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Blog do Robinson Damasceno

Idéias, Crônicas e Pensamentos para um País Eternamente em Crise

AS VELHAS BARRIGAS ITABIRANAS

Homer: Doh!


Iam e vinham, as velhas barrigas de Itabira. Nos meus dias de menino, eu pensava: como é possível que os adultos desenvolvam estômagos tão proeminentes, com tantos morros para subir e descer e já que quase todo mundo andava (e muito), já que havia poucos carros.
Mas hoje, velho menino itabirano, percebo que nem só de Itabira se fazem barrigas. Ainda outro dia, fui ver um show dos Mutantes, velha paixão nossa lá no Pará, na Conceição e nos bailecos domésticos e do Atlético, este Atlético azul e branco do mato dentro. Hoje, os Mutantes já não têem Rita Lee, mas os irmãos Sérgio e Arnaldo estão lá, com a fabulosa Zélia Duncan fazendo e muito bem o papel que um dia coube à velha ruiva sulista, a chatíssima Rita Lee Jones.
E reparei que na platéia, que reunia velhos mutantes, como eu, seus filhos, suas jovens namoradas e velhas senhôras (assim mesmo, com chapeuzinho) todos, sem exceção, ostentavam vastas proeminências abdominais.
É claro que, entre meus contemporâneos alguns, milagrosamente, fugiram do estigma, como o Tiusguinha, o Altamir, o Jânio. Mas outros estão inapelavelmente com uma cintura que raia o precipício da ignomínia, como eu mesmo.
Mas desencanei do tema. Não vou trocar meus livros, filmes, o carinho do Max, o aconchego de minha mulher, minha cerveja por malhações perigosas, corridas desembestadas ou aparelhos miraculosos e caríssimos, que, tenho certeza, se comprasse logo virariam cabides de mil dólares para meus moletons velhos de quinze anos e vinte quilos a menos.
Portanto, minhas jovens amigas, conformem-se. Sabem este gatinho de barriguinha de tanquinho com quem vocês vão se casar no final do ano?
Pois é o mesmo barrigudo que, daqui a alguns anos, estará escornado no sofá, tomando sua latinha. E não o obrigue a subir e descer as ruas de Itabira. A barriga, impávida e colossal há de vencer. Reze apenas para que ele tenha grana para pagar a sua academia. Os barrigudos de Itabira e do mundo inteiro amam uma mulherzinha com tudo em cima. É injusto, mas é assim que funciona.

QUANDO UM AMIGO SE VAI

O morador de rua Odair Benjamin Tomas, 29, foi preso pela Polícia Militar na madrugada desta terça-feira em Belo Horizonte (MG) suspeito de assassinar o médico Ricardo Soares Alvares, 55, com uma facada, após tentativa de assalto. O crime ocorreu na região da Savassi, na zona sul da capital mineira, por volta das 21h30 de segunda.

Na manhã de hoje, outros dois supostos moradores de rua foram presos tentando assaltar a casa do médico, localizada na mesma região.

A polícia investiga se eles têm alguma relação com o morador de rua suspeito de matar o médico, que eles negaram conhecer. Os dois negaram envolvimento no assassinato.

Se dizendo "alcoolizado" e vivendo há seis anos na rua, Tomas disse que assassinou o médico porque ele reagiu à tentativa de assalto.

Em entrevista a uma rádio, no Departamento de Investigações da Polícia Civil, onde está preso, Tomas disse que o médico o empurrou, jogando-o ao chão. Segundo ele, em seguida, Alvares teria tentado passar por cima dele, que, "em legítima defesa", se defendeu com uma faca.

O ferimento rompeu a artéria femoral do médico, que perdeu grande quantidade de sangue. Ele morreu na calçada. A PM foi acionada e, poucas horas depois, localizou Tomas, que confessou o crime.
Ricardo Álvares era médico, mas, muito além da profissão que escolheu, não para enriquecer, mas por que amava as pessoas, era um amigo, desses para os bons e maus tempos.

