A ABSORÇÃO
Tuesday, 25. October 2005, 14:29:06
Em frente ao espelho, o homem fazia com critério a barba, contornando o cavanhaque em forma de pêra e observando o rosto magro e nariz adunco.
O cabelo, alto na frente e desbastado, reto, dos lados era meio grisalho, mas ainda farto e este, sem dúvidas, era um de seus maiores orgulhos. Dos seus contemporâneos, só ele não havia encarecado.
Em seguida, terminando a tarefa de fazer a barba, ele ajeitou o colarinho de formato curto e duro, prendendo a gravata acinzentada com um alfinete dourado. Satisfeito, acenou duas vezes em sinal de aprovação e falou, meio murmurando:
“Muito bem, Leon. Vamos à luta”.
No Bar Astúrias, dois amigos conversavam sobre o Homem. Estavam ambos entre preocupados e divertidos:
“Ele anda lendo Trotsky -disse o primeiro”.
“Semana passada foi pior. Lílian Hellman. Já pensou?”
“Mas ele virou Lílian Hellman?”
“Perfeitamente. De salto alto, cigarro com piteira, tosse, conversas sofisticadas, intrigas intrigantes, com perdão pelo pleonasmo” “Hellmaniano” e falando mal de Dashiel Hammet, dizendo que ele era um escritor menor, um péssimo companheiro e um amante amador e até, meio brocha.”
“Meu Deus! A coisa está ficando perigosa, não?”
A mulher do Homem havia pedido separação de corpos há dois anos e o juiz havia concedido apesar da alegação, esdrúxula, do advogado dela: ela simplesmente alegava que não sabia nunca quem era o Homem a se deitar com ela.
“Como? – havia perguntado o meritíssimo e o jovem advogado respondera que isto dependia única e exclusivamente do que o Homem estivesse lendo na ocasião.
O pior era que a profissão do Homem só fazia piorar as coisas uma vez que ele era, além de professor de literatura, crítico e tradutor de livros, assinando colunas em dois jornais e várias revistas.
Como conseqüência desta maratona, ele andava lendo umas 3.000 páginas por mês.
Às vezes, quando as grandes editoras faziam estrondosos lançamentos de best-sellers caudalosos, os números eram ainda mais preocupantes.
Não por coincidência, sua tese de mestrado havia sido uma criteriosa releitura de “Don Quixote de La Mancha” à luz de uma abordagem psicanalítica.
A característica marcante do livro, a seu ver, é a integração mítica e mística do cavaleiro da triste figura à figura fidalga do cavaleiro andante.
Esta simbiose o impressionava desde que, criança, vira o livro pela primeira vez.
O processo foi lento, como sugere o nome aproveitado por Kafka, aliás, uma de suas maiores identificações. Sem que se desse conta, sua alma foi se tornando uma porta permanentemente aberta para outras almas, as dos personagens e heróis que lia.
A princípio, até mesmo por desconhecimento ou defesa, os personagens com toques de generosidade, bons de caráter e ricos de espírito eram os que mais o tocavam e absorviam. Mas na medida em que o tempo foi moldando suas preferências, personagens “gauche” e meio bandidos ganharam em definitivo sua alma.
Além de literatura, lia também biografias e memórias, mas personalidades históricas e por demais grandiosas, estas apenas de raro o seduziam o suficiente para que se desse o fenômeno, aquela transubstanciação que assustava e divertia os amigos e irritava seus críticos.
Daí sua frase enquanto se contemplava ao espelho:
“Muito bem, Leon. Vamos à luta.”
Trotskista tardio, aos quase 50 anos, por estar traduzindo as obras do revolucionário exilado e assassinado por Stálin, ele havia se transformado em persona non grata para os mais próximos.
Quando já muito poucas pessoas se preocupam com o nefando e bigodudo ditador, exceto talvez em sua terra natal, ele odiava o tirano.
Negava-lhe qualidades, apontando defeitos e crimes já sabidos por toda a humanidade, incluindo-se aí os próprios russos.
Em resumo, ele era Trotsky, com todas as manias, idiossincrasias e delírios do velho agitador.
No Bar Astúrias, seus amigos o viram chegar, olhando de soslaio, à espreita de seus assassinos, com jornais amarfanhados e livros antigos debaixo dos braços.
E em seguida, incrédulos, puderam testemunhar o inacreditável. Eles reviram, em pleno final do século XX, a cena que marcou o drama mexicano em 1940, diante de seus olhos bêbados, modernos, céticos e brasileiros.
Ele, Trotsky da cabeça aos pés, assentou-se, pediu uma vodka e calmamente aguardou o que só ele sabia que iria acontecer. Entrou em seguida, sorrateiro, um homem por baixo de um enorme “sombrero”, machadinha à mão.
E ali mesmo à frente de todos, cravou-a na testa do homem, fugindo em seguida.
Passado o espanto natural, voltaram à conversa anterior.
O bar se encheu, foi em seguida se esvaziando naturalmente, os garçons empilharam as cadeiras e a noite terminou.
