Wednesday, 2. September 2009, 14:00:31
A cena é curta e tem intenção de gracejo: Tintin em uma de suas aventuras se encontra na África fazendo um safari; após maltratar e matar a fauna local das mais diversas formas, se encontra frente a um rinoceronte e tem intenção de derrubá-lo. O método pelo qual encontra êxito é de uma imaginação nefasta em se tratando de um livro infantil.
O álbum em questão é "Tintin no Congo", quadrinhos já envolvido em uma acirrada polêmica de
racismo anos atrás. O interessante é que pouca gente atentou para a outra forma de discriminação presente nessa mesma obra de Hergé: o especismo, a segregação baseada na diferença de espécies. Por ser um tipo discriminação extremamente arraigada na sociedade é considerada um padrão normal de comportamento. Normal pelo costume, mas se visto pela análise puramente racional baseada naquilo que o homem construiu como o seu corpo ético, este assemelha-se a uma cadeira de três pernas; não se sustenta.
Essas representações da atitude humana em relação aos animais se repetem continuamente em todas as formas na industria cultural, sejam como representações de valores ou até mesmo violência real contra os animais. No cinema diretores renomados já fizeram da morte real de animais artificio para realização de suas obras. Temos, por exemplo, a famosa cena da cabeça do cavalo em
O Poderoso Chefão na qual foi usada um cavalo de verdade! Evidentemente não existia razão nenhuma para se usar um cadáver de um animal pois na época a tecnologia em efeitos especiais já permitia a construção de réplicas perfeitamente verossímeis. E mesmo que não houvesse essa tecnologia, não justifica. Do mesmo diretor,
Apocalipse Now exibe em vivas cores um búfalo sendo parcialmente decapitado e depois retalhado até a morte. Cavalos, vacas e galinhas foram barbarizados, esfolados e suas vísceras usadas para reproduzir intestinos humanos no filme
O Portal do Paraíso do diretor Michael Cimino. O caso foi parar na corte norte-americana e foi apenas um dentre tantos outros problemas que fizeram do filme um grande fracasso mundial, levando até à falência da produtora United Arts. Andrei Tarkovsky, um dos meus diretores preferidos, conhecido por sua extrema sensibilidade e espiritualismo ao tratar da vida em seus filmes, não poupou que um cavalo fosse abatido a tiros no seu filme Andrei Rublev. Bergman também mandou matar um cavalo em seu filme
The Serpent's Egg; originalmente a intenção era matar o animal em cena, não fosse a recusa do ator David Carradine. O animal foi morto nos bastidores e seu corpo já morto pode ser visto na película. No entanto, o caso mais notório pela violência exacerbada contra animais é sem dúvida a
produção b italiana Cannibal Holocaust, onde dentre outras atrocidades exibe a decapitação de um macaco e de uma tartaruga pelo simples apelo do choque visual. Atualmente essa violência é bastante contida através de uma rigorosa fiscalização e qualquer deslize nesse sentido provoca fortes reações das sociedades protetoras dos animais. Contudo, fora da esfera dos E.U.A. e alguns países da Europa, o resto do mundo continua usar da violência real em suas películas. No coreano
Oldboy uma lula é degustada ainda viva (um prato típico do país). No nosso país temos o execrável exemplo recente do programa "
No Limite". Em contrapartida o músico alemão Karlheinz Stockhausen declarou a respeito do ataque terrorista de 11 de Setembro que matou quase 3.000 pessoas que fora "
a maior obra de arte de todos os tempos". A revolta foi instantânea e inconteste. Ainda que apenas houve uma reversão de valores em termos de limites éticos. Poderia a estética se impor aos domínios da ética? Creio que a maioria das pessoas concorde que não. Deste modo a declaração daquele artista não deveria indignar mais que os exemplos supracitados.