:troll: No dia 24 de março, ele foi brutalmente assassinado em seu caminho de todos os dias para a casa onde sua família sempre morou, em pleno coração da Savassi, onde, até poucos anos atrás, andávamos despreocupados, de volta de nossas noitadas.
Dinheiro, Ricardo nunca teve. Era homem simples, andava à pé e fazia sempre seu trajeto, entre o hospital, o bar onde se encontrava com seus amigos, muitos deles médicos e sua casa, onde gostava de ouvir seus velhos long-plays, ler biografias e pensar. Dono de fabulosa cultura, jamais deixou que qualquer vaidade o tomasse. Era, como diria Taylor Caldwell, médico de homens e almas. Jamais deixou de atender os pobres e abandonados que freqüentam o Ambulatório Carlos Chagas e mais não ambicionava.
Talvez, amor. Ricardo às vezes o encontrava, muitas o procurava, mas seu temperamento tímido o afastava das mulheres com quem sonhava, aquelas que poderiam entender um médico sem ambições e pleno de modéstia.
Pois foi a caminho de casa que, abordado por um dos milhares de vagabundos que têm nas calçadas suas residências, ele encontrou o Destino, na forma de uma facada mortal, que o levou em minutos, deixando para nós, seus velhos amigos a imagem perene de um homem bom.
Como amigo de sempre e cliente nas horas vagas, sentirei sua falta, de sua cultura enciclopédica, de sua caneta Parker 61, com a qual assinava suas receitas em caligrafia perfeita.
Como brasileiro, revolto-me, sinto-me cada vez mais angustiado, pois se ontem foi a vez de Ricardo, amanhã pode ser a de qualquer um de nós, vítimas de discursos retumbantes, promessas mirabolantes e ações que nada resolvem e criam monstros que matam por nada, por nada terem a perder, por simples e pura maldade.
Talvez, talvez, a culpa seja de todos nós, não sei.Mas o que fazer para que recuperemos o simples direito de viver em paz, criar nossos filhos, sem o terror nos espreitando a cada esquina, mesma que seja uma esquina privilegiada?
Fica aqui meu adeus saudoso, minha raiva impotente e a certeza de que há algo profundamente errado com este país, que não dá a seus filhos um mínimo de paz para viver.
Ao nosso amigo Ricardo, fico devendo lhe devolver uma biografia de Abraham Lincoln, um de seus ídolos, a qual planejava devolver amanhã. Na Eternidade, amigo, falaremos disto e muito mais. Até logo.

AFFONSO PENNA VOLTA A SANTA BÁRBARA! JÁ TEVE AGORA TEM!

Como neste país rouba-se de tudo e mais um pouco; boxeadores dissidentes são deportados de madrugada, enquanto o maior traficante de cocaína do mundo tem as benesses dos trâmites jurídicos, o governo ignora as recomendações do STF quanto ao uso dos cartões de crédito e só o avião presidencial tem que usar os dois reversos, roubaram, do Cemitério São João Batista, em Botafogo, o busto do Presidente Affonso Penna (1906-09), esculpido pelo famoso Bernadelli, autor de obras memoráveis em mármore na então capital da República.
Ora, como se sabe, Affonso Penna, antes de virar Avenida em Belo Horizonte, praças e ruas em todo o país, era mineiro, da velha e heróica cidade de Santa Bárbara, que ganhou o injusto e cruel apelido de “já teve”, pois nos últimos anos entrou em acelerada decadência que, felizmente, parece agora estar se revertendo graças ao turismo da Estrada Real e à proximidade do Caraça (onde Affonso, é claro, estudou).
Pois os santa-barbarenses querem agora trasladar os restos mortais do ex-presidente para sua terra natal. Acho boa a idéia. Lembro-me que eu, pessoalmente e por delegação do então secretário da Cultura José Aparecido levei de volta à cidade de Conselheiro Lafayette, antiga Queluz de Minas, os restos do conselheiro, para orgulho de alguns e ódio de outros, coitado.
Certamente o mesmo ocorrerá em Santa Bárbara, onde Affonso até tem uma rua com seu nome, mas com o título de “Conselheiro”, o que ele efetivamente foi, mas no Império.
Creio que, turisticamente, a cidade ganharia com a construção de um mausoléu ou mesmo de um museu com objetos, mobiliário e demais pertences do presidente. E seria também interessante saber o que o homem fez ao longo de sua carreira, interrompida em 1909 por uma gripe dessas que hoje a gente cura em três dias sem fazer nada.
Resta agora pedir autorização aos órgãos competentes, alegando inclusive a incompetência deles em cuidar dos restos presidenciais.
Serei dos primeiros a visitar o velho Affonso, como parente distante no tempo. Vamos lá, Santa Bárbara. Affonso neles!