Restava apenas imaginar o que aconteceria quando ele, passada aquela terrível absorção, revivesse e descobrisse que estava morto desde 1940. Certamente, enlouqueceria de vez. Ou não.
O cabelo, alto na frente e desbastado, reto, dos lados era meio grisalho, mas ainda farto e este, sem dúvidas, era um de seus maiores orgulhos. Dos seus contemporâneos, só ele não havia encarecado.
Em seguida, terminando a tarefa de fazer a barba, ele ajeitou o colarinho de formato curto e duro, prendendo a gravata acinzentada com um alfinete dourado. Satisfeito, acenou duas vezes em sinal de aprovação e falou, meio murmurando:
“Muito bem, Leon. Vamos à luta”.
No Bar Astúrias, dois amigos conversavam sobre o Homem. Estavam ambos entre preocupados e divertidos:
“Ele anda lendo Trotsky -disse o primeiro”.
“Semana passada foi pior. Lílian Hellman. Já pensou?”
“Mas ele virou Lílian Hellman?”
“Perfeitamente. De salto alto, cigarro com piteira, tosse, conversas sofisticadas, intrigas intrigantes, com perdão pelo pleonasmo” “Hellmaniano” e falando mal de Dashiel Hammet, dizendo que ele era um escritor menor, um péssimo companheiro e um amante amador e até, meio brocha.”
“Meu Deus! A coisa está ficando perigosa, não?”
A mulher do Homem havia pedido separação de corpos há dois anos e o juiz havia concedido apesar da alegação, esdrúxula, do advogado dela: ela simplesmente alegava que não sabia nunca quem era o Homem a se deitar com ela.
“Como? – havia perguntado o meritíssimo e o jovem advogado respondera que isto dependia única e exclusivamente do que o Homem estivesse lendo na ocasião.
O pior era que a profissão do Homem só fazia piorar as coisas uma vez que ele era, além de professor de literatura, crítico e tradutor de livros, assinando colunas em dois jornais e várias revistas.
Como conseqüência desta maratona, ele andava lendo umas 3.000 páginas por mês.
Às vezes, quando as grandes editoras faziam estrondosos lançamentos de best-sellers caudalosos, os números eram ainda mais preocupantes.
Não por coincidência, sua tese de mestrado havia sido uma criteriosa releitura de “Don Quixote de La Mancha” à luz de uma abordagem psicanalítica.
A característica marcante do livro, a seu ver, é a integração mítica e mística do cavaleiro da triste figura à figura fidalga do cavaleiro andante.
Esta simbiose o impressionava desde que, criança, vira o livro pela primeira vez.
O processo foi lento, como sugere o nome aproveitado por Kafka, aliás, uma de suas maiores identificações. Sem que se desse conta, sua alma foi se tornando uma porta permanentemente aberta para outras almas, as dos personagens e heróis que lia.
A princípio, até mesmo por desconhecimento ou defesa, os personagens com toques de generosidade, bons de caráter e ricos de espírito eram os que mais o tocavam e absorviam. Mas na medida em que o tempo foi moldando suas preferências, personagens “gauche” e meio bandidos ganharam em definitivo sua alma.
Além de literatura, lia também biografias e memórias, mas personalidades históricas e por demais grandiosas, estas apenas de raro o seduziam o suficiente para que se desse o fenômeno, aquela transubstanciação que assustava e divertia os amigos e irritava seus críticos.
Daí sua frase enquanto se contemplava ao espelho:
“Muito bem, Leon. Vamos à luta.”
Trotskista tardio, aos quase 50 anos, por estar traduzindo as obras do revolucionário exilado e assassinado por Stálin, ele havia se transformado em persona non grata para os mais próximos.
Quando já muito poucas pessoas se preocupam com o nefando e bigodudo ditador, exceto talvez em sua terra natal, ele odiava o tirano.
Negava-lhe qualidades, apontando defeitos e crimes já sabidos por toda a humanidade, incluindo-se aí os próprios russos.
Em resumo, ele era Trotsky, com todas as manias, idiossincrasias e delírios do velho agitador.
No Bar Astúrias, seus amigos o viram chegar, olhando de soslaio, à espreita de seus assassinos, com jornais amarfanhados e livros antigos debaixo dos braços.
E em seguida, incrédulos, puderam testemunhar o inacreditável. Eles reviram, em pleno final do século XX, a cena que marcou o drama mexicano em 1940, diante de seus olhos bêbados, modernos, céticos e brasileiros.
Ele, Trotsky da cabeça aos pés, assentou-se, pediu uma vodka e calmamente aguardou o que só ele sabia que iria acontecer. Entrou em seguida, sorrateiro, um homem por baixo de um enorme “sombrero”, machadinha à mão.
E ali mesmo à frente de todos, cravou-a na testa do homem, fugindo em seguida.
Passado o espanto natural, voltaram à conversa anterior.
O bar se encheu, foi em seguida se esvaziando naturalmente, os garçons empilharam as cadeiras e a noite terminou.
Restava apenas imaginar o que aconteceria quando ele, passada aquela terrível absorção, revivesse e descobrisse que estava morto desde 1940. Certamente, enlouqueceria de vez. Ou não.













