra cá, e eu penando. No esforço de aprender inglês, passando frio naquela casa gelada onde nunca batia sol, lembrando dos gastos que íamos ter numa casa bastante mais cara do que queríamos, a vassoura acabou servindo de válvula de escape, e eu batia no teto como quem pede ajuda aos poderes divinos para que se resolva a situação. (Drama, modo on)
Até um dia em que a gente estava vendo um filme, bem deitados - ou antes, mal deitados, porque a cama era justa... - e o cara dê-lhe fazer barulho lá em cima. Esperei um pouco e, vendo que a situação não melhorava, taquei-lhe a vassourada no teto. Ele parou, mas dali a poucos minutos desceu e veio falar com a gente.
- "Será que eu posso passar o aspirador na minha casa?", perguntou ele, num inglês que eu ainda não entendia. Lisa, com um inglês bem melhor que o meu, disse que sim, e voltamos ao nosso filme meio culpados.
Resolvemos subir, então, e pedir desculpas ao americano, que, afinal, só estava querendo ter um quarto um pouco mais limpo, como, aliás, era também o nosso caso, pois os primeiros dias foram gastos em função da faxina no nosso flat (o que, pelo visto, não é nem de longe a regra por essas terras).
Enrolei um inglês para me desculpar com o vizinho, mais atrapalhado que gato em dia de faxina, como se diz lá no sul, já pela situação, já pela ignorância da língua. E sei que, no fim das contas, isso acabou nos ajudando a sair dali, pois os problemas se acumulavam e não podiam ser resolvidos a vassouradas.
Hoje, que moramos no último andar de outro prédio, procuro ser bem cuidadoso nas pisadas, pra não fazer muito barulho...
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E assim íamos nós, naqueles primeiros dias de exploração. Como dizia o Jayme Caetano Braum:
"E a coisa ia indo assim,
Balanceei a situação,
- Já quase sem munição,
e Todos atirando em mim..."
Mais ou menos assim se sente o intercambista nos seus primeiros dias: entre os enlevos de descobertas e encontros, como num bom baile, mas também lidando com tiroteios que vêm de todos os lados, da língua, dos medos, dos custos, do ser estrangeiro.










); mas pô: 320 euros dá uns 800 reais, vai se f**ê mâno! E pros dois daria uns 1600 reais! 