ALELUIA! FREI BETTO RECUPERA SUA SANIDADE E ABANDONA LULA!

Carlos Alberto Libânio Cristo, frei dominicano, filho da famosa quitandeira Dona Stella e escritor foi, desde os anos 70, uma das molas propulsoras do nascimento do PT e, mais que isto, foi ele o aval sincero e destemido de um tal de Luis Inácio da Silva, depois conhecido como Lula.
Sua amizade pelo depois presidente era tamanha, seu fervor tão intenso, que chegou ao despropósito de fazer o papel de padre-de-roça no primeiro Arraial do Torto, casando seu amigo e Dona Marisa, todos caracterizados como jecas.
Depois... Bom, depois, como diria seu amigo, veio o depois. O Programa Fome Zero, no qual Betto embarcou com uma ingenuidade de criança às vésperas da Primeira Comunhão deu em nada. Aí ele sentiu que tudo em que havia acreditado durante anos era apenas papo de Duda Mendonça.
Depois do depois, veio o mensalão, antes o Waldomiro, as malandragens de Zé Dirceu, as bandidagens do valerioduto, o Delúbio. E mesmo um homem de fé inabalável começou a ver a luz. Fiat Lux, como diria a Bíblia. Frei Betto começou a entender que aquele governo, pelo qual havia dado tanto, era apenas pano de boca de um teatro de mamulengos, repleto de Pinóquios. Tentou ser Gepetto, tentou chamar Lula de volta à Terra.
Vãos esforços. E agora, eis que ele, horrorizado, descobre que seus amigos, além de incompetentes e mentirosos são também insensíveis ante a dor do próximo. Constata em pânico que ninguém- NINGUÉM!- teve a mínima coragem de tentar consolar os parentes das vítimas do fatídico vôo da morte em Congonhas.
Não, Betto, Lula não é, nem de longe, o Moisés que você imaginava, a conduzir os famintos à terra da redenção. Era e é apenas mais um pelegão que se agarra ao poder e a seus símbolos e ostentações, seus carros de luxo, seus whiskies envelhecidos 21 anos, seus charutos.
É apenas um reles mequetrefe que, por artes da democracia (ou demonocracia) se viu onde jamais mereceu estar. Um homem que, longe de tentar acabar com a miséria, faz dos pobres seu gado mais cativo. Um sujeito que, em vez de pensar no Brasil, como apela em seus discursos cada vez mais infrutíferos, pensa é em como vai se manter no Poder, seja pessoalmente, seja através de um preposto.
E Betto, que raiava a insanidade de um Simão Bacamarte, retorna do mundo dos alienados para a planície dos desafortunados. Seja bem vindo de volta, Frei.

O DEMÕNIO TEM NOME: CLASSE MÉDIA

Olá a todos! Depois de mais de ano sem estar por aqui, estou voltando, mais desesperançado que nunca, com menos barriga, ainda tentando comprar um apartamento decente e vendo a vida se esvair.
Enquanto isto, vamos atualizar esta Casa, que é de todos. Grande abraço!
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DEMÔNIO TEM NOME: CLASSE MÉDIA

