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Pátria amada Brasil

É muito fácil querer passar credibilidade a um texto atribuindo-lhe a autoria de alguém importante. Albert Einstein que o diga. Esses dias apareceu no facebook, compartilhado por alguns amigos meus, um texto um tanto quanto antigo, desses que os nossos tios e tias nos mandam por e-mail assim que são incluídos digitalmente e acham tudo novidade, tudo muito bonito. Pois bem, o texto enaltecia o Brasil, perante o nosso costume de sempre reclamar e criticar o país, e dizer que tudo lá fora é melhor.

O texto a que me refiro pode ser encontrado aqui. Espalhado de forma viral, o texto supostamente é de autoria de "uma escritora Holandesa". Seu nome sequer é citado, mas ninguém se importa com isso. Para o mim o texto já perde a credibilidade a partir desse momento, mas sigamos em frente.

Segundo a escritora holandesa (ou segundo o autor desse texto?), nos Estados Unidos e na Europa ninguém tem o hábito de enrolar o sanduíche em um guardanapo ou de lavar as mãos antes de comer. Ora, maravilha! Todos os problemas do Brasil me parecem tão insignificantes agora. Temos uma das piores distribuições de renda do mundo, mas o que há? Somos limpinhos. Saneamento básico? Estamos atrás da Jamaica, mas isso também é besteira. Afinal, em Londres vendem batatas fritas enroladas em folhas de jornal. Pegam o dinheiro com a mesma mão com que pegam os pães, e sem luvas, algo inexistente no Brasil. Os nossos garçons são muito mais educados que os de Paris, agora sim o país avança.

Em seguida vem um comentário sobre as grandes potências quererem DESTRUIR outros povos colocando a imagem de sua bandeira nos momentos mais emotivos dos filmes, dessa forma impondo suas crenças e culturas. Essa eu prefiro nem comentar.

Agora, estejamos atentos: estamos sendo vítimas de crimes contra a pátria, crenças, cultura, língua etc por parte das empresas de software ao chamarem nosso idioma de português brasileiro. E eu aqui achando que elas só queriam adequar melhor os seus produtos e serviços atentando às diferenças entre o nosso português e o de Portugal.

O texto cita dados da Anthropos Consulting: o Brasil é o único país do hemisfério Sul a participar do projeto Genoma. Bem, a informação talvez fosse correta quando escreveram esse texto e nem todos os países atuais já estivessem participando, mas África do Sul e até Angola participam. Talvez quisessem dizer que o Brasil é o único participante da América do Sul. Mas tudo bem que são 16 países apenas, de qualquer maneira é bom ser um dos participantes, então não vou reclamar deste ponto.

No Brasil, segundo o autor do texto, segundo a escritora holandesa e segundo a Anthropos Consulting, 97,3% das crianças e adolescentes entre 7 e 14 anos frequentam a escola. De fato muito boa a nossa educação básica, nem precisamos mais de investimentos. 10% da população analfabeta, por exemplo, é um número bem pequeno. O Brasil ter ficado em 53º (dentre 65 países) na avaliação do PISA de 2009 (o último realizado) é uma ótima classificação.

Devemos nos orgulhar, pois somos um dos maiores mercados de linhas de telefonia celular e fixa. Somos um povo solidário, hospitaleiro, que se esforça pra falar a língua dos turistas, e isso vai nos transformar em uma grande potência mundial. Vamos nos orgulhar, pois o Congresso está punindo os políticos de má conduta. Corrupção no Brasil? Praticamente erradicada. José Sarney é conhecido apenas por ser um escritor e Paulo Maluf apenas como engenheiro.

Estou tão contente em saber dessas qualidades do nosso país que acordarei amanhã cedo sem o mau humor costumeiro, abrirei a janela do meu quarto sorridente e gritarei BRASIL, com os braços abertos.

PS: Só para constar, duvido muito que sejam verdades as partes de não enrolar sanduíche no papel, não lavar as mãos, as batatas no jornal, e gente fumando até no elevador.

