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Blog do Robinson Damasceno

Idéias, Crônicas e Pensamentos para um País Eternamente em Crise

A ABSORÇÃO

Em frente ao espelho, o homem fazia com critério a barba, contornando o cavanhaque em forma de pêra e observando o rosto magro e nariz adunco.
O cabelo, alto na frente e desbastado, reto, dos lados era meio grisalho, mas ainda farto e este, sem dúvidas, era um de seus maiores orgulhos. Dos seus contemporâneos, só ele não havia encarecado.
Em seguida, terminando a tarefa de fazer a barba, ele ajeitou o colarinho de formato curto e duro, prendendo a gravata acinzentada com um alfinete dourado. Satisfeito, acenou duas vezes em sinal de aprovação e falou, meio murmurando:
“Muito bem, Leon. Vamos à luta”.


No Bar Astúrias, dois amigos conversavam sobre o Homem. Estavam ambos entre preocupados e divertidos:
“Ele anda lendo Trotsky -disse o primeiro”.
“Semana passada foi pior. Lílian Hellman. Já pensou?”
“Mas ele virou Lílian Hellman?”
“Perfeitamente. De salto alto, cigarro com piteira, tosse, conversas sofisticadas, intrigas intrigantes, com perdão pelo pleonasmo” “Hellmaniano” e falando mal de Dashiel Hammet, dizendo que ele era um escritor menor, um péssimo companheiro e um amante amador e até, meio brocha.”
“Meu Deus! A coisa está ficando perigosa, não?”


A mulher do Homem havia pedido separação de corpos há dois anos e o juiz havia concedido apesar da alegação, esdrúxula, do advogado dela: ela simplesmente alegava que não sabia nunca quem era o Homem a se deitar com ela.
“Como? – havia perguntado o meritíssimo e o jovem advogado respondera que isto dependia única e exclusivamente do que o Homem estivesse lendo na ocasião.


O pior era que a profissão do Homem só fazia piorar as coisas uma vez que ele era, além de professor de literatura, crítico e tradutor de livros, assinando colunas em dois jornais e várias revistas.
Como conseqüência desta maratona, ele andava lendo umas 3.000 páginas por mês.
Às vezes, quando as grandes editoras faziam estrondosos lançamentos de best-sellers caudalosos, os números eram ainda mais preocupantes.
Não por coincidência, sua tese de mestrado havia sido uma criteriosa releitura de “Don Quixote de La Mancha” à luz de uma abordagem psicanalítica.
A característica marcante do livro, a seu ver, é a integração mítica e mística do cavaleiro da triste figura à figura fidalga do cavaleiro andante.
Esta simbiose o impressionava desde que, criança, vira o livro pela primeira vez.


O processo foi lento, como sugere o nome aproveitado por Kafka, aliás, uma de suas maiores identificações. Sem que se desse conta, sua alma foi se tornando uma porta permanentemente aberta para outras almas, as dos personagens e heróis que lia.
A princípio, até mesmo por desconhecimento ou defesa, os personagens com toques de generosidade, bons de caráter e ricos de espírito eram os que mais o tocavam e absorviam. Mas na medida em que o tempo foi moldando suas preferências, personagens “gauche” e meio bandidos ganharam em definitivo sua alma.


Além de literatura, lia também biografias e memórias, mas personalidades históricas e por demais grandiosas, estas apenas de raro o seduziam o suficiente para que se desse o fenômeno, aquela transubstanciação que assustava e divertia os amigos e irritava seus críticos.







Daí sua frase enquanto se contemplava ao espelho:
“Muito bem, Leon. Vamos à luta.”


Trotskista tardio, aos quase 50 anos, por estar traduzindo as obras do revolucionário exilado e assassinado por Stálin, ele havia se transformado em persona non grata para os mais próximos.
Quando já muito poucas pessoas se preocupam com o nefando e bigodudo ditador, exceto talvez em sua terra natal, ele odiava o tirano.
Negava-lhe qualidades, apontando defeitos e crimes já sabidos por toda a humanidade, incluindo-se aí os próprios russos.
Em resumo, ele era Trotsky, com todas as manias, idiossincrasias e delírios do velho agitador.
No Bar Astúrias, seus amigos o viram chegar, olhando de soslaio, à espreita de seus assassinos, com jornais amarfanhados e livros antigos debaixo dos braços.
E em seguida, incrédulos, puderam testemunhar o inacreditável. Eles reviram, em pleno final do século XX, a cena que marcou o drama mexicano em 1940, diante de seus olhos bêbados, modernos, céticos e brasileiros.
Ele, Trotsky da cabeça aos pés, assentou-se, pediu uma vodka e calmamente aguardou o que só ele sabia que iria acontecer. Entrou em seguida, sorrateiro, um homem por baixo de um enorme “sombrero”, machadinha à mão.
E ali mesmo à frente de todos, cravou-a na testa do homem, fugindo em seguida.
Passado o espanto natural, voltaram à conversa anterior.
O bar se encheu, foi em seguida se esvaziando naturalmente, os garçons empilharam as cadeiras e a noite terminou.
Restava apenas imaginar o que aconteceria quando ele, passada aquela terrível absorção, revivesse e descobrisse que estava morto desde 1940. Certamente, enlouqueceria de vez. Ou não.