Robinson Damasceno dos Reis


Nos últimos quatro anos e meio, não por coincidência, o tempo que já dura o governo Lula, as forças sociais sindicalistas, os chamados movimentos sociais e os núcleos de seu próprio partido de origem buscaram um demônio em comum para justificar seus erros, sua ignorância e sua inoperância.
A princípio, este capeta era identificado pelos exorcistas do Planalto como uma vaga “herança maldita”, cujas feições eram idênticas às de Fernando Henrique Cardoso, que teria entregado o Brasil aos novos heróis em frangalhos, despedaçado e quebrado.
Quando o discurso perdeu seu encanto, uma vez que o novo governo não mudou uma vírgula da política econômica maldita, o demônio, naquele velho truque manjado dos velhos diabos, transmutou-se na Mídia, na grande imprensa, nos jornalões e, em especial, na Rede Globo, a eterna vilã, desde 1989, dos petistas, que enxergam na rede, em cada gesto, um golpe contra o governo, contra o PAC, contra Lula.
Mas hoje, acima das heranças malditas e da mídia, o Velho Bode é mesmo a classe média, ou seja, este difuso segmento da população que tem mais escolaridade, tem um contracheque no final do mês, paga impostos na fonte ou às vezes é um pequeno empresário- pelo menos até falir graças à sanha arrecadatória do governo que, com este dinheiro arrancado compulsoriamente dos 20% de brasileiros que ganham de dez a mais salários por mês financia as bolsas-preguiça de quem não tem trabalho ou qualificação.
Estarei sendo cruel? Ora, estamos nos dias vinte do mês e só agora estou livre das contas pontuais que ou pago ou me arrebento. Na prática, temos uma semana em quatro em que não começamos a ser bombardeados com as cobranças.
Nem por isto eu, pessoalmente, aderiria ao movimento “Cansei”. Fosse montar um troço teria certamente outro nome, talvez impublicável. Quiçá pedisse ao ministro (?) Marco Aurélio Garcia que posasse para os cartazes do E.T.É.P, traduzam como quiserem, pronome,verbo,verbo,adjetivo.
Porquê, na verdade, eu, nós, não estamos cansados. Estamos é pê da vida mesmo. Os brasileiros que me sigam. Ou não. Qualquer coisa escrevam para a nossa capital federal, Caracas. Au revoir.

EU SOU NEGRO, ÍNDIO E CAFUZO. E NEM POR ISTO....


Por certo, eu pensava que não deveria entrar neste assunto de cotas garantidas para as chamadas minorias para que entrassem em faculdades.
Faculdades- o nome já indica- é um terreno para que alguns o trilhem, com ou sem dificuldades extraordinárias, para que possam crescer e produzir em suas profissões. É um terreno pantanoso.
Na verdade, não tivesse hoje as muitas décadas de vida, eu poderia me bater por este instituto cotista para um futuro curso universitário. Vejamos: tenho aqui, em minhas mãos, um livro de genealogia escrito pelo padre e deputado Pedro Vidigal sobre a minha família. A história remonta ao século XVI, o mesmo do descobrimento de Pindorama. Ali constato que tudo começou com um português mameluco, já que trineto de índia, chamada Margarida e filha do famoso cacique Tibiriçá.
Já na família de minha mãe, meu avô Pedro era indubitavelmente e posso constatar em suas fotos um descendente direto de um amor entre branco e negra. Mulato, portanto.
Voltemos a Tibiriçá e sua filha, rebatizada Margarida Bueno e que deu origem à vasta família dos Martins da Costa aqui em Minas, os Bueno Vidigal em São Paulo e sabe-se lá mais quem ou aonde. Veja-se por aí que, apesar de ter olhos azuis e ser branco de dar dó sou índio e negro em minhas veias.
Se formos para o lado dos Lages e Oliveiras, a coisa fica ainda mais patente nos cabelos negros, pele azeitonada, narinas largas. Não há a menor dúvida: sou mestiço, temperado por um avô francês, um pouco judeu, mourisco, uma sopa de genes globalizados, um brasileiro, portanto.
Tenho amigos e amigas, negros retintos, que devem ter lá atrás um branco ou dois em suas histórias. O Brasil é assim.
Estes amigos e amigas estudaram, a duras penas-como eu mesmo-em faculdades noturnas e soturnas, venceram obstáculos e, em sua maioria, venceram. Estão vivos. Muitos de nós e eu também viemos de escolas públicas e nem por isto ficamos chorando nas esquinas com chapéus rasgados a esmolar condescendências.
Assim e pela primeira vez e última declaro, em primeira pessoa que, como negro, índio, mameluco, cafuzo e branco de olhos azuis abomino esta condescendência artificial e populista. Sou contra esta cotatização senzala, valha-me o termo, de espaços que devemos lutar para conquistar.
Prefiro que as Universidades Públicas passem a cobrar mensalidades justas e diferenciadas de seus alunos. Sem colocar no colo desta nação culpas além das que ela já carrega.
Ali estão alunos ricos, que estudaram em boas escolas. Nada contra. Mas, puxa, que paguem. Basta uma olhadela nos estacionamentos. Estão cheios de carros lindos, dados por papai e mamãe pelo justo orgulho dos filhotes. São pais e mães que não se dão ao trabalho de doar um livro que seja para a biblioteca da universidade. Nem sequer vão lá.
É a mesma turma que fica aliviada ao ver o governo distribuir bolsas esmola para que os miseráveis-pretos, cafuzos e mamelucos, como eu mesmo-fiquem à distância. Brasil, país de hipócritas e bolsistas de ocasião. Em que vai dar isto? Provavelmente, no mesmo populismo de sempre. Valha-nos Deus. E taí o Lulinha Telemar que não deixa mentir muito...

