Monday, 27. August 2007, 12:25:37

Nos anos 80, a literatura de Henry Charles Bucowsky experimentou um fenômeno de vendas e crítica no Brasil, acompanhando, com o retardo normal o que acontecera nos Estados Unidos nas duas décadas precedentes. Os filmes “Crônica de Um Amor Louco”, de Marco Ferrari, que levou multidões aos cinemas, e “Barfly” , com Mickey Rourke e assessoria especial do próprio Bucowsky ajudaram toda uma geração a descobrir aquele escritor alucinado, alcoólatra assumido, mulherengo, brigão e sociopata que, descarado, assinava textos indisfarçavelmente autobiográficos que mostravam em detalhes grotescos toda a sua vida torpe e as mesquinharias do baixo-mundo de Los Angeles.
Bucowsky morreu no início da década de 90 e, de lá para cá, só mesmo os seus velhos leitores, hoje quarentões ou ainda mais velhos, ainda se lembravam do velho safado, que era como ele se descrevia sem a menor autopiedade. Seus livros, editados no Brasil pela LP &M continuam em catálogo, mas obviamente vendem bem menos que há vinte anos.
Mas agora surge uma biografia alentada e que se propõe, também sem nenhum pudor, a ser “a mais completa e definitiva” sobre o atormentado escritor. O livro, “Charles Bucowsky: Vida e Loucuras de um Velho Safado” (Howard Sounes, Editora Conrad Livros, R$ 34,00) desfila, ao longo de 341 páginas cenas surreais de loucura, embriaguez e puro talento daquele homem absolutamente horroroso , física e moralmente, mas que era, acima de tudo, um poeta extremado e um contista soberbo. Bucowsky não buscava atalhos adocicados para descrever as experiências alucinadas que tinha com o álcool, as prostitutas, as namoradas incrivelmente mais jovens, as brigas e noites em tarimbas de cadeia.
Ele começou mesmo a despontar como escritor, reconhecido pelo público mais exigente, já aos 49 anos de idade. Sua vida, até aquele ponto, tinha sido uma sucessão infinita de cadeia, desemprego, brigas de bar, porres doentios. Não que tenha mudado: até o final de sua vida, Bucowsky continuou a sua sina de perdedor, que é como os americanos médios rotulam todos aqueles que não se encaixam em sua filosofia imediatista e suburbana.
Há no livro a descrição de uma palestra proferida pelo escritor em uma universidade em 1972, quando ele tinha 52 anos e que, progressivamente, vai se transformando em um embate com a platéia e termina com autor e espectadores se agredindo, e atirando coisas. E, depois da leitura dramática- literalmente- Bucowsky vai até uma festa, na qual era convidado de honra e, bêbado como um gambá, provoca por ciúmes paranóicos um sururu de dimensões épicas, quebrando o apartamento inteiro.
Aparentemente, Bucowsky não guardava o menor remorso por suas atitudes amalucadas. Tome-se este mesmo exemplo: quando o dono do apartamento volta para ver como está o seu turbulento hóspede, encontra a sua casa em pandarecos e o escritor, marcado pelos socos e garrafadas, está calmamente deitado em um colchonete, cercado por cacos de vidro e tomando uma cerveja, a primeira das muitas do dia.
Já tive a oportunidade de contar aqui mesmo, em crônica publicada logo após a sua morte que, uma certa noite, quase manhã, eu e alguns amigos, impulsionados pela leitura de trechos de seus livros e, obviamente, bastante combustível etílico, resolvemos ligar para a casa dele na Califórnia. Miraculosamente, eu diria, conseguimos localizar o número de seu telefone e ele atendeu. E, assim como no exemplo da tal palestra citada no livro, também aquele estranhíssimo telefonema terminou entre xingamentos diversos e metafóricas garrafadas e cadeiradas.
Mas voltando ao livro, eis que ele vem, com certeza, para encontrar um público que tem enorme curiosidade em conhecer detalhes da improvável vida e carreira de um sujeito que, não fosse pelo talento descomunal, provavelmente sequer teria chegado aos primeiros trinta anos de vida, assassinável por natureza que era.
Em resumo, ler esta biografia, bem escrita e traduzida, é um prazer e redescobrir Charles “Hank” Bucowsky continua a ser uma aventura sem par. Só não se deve tentar seguir seus padrões vitais.É impossível para seres humanos medianos.