O DIA EM FUI PADRE EM BRUMAL

Meu amigo Salatiel Campos, também conhecido como Magal, e eu, éramos uma dupla explosiva: viajávamos muito, assim meio que sem rumo, mas quase sempre por estas cidadezinhas e povoados que fazem parte da Estrada Real ou do Ouro, como queiram.
Ele, um sujeito muito magro, o bigode espetado,com o queixo fino e pontudo e uma voz meio estridente, tipo taquara, adorava contar casos- e inventar potocas. Fã da saudosa Sandra Brea, ele inventava que tinha tido um caso tórrido com a atriz, na época uma espécie de deusa do sexo.
Claro está que ninguém acreditava. Mas em outras histórias, as pessoas caíam, até com uma facilidade espantosa. Uma vez, fomos a uma festa. Eu não conhecia ninguém e ele, muito pimpão, me apresentou como um amigo recém chegado dos Estados Unidos e que não falava quase português algum.
Fui tratado como um príncipe: a festa era junina e acabei por tomar litros de “quentón” , como eu falava com meu sotaque exagerado.
De outra vez, a coisa foi mais grave. Estávamos ali nas redondezas do Caraça, mais exatamente em Brumal, aquela jóia colonial, um povoado maravilhoso. E o desgraçado do Tiel cismou de me apresentar como...padre!
Pensei que ninguém acreditaria: eu era bem jovem, tinha 23 anos e acabara de voltar do Iraque. Mas o dono do armazém onde a gente estava comendo uma lingüiça e tomando uma cerveja abriu um sorriso enorme e desdentado e foi logo chamar sua mulher, uma senhora gordinha, de vestido estampado de florzinhas, que veio lá de dentro enxugando as mãos em um avental amarelo.
Ela veio até a nossa mesa e olhando dentro de meus olhos, disse, com uma vozinha de cortar o coração:
“Padre...Foi Deus que mandou o senhor! Nosso padre não pode vir de Barão ( de Cocais), logo hoje que fazem sete dias que minha santa mãe morreu...O senhor pode celebrar a missa pra nós, Padre? Em nome de Deus, Padre!”
Eu, com meus óculos ray-ban, fiquei ali estatelado. Se eu dissesse que era mentira do imbecil do Salatiel, provavelmente seríamos corridos da cidadezinha a pontapés e tiros de polveira.
Por outro lado, se dissesse que sim, estaria incorrendo em pecados gravíssimos, o pior deles exatamente o de abusar da boa fé daquele povo humilde e bom.
Mas, aos 23 anos, não dá pra raciocinar tanto assim e eu me levantei e, colocando as mãos sobre os ombros redondos da boa senhora, concordei solenemente:
“Não trouxe meus paramentos, nem meu missal...Mas meu sacristão aqui- e apontei o canalha- vai me ajudar a cumprir este dever cristão em nome...como se chamava a falecida?”
“Dona Quita, sêo Padre...Que Deus o abençoe! E o senhor pode usar os paramentos do falecido padre Bicalho, que ficaram na Igreja! E pode dar a comunhão, porquê no sacrário tem hóstias consagradas! Vou pedir a Sêo Horácio Sineiro para tocar o sino...A que horas o senhor celebra?”
“A senhora me dê uma hora. São seis da tarde...às sete, está bem?”
E foi assim. Ainda tentamos uma fuga desesperada, mas, de que jeito?
Portanto, réu confesso, concluo minha história. Celebrei a missa, seguindo o missal do tal padre Bicalho, mas me vinguei de Salatiel, obrigando-o a dar a hóstia para a beatada e ir direto para o inferno dos católicos.
Fiz um sermão daqueles, falando sobre a vida eterna, a remissão dos pecados e de como o Paraíso se parecia exatamente com Brumal e os anjos, com seu povo...
Ao sair da cidade no dia seguinte- e lá não pagamos nada, nem a pinga, nem a cama e ainda levamos quilos de lingüiça e litros de pinga e mel- o povo estava em peso na praça gramada, se despedindo do jovem padre Damasceno e de seu acólito Salatiel.
Só ousei voltar a Brumado anos depois, de barba grande. Mas tenho certeza de que aquela boa senhora, filha de dona Quita, olhou meio de banda pra mim.
E não fui tão bem atendido no armazém. E nem me arrisquei a olhar mais de perto a velha igreja. Eu, hein!

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