SONHOS DE UM CINQUËNTÃO

SONHOS DE UM CINQÜENTÃO
Robinson Damasceno dos Reis


Pois aqui estamos, já às vésperas do carnaval e o país continua sua rotina de escândalos, CPIS, chantagens e outras mixórdias que deveriam nos envergonhar a todos. Nós, o povo, nos dividimos entre tristes pierrôs abandonados, colombinas transviadas e, principalmente, palhaços. Mas palhaços que nem de si conseguem rir mais.
Gostaria imensamente de estar aqui agora comentando, com leveza e alegria, que nosso país encontrou seus rumos, promoveu uma radical limpeza em seus quadros políticos (pela lei e não com expurgos, claro!) e que, longe do populismo e do assistencialismo que envenenam a já precária condição de nossa cidadania, se desenvolve sem ter que distribuir esmolas aos miseráveis.
Completo 50 anos neste carnaval. É pouco? É muito? Não sei. Nos primórdios do século passado, no qual nasci, chegar a esta idade era quase uma proeza. Eu, com minhas antigas veleidades poéticas e minha extraordinária (e falecida) índole boêmia já teria morrido de tuberculose ou sífilis. Ou gripe, tétano, essas coisas.
Mas destes cinqüenta anos, metade eu os vivi no jornalismo. Em 1981 as coisas eram diferentes. Em meio ao pesadelo de uma ditadura que se recusava a morrer, tínhamos esperanças, acreditávamos no novo que viria, na democracia plena, no fim das desigualdades sociais, muito menores que hoje, acreditávamos que o poder, mais dia menos dia, seria mesmo exercido por nós e em nosso nome executado.
Claro: aos 25 anos algumas coisas são bem mais fáceis que aos 50. Apaixonar-se, fazer poemas, subir escadas de dois em dois degraus, fazer filhos e ter utopias.
Mas é doloroso dizer que chego a esta idade emblemática, ainda crendo no Brasil e no amor, mas francamente desesperado. Vivemos uma nova Salem, onde bruxas são queimadas por denúncias vãs. Onde listas com nomes de condenados circulam impunemente pela internet, jogando na lama pessoas de bem misturadas de cambulhada com outros seres nem tão defensáveis assim.
Dizem que somos um país atrasado porquê jamais tivemos uma guerra civil, como a da Secessão americana. Mas o que é vivemos hoje, senão uma guerra entre miseráveis e pobres? Entre corruptos e corruptores?
Espero que, ao fazer 51 anos o país me dê de presente uma nova realidade. Assim poderei dizer que nossos sonhos de juventude não foram apenas quimeras e delírios. Como se vê, o poeta em nós jamais morre. Apenas fica mais prudente e os versos pioram.

