Tuesday, 17. February 2009, 20:17:49
Friends say it's fine, friends say it's good
Ev'rybody says it's just like rock'n'roll
I move like a cat, talk like a rat
Sting like a bee, babe I wanna be your man
Well it's plain to see you were meant for me, yeah
I'm your boy, your 20th century toy
20th Century Boy - T. RexFinalmente pude assistir em DVD o primeiro filme da trilogia
20th Century Boys, um dos filmes mais esperados do ano passado. Sendo fã do mangá de Naoki Urasawa (o mesmo do também formidável "
Monster"), acompanhei toda a produção dos primeiros rumores, escolha dos atores, trailers e teasers. Os trailers não ajudaram muito a confiar na produção, e o fato de ser um extenso mangá, completado em um período de seis anos, envolvendo muitas personagens e misturando várias linhas de tempo (anos 70, anos 90, anos 2000) também me fez acreditar que seria um projeto muito arriscado. Pois bem, fui assistir com um pé atrás, mas com uma ponta de esperança no trabalho de Yukihiko Tsutsumi, diretor do filme.
A trama, para inteirar quem não conhece o mangá, gira em torno de Kenji e seus amigos que na infância passada no Japão do final dos anos 60, brincam, brigam, ouvem rock e criam da imaginação um livro de profecias que mostra como eles se juntariam no futuro para tentar salvar o mundo de uma conspiração que levaria a destruição da terra. Já no presente (anos 90) Kenji nem se parece mais com o garoto ativo e valente de outrora. Deixou o sonho de ser um rockstar de lado e trabalha em uma loja de conveniência ajudando sua mãe e cuidando de Kanna, filha da sua irmã que foi embora e nunca mais deu notícias. Alguns estranhos acontecimentos envolvendo um vírus letal e a morte de um dos amigos de infância levam Kenji a suspeitar de uma estranha seita liderada por uma misteriosa figura intitulada "Amigo". O mais intrigante é que o
símbolo dessa seita é exatamente igual ao que eles criaram quando crianças, e os ataques do vírus parecem seguir o plano exposto no livro de profecias. Kenji e seus companheiros novamente se juntam para finalmente tentar salvar o mundo e desvendar quem seria o "Amigo".
O que posso falar desse filme? Primeiro que a escolha do elenco foi muito boa (fisionomicamente falando, pois a qualidade da atuação deixa a desejar em algumas cenas). Dada a grande extensão do mangá, muitas cenas são comprimidas e algumas descartadas. Tudo dentro do esperado. O diretor Yukihiko Tsutsumi foi surpreendentemente o mais fiel possível ao trabalho de Naoki Urasawa - algumas cenas são réplicas exatas, dos enquadramentos ao mise en scène. Todavia, na tela 20th Century Boys parece uma débia sombra daquilo que li avidamente durante meses. O porquê eu tento desvendar nas linhas seguintes.
É bastante trivial a crítica inflexível de fãs quando uma adaptação não segue à risca a obra original. O fato é que 20th Century Boys é um dos filmes mais fiéis que já pude assistir em matéria de adaptação ao cinema. Baseada em um mangá que manteve a qualidade durante os seis anos de sua publicação (22 volumes ou 24 se considerarmos a sequência 21st Century Boys), era de se esperar que essa mesma qualidade se mantivesse na telona. Mas aí reside o problema das diferenças de mídias. O que funciona tão bem no mangá, no filme parece frouxo, forçado ou artificial. O mangá é um veículo muito peculiar, onde cada capítulo se fecha em si mesmo ao mesmo tempo que faz conexão com o anterior e o subsequente. São como pequenos elos de uma grande corrente. No filme esses elos se perdem, vira um amálgama onde o diretor procura dar algum sentido ao todo. No mangá o desenvolvimento das personagens e da trama é lento e gradual, criando um clima de mistério com suas imprevisibilidades, pontuais clímaxs e cliffhangers. No filme esse ritmo de evolução do roteiro é impossível (mas perfeitamente cabível em uma série de tv, por exemplo). No mangá algumas liberdades cômicas se misturam bem ao caráter denso das cenas mais séries e violentas. No filme parece incoerente. Poderia aqui listar várias coisas que no mangá funcionam tão bem, mas no filme parece torto, deslocado.

Talvez o problema tenha sido justamente o fato de querer ser fiel demais ao mangá na caracterização das personagens e nas cenas, mas desrespeitando a necessidade de adaptação a um veículo tão diferente como o cinema. O "
suspension of disbelief" aqui é difícil de ser alcançado. Penso que o diretor Yukihiko Tsutsumi poderia ter tomado algumas liberdades e filmado as cenas de uma maneira diferente, desde que não perdesse a coerência ou o ritmo que dá qualidade ao mangá. Um ponto importante a destacar, e aqui possivelmente seja o cerne da questão, é que a história de 20 Century Boys não é lá nada original, mas a maneira como ela se desenlaça, com seus arcos de roteiro desenvolvidos lentamente e a jogar com as linhas temporais, é de uma inventividade cativante e genial, deixando o leitor ávido pelos próximos capítulos. A quantidade de informações detalhadas, especialmente do Japão dos anos 60 e 70 também ajuda a ambientar o leitor a um mundo que ele não viveu. Observando essas diferenças latentes entre a obra de Urasawa e sua adaptação, e mesmo tendo me antecipado a uma possível frustação, dei o play esperando que ao menos uma porção do sentimento que tive lendo o mangá se insinuasse no filme. Não foi esse o resultado. De qualquer modo ainda tenho esperança, pois esse foi só o primeiro filme de uma trilogia. Tsutsumi tem ainda mais duas tentativas para justicar (pra mim) essa adaptação de um dos melhores mangás que já tive o prazer de ler. Que ele mantenha as pedras rolando...
Quem se interessar, aqui é possível ler em inglês o mangá que deu origem ao filme:
http://www.onemanga.com/20th_Century_Boys/ou
http://www.mediafire.com/?sharekey=abc7d0154acb89b9ab1eab3e9fa335ca936aab229ee967f9