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Rafael Marcondes

A fé

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Há um tempo já que eu queria começar a escrever textos, expondo algumas idéias minhas. Essa vontade foi maior principalmente durante as semanas que eu estava sem computador, justamente quando ficou inviável. Agora que estou com ele funcionando de volta, resolvi aproveitar o feriado e começar a compartilhar essas idéias com os amigos e quem quer que tenha interesse.

Motivado pelo belo feriado de Dia das Crianças Nossa Senhora de Aparecida, achei um momento oportuno para falar sobre a fé.

Todos dirão que a fé, no contexto das religiões, é o ato de acreditar em coisas cuja comprovação definitiva não é possível, seja por meio da ciência e da razão, ou por qualquer outro meio. A fé é requisito indispensável para se acreditar em um deus, seguindo ou não uma religião, pois a existência de um ou mais deuses não pode e jamais poderá ser comprovada pela ciência. Não pelo fato da ciência ser limitada, mas por deus não ser objeto da ciência. Não é o tipo de coisa com o que a ciência se preocupa.

Mas mais do que isso, alguns dirão que a fé é uma virtude. E enchem a boca para dizer, acham bonito. Inclusive, a fé é ensinada no Catolicismo como uma das Virtudes Teologais - virtudes que "nos fazem agir bem em relação a Deus". De fato, concordo que a fé é necessária para se agir bem do ponto de vista da obediência ao deus cristão. O meu problema é com essa palavra "virtude"...

virtude
(latim virtus, -utis)
s. f.
1. Disposição constante do espírito que nos induz a exercer o bem e evitar o mal.
2. O conjunto de todas ou qualquer das boas qualidades morais.


A pessoa ter fé em um deus, aceitá-lo como verdade absoluta, e praticar as coisas boas que esse deus supostamente prega, ok. Mas a virtude aí não está na fé, que é a simples crença sem necessidade de provas, e sim na moralidade dessas práticas pregadas. Com muita fé em Deus, eu poderia fazer como em Ezequiel 9, 4-11, e matar todos aqueles que não "suspiram e gemem pelas abominações que se cometem na cidade" (nem são os que de fato as cometem, apenas). Isso é um ato baseado na fé, mas não me soa como um ato virtuoso, bondoso.

A fé sequer é algo bom. A pessoa se dispor a aceitar, sem questionamentos, histórias nada convencionais nem coerentes sobre seres divinos, não pode de forma alguma ser bom para ela. O máximo que ela pode conseguir com isso é ser passada para trás, como acontece todos os dias em algumas igrejas. Ter fé não é motivo de orgulho, e sim de vergonha. Não só é desnecessário acreditar em deus para se saber o que é certo e o que é errado, como a fé, por si só, não te torna uma boa pessoa.

Segundo o catecismo, o simples fato de se permitir ter dúvidas quanto a legitimidade do que é pregado pela Igreja Católica é um pecado. Claro, impedir os questionamentos é a forma de manter os fiéis cegos e distantes da verdade. E se a Igreja Católica fosse tão segura quanto ao que afirma, não deveria se preocupar com as dúvidas que podem atingir seus fiéis. Fica claro que ela tenta esconder algo ao querer vendar as pessoas através da fé. Fossem os ideais do Catolicismo dignos de serem seguidos, certamente assim fariam mesmo os mais sensatos que os questionassem.

Quando vejo uma pessoa se orgulhar de sua fé, só consigo sentir pena, pelo peso que é se sujeitar ao medo de estar cometendo o suposto pecado e não se permitir duvidar. Fé não é virtude, não faz de você uma boa pessoa, obscurece a verdade e não lhe traz felicidade.

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Rafael Marcondes

Referências:
  1. Definição de virtude - no dicionário Priberam;
  2. As virtudes - no site da Capela Nossa Senhora da Conceição;
  3. A virtude na doutrina católica - no site da Wikipédia.