ESTA É MINHA CARRANCA DE HORROR DIANTE DO QUE ESTE PAÍS NOS DÁ.A FOTO É DA LUCINHA, QUE DETESTOU. EU, NEM TANTO.

O Cronista e seu Caderninho Azul


O cronista Joaquim Ferreira dos Santos,ex-JB que vai aos pouquinhos assumindo mais e mais funções no dia-a-dia daquele outro grande jornal,que é O Globo, mercê de seu imenso talento ,escreveu agorinha mesmo sobre um certo caderninho azul (só podia ser!), de onde ele pretensamente retiraria idéias, palavras e esboços de possíveis crônicas, uma vez que esta história de escrever,a cada ano que passa e quanto mais a gente envelhece ou amadurece, conforme a forma de nos vermos, fica cada vez mais complicada.
No caso do Joaquim, o tal caderninho seria a mística cartola à qual se referia meu velho amigo, o escritor fantástico Murilo Rubião, sempre às voltas com seus textos que emburravam no fundo de sua calva e de lá só saíam a poder de sofrimentos horrendos...
Às vezes, não, a coisa corre simples como um daqueles regatos lá de Itambé, líquido e límpido, desviado aqui e acolá por um seixo, uma velha e fossilizada raiz, a contemplar a estátua do Coronel Modesto, que ainda nem saiu do delírio mas que um dia erguerei no adro da Igrejinha de Nossa Senhora das Oliveiras, construída pelo meu avô Pedro. E o texto vai, até o ponto onde os dedos se quedam, mudos e ledos e dizem à alma que o trabalho acabou, não há mais nada a dizer, è finito súbito, pronto!
D´outras, eis que o branco se sobrepõe a tudo, o que vem à mente são meras e tolas repetições do que outros, muito melhores e destros já fizeram. É a paúra, o pânico, o tédio culposo.
Sorte a do Joaquim, que tem seu caderninho. Eu, durante anos, estudante ainda e membro permanente do Grupo que tentava salvar o mundo editando O Cometa Itabirano, usava dessas cadernetinhas de espiral, com capinhas em xadrês e, em minha enorme pretensão, acreditava que um dia seriam resgatadas por alguma arqueóloga maravilhosa, uma mistura de Naomi Campbell com Sharon Stone, que apregoaria ao mundo o portento do gênio que um dia distante, lá nos fundos do século XX andava de bar em bar, de motel em motel e de zona em zona registrando em definitivo as impressões mágicas deste mundo tormentoso.
O que sobrou daqueles caderninhos que, miraculosamente, existem ainda, em caixas e baús lá na casa de meu pai? Um poema ou dois, pensamentos que julgávamos de tal profundidade que só os entenderíamos décadas depois, contas que não fechavam, caricaturas de amigos que já desencarnaram. E crônicas, claro.
Muitas das minhas, daquelas publicadas n´O Cometa entre 1981 e 1989 vieram daqueles cadernuchos de duzentos réis.
Hoje, sinceramente, olho ao redor, leio os jornais, converso com os amigos, viajo para rever as paisagens de meu matto-dentro e me confesso sem a menor inspiração. Não haverá anotações, minhas ou alheias, que me faça perpetrar uma canção de amor que seja verdadeira, uma dor de alma que me traga lágrimas, nada, nada.
Meu tédio não é o de Proust, que não cheguei ainda a esta canalhice de imitar a genialidade uma vez que eu não a tenho ou terei. E, na verdade, jamais gostei de Proust como meus amigos mais catatônicos ou soberbamente cerebrais.Felizmente, a idade tem dessas coisas. A gente está autorizado por si mesmo e pelos deuses a dizer que gosta ou desgosta até de monstros como Proust. Ou Joyce,Guimarães, Brahms, Telonious Monk ou Alvarenga & Ranchinho.
Poemas de amor sincero, sofrido, canções que proclamem injustiças, biografias de zés ninguéns, isto sim, sempre comoveu meu coração.
E assim, sem o caderninho azul, sem a menor tesão de falar de governos que vêm e vão, de besteiras e crimes cometidos contra o povo e, infelizmente, sem um pingo de amor colorido para espraiar pelo ar parado deste verão sufocante e indigente, termino aqui esta crônica.
Ah, sim: concluo, por necessário, com a afirmação sempre repetível de que há momentos em que o silêncio, sempre mais sábio, se dá à troça de nos fazer perder vinte minutos, um cigarro e as conversas sem sentido algum dos colegas das mesas ao lado que, coitados, nem uma croniqueta como esta puderam fazer. E deixar ao mundo alguns milhares de toques e nenhum consolo. Pois a vida assim o quis, não foi?
E na foto, eis o local exato onde erguerei um dia a minha birosca do Matto Dentro, ao lado dessa lagoa sem nome, mas plena de vida...

A Nova Carta Brandi e as Vacas Sem Farda

Que a campanha eleitoral deste ano seria sangrenta, todos pressentíamos. Mas, otimistas, tentávamos imaginar que o nível de baixarias não seria este que se prenuncia. Agora, faltando ainda o tempo de uma gravidez, já se pode prever que, independentemente dos ganhadores, haverá feridas e cicatrizes que permanecerão por meses, senão anos a fio.
Tomemos como exemplo esta execrável “lista de Furnas”, que tomou o noticiário e simplesmente transformou a blogosfera em arena de acusações mútuas entre petistas e tucanos em nível jamais visto na internet brasileira. O jogo de paixões em torno da veracidade ou não da tal “lista” é inacreditável. Mais se parece com brigas entre facções de torcidas organizadas, contando ainda com a indesejável presença de Hooligans dispostos a tudo para defender o seu lado e a sua versão da história.
O que se tem até agora é um panorama de sombras e neblinas, apenas. O material que circula na internet, com força, desde o primeiro dia do ano, tem na verdade tudo para ser tão falso quanto a famosa Carta Brandi, formulada pelo General Olympio Mourão Filho, a famosa Vaca Fardada de 1964, para conter a irresistível caminhada de JK rumo à presidência. Era uma carta falsa do princípio ao fim, destinada a alarmar as classes médias e as forças armadas, mas sua autenticidade foi desmascarada. Virou rodapé de uma História mal contada.
Com esta lista que anda por aí envenenando o ambiente pode ocorrer a mesma coisa. Ela provavelmente será uma nova carta Brandi, agora feita por vacas não fardadas com estrelas no peito, mas reputações sofrerão estragos. Entretanto, pelo efeito bumerangue de determinadas atitudes repreensíveis na política pode também levar ao escracho popular quem a tenha montado. Já nem me refiro a esta figura joaquim-silveriana de Nilton Monteiro, o auto-intitulado lobista e consultor de empresas mais conhecido por ser mesmo um escroque, mas sim aos petistas que, cheios de boas intenções, estão contribuindo para transformar o debate político em luta de vida e morte entre os dois principais partidos do país. Um efeito deletério, mas bem possível, é que ambas as agremiações sangrem tanto e tão inutilmente que abram caminho para que aventureiros da pior estirpe surjam do nada para abocanhar o espólio.
Assim, uma possível farsa montada em computadores poderia mudar os rumos da História-para pior. Não é isto o que o Brasil quer. Que se apure tudo e todos. É o que os cidadãos honestos esperam. Mais responsabilidade, senhores. E menos paixão.



APÊNDICE EXTRAÍDO DA FGV/CPDOC SOBRE A CARTA BRANDI:

Em meados de setembro de 1955, um novo episódio veio tumultuar o cenário político. No dia 17, Lacerda publicou na Tribuna da Imprensa, uma carta datada de 5 de agosto de 1953 e dirigida a Goulart, naquela época ministro do Trabalho. O documento, cujo suposto autor era o deputado argentino Antônio Jesús Brandi, ficou conhecido como Carta Brandi e relatava os entendimentos secretos que Goulart teria mantido com Juan Domingo Perón, então presidente da Argentina, no sentido da implantação no Brasil de uma república sindicalista, bem como a existência de contrabando de armas argentinas para o país. Face à gravidade destas denúncias, o general Lott, atendendo à solicitação de parlamentares petebistas, ordenou a abertura de um inquérito policial-militar (IPM), que foi chefiado pelo general Emílio Maurel Filho. Os primeiros resultados da sindicância efetuada em Buenos Aires, embora admitissem a autenticidade da denúncia, não chegaram a pesar em termos eleitorais, por terem sido divulgados no dia exato do pleito. Essa questão, porém, só seria devidamente esclarecida quando, ao final da sindicância, foi comprovado que a carta havia sido forjada pelo então capitão Olympio Mourão Filho.

A Armadilha Haitiana

Quando éramos crianças, ali nos anos 60, a vida não era fácil: cabelos cortados na marra, roupas herdadas de irmãos mais velhos, sem televisão. Mas, em minha opinião, o pior eram os fortificantes que éramos obrigados a tomar para que nos tornássemos adultos fortes e inteligentes.Nomes que até hoje me arrepiam: Emulsão de Scott, com aquela horrenda figura de um sujeito com um enorme bacalhau nas costas e óleo de fígado de bacalhau, além de óleo de rícino. Se ficamos mais fortes e inteligentes, eu duvido, mas pelo menos sobrevivemos e não demos tais porqueiras aos nossos próprios filhos.
Se me lembro disto é porquê hoje, de acordo com a doutrina Bush, é preciso dar a países pobres e que não adotam a mesmíssima democracia americana doses maciças de emulsões de Scott, na forma de democratização pela goela, queiram os países ou não. São apenas crianças e não sabem o que querem, daí papai Bush ter que fazer este sacrifício.
Aí estão o Iraque e o Afeganistão que, de uma hora para outra, são forçados a admirar o trabalho feito na Virgínia e em Filadélfia no final do século XVIII, com a constituição “mais perfeita de todos os tempos”.
O que se faz hoje no Haiti, tendo como preposto dos americanos este pobre país que vos fala é a mesmíssima coisa. Estamos lá, gastando quase trezentos milhões de reais por ano, para empurrar garganta abaixo dos haitianos as maravilhas curativas da democracia, custe o que custar.
Ora, o Haiti é um país que tem História. Eles derrotaram os franceses em plena era Napoleônica, instauraram o primeiro país livre e regido por ex-escravos ainda em 1804. Antes, ainda colônia, tinham 80% do café e da cana de açúcar do mundo.
Mas qual é a realidade haitiana hoje? O país, metade da histórica ilha de Espaniola, primeiro ponto da América tomado pelos espanhóis em 1492, tem 85% de analfabetos, oito em cada dez nativos são indigentes-não pobres, não miseráveis, indigentes. Não há luz elétrica, esgotos nem pensar. Ficar doente no Haiti é uma pré-condenação à morte. Enfim, é um inferno em pleno Caribe.
E o Brasil, este gigante dos pobres, este líder inconteste dos miseráveis do planeta, cai no canto de ossanha de Bush e toma a si a tarefa de democratizar este país, sem que pressupostos básicos da democracia sejam antes atendidos.
Fomos para lá-sim, eu e você, já que pagamos pelas despesas da tropa-sem questionar nada, porquê os gênios do Itamaraty e o enorme e destreinado ego do presidente pensaram que, com esta atitude de capachos seríamos aceitos na ceia dos cardeais do conselho de segurança da ONU, como se isto tivesse alguma importância e nos ajudasse a sermos uma potência a ser ouvida por países que se assentam sobre milhares de ogivas nucleares. A coisa deu tão certo que nem aviões conseguimos vender para a Venezuela, não é mesmo?
O Haiti soma-se a uma série inacreditável de erros de julgamento do Itamaraty na Era Lula, ao lado do reconhecimento da China como economia aberta, o perdão de dívidas de outros países (como se pudéssemos nos dar a tal luxo!) e a aliança sem rumos e futuro com Chávez, Fidel e até Bongo, presidente há 37 anos do Gabão.
Enfim, deveríamos recolher as barracas e voltar para casa, qualquer seja o resultado das eleições lá. Afinal, se há eleições, pensa Bush, existe democracia. Missão cumprida e fim de papo.
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