O caso, para deixar claro, não se trata de coibir o uso da violência na ficção e sim de uma mudança de paradigma daquilo que representa a violência contra os animais. A violência em todas as suas formas pode ser apreciada como recurso estético, estrutural ou de idealização alegórica, mas o papel dos animais na grande maioria das vezes pouco tem a ver com essa posição. Outrossim, o uso da morte
real do animal é totalmente inaceitável como seria inaceitável a morte de uma pessoa humana na realização de uma obra cultural. Essa mudança de paradigma só se dará por completo quando um caso de violência contra os animais tiver valor semelhante a violência contra seres humanos. A questão é por que separamos tanto os valores que damos a nós humanos para os valores que os animais não humanos possam ter? Por que a definição da espécie tem mais valor que a própria condição de existência de um ser? Haja visto que todo animal senciente tem uma experiência de vida, uma biografia, o desejo que o impele a querer continuar vivendo e realizando o que a sua natureza ou instinto lhe convém. Aliás, a palavra instinto é uma carga pesada para os animais e subterfúgio dos especistas para defenderem a sua posição antropocentrista. Assim como os negros não tinham alma, os animais só agem por instinto - como se nós humanos só agíssemos pela razão. Hoje sabe-se que mesmo quando pensamos que estamos a fazer uso do livre arbítrio, na verdade estamos inconscientemente obedecendo aos nossos genes. Sabe-se também já há bastante tempo que alguns animais também têm capacidades proto-morais. Darwin mostrou que esses animais podem "
sentir prazer na companhia mútua, sentir compaixão uns pelos outros e realizar serviços de auxílio mútuo". Como veem não somos assim tão diferentes dos animais não humanos. O ponto principal, para deixar claro, não é respeitar os animais por uma incipiente capacidade moral da parte deles, mas toquei no ponto apenas para desmascarar um pouco esse abismo que criamos entre nós humanos e os animais não humanos. O que nos diferencia efetivamente dos animais é a consciência (ou o nível dessa) que os humanos possuem; e as consequências dessa condição de centrar-se em si fazem com que soframos de véspera. Todavia, se os animais não sofrem de véspera, sofrem sim no momento do abate. E esse ato de supressão de uma existência é tão violento e anti-ético quanto qualquer outro. A cerne da questão é, portanto, o respeito à volição alheia, se esta não significa agressão a pessoa humana. A mesma ética que repele o racismo deveria valer também para segregação especista, pois o princípio é o mesmo. Não importa se a criatura é inteligente ou não, mas se tem a capacidade de sentir dor, instinto de preservação a qualquer atitude contrária a sua integridade física, e vontade de continuar vivendo. Bebês ou deficientes mentais também não possuem a capacidade mental apurada; deveriam eles serem objetos de experiência de laboratório? Negros são discriminados por uma razão ilógica, a cor. Por que os animais devem ser tratados diferentes por serem de outra espécie? Quem lhes dá esse direito, com que base moral eles podem fazer valer esse "direito" e ainda discursar contra formas de violência contra os seus, como o racismo e o sexismo? Assim como a cor no racismo e o sexo no sexismo, a espécie do animal é usada como uma justificativa claramente
arbitrária para diferenciação de direitos. Há 150 anos Darwin provou que a diferença de espécies é puramente de gradação, não de tipo. Evoluímos, ou melhor, nos diferenciamos por razões de adaptação, e nesse processo cada animal adquiriu singularidades. Coube aos humanos desenvolverem a zona cerebral para que pudessem sobrepujar obstáculos de sobrevivência; e durante essa caminhada houve a necessidade de caçar animais e usá-los como vestimenta. Hoje, todavia, com uma base intelectual e moral já formada, conhecendo alternativas a exploração animal, parece inviável suportar o mesmo modus operandi de tempos passados. Se o homem pretende continuar usando da ética como base de sua vida social não há critério sustentável para ignorar o valor de outros seres sencientes. Outro ponto a destacar é que mesmo que o animal não reconheça o valor da ética, isso não o impede que mesmo assim possa ser contemplado por esse sistema de valor. A ética parte do homem para os outros elementos a sua volta, e não necessariamente tem que fazer o caminho contrário. É nesse sentido que asseguramos, por exemplo, o direito à vida ao nascituro.
Outra desculpa, dizem os especistas, é que os animais humanos estão no topo da cadeia alimentar. Falácia, pois há muito o homem desconfigurou seu habitat natural e vive hoje em um mundo desnaturalizado, artificial. O homem não está no topo, no meio nem embaixo de qualquer cadeia alimentar. Está em uma esfera à parte, explorando animais que sim fazem parte - ou fariam se não estivessem confinados em um sistema industrial de massacre, oportunamente chamado de Holocausto Animal por alguns defensores dos animais - de uma cadeia alimentar, de um mundo natural cada vez mais exíguo. Qualquer criança sabe que animais matam por que precisam, um ato natural desses animais, necessário a sua sobrevivência, mas homens matam e exploram por força dos hábitos e de uma indústria balizada pela ignorância de uma sociedade que não revisam suas ações. O homem tem poder de escolha, animais não.
Eliminando a religião dessa discussão, pois não se baseia na razão, não existe lógica na exclusão dos animais da amplitude de apreciação moral humana. Assoma-se novamente a imagem da cadeira de três pernas que não se sustenta. No fim as pessoas vivem os valores do passado repetidos no presente, sem questionar, sem parar para analisar puramente pela razão; pois é comum - e ouço bastante isso - que o leigo na causa especista pense que os veganos não comem ou usam animais por uma piedade infundada. Sim, existe o componente emocional, pois o horror gerado pela violência é a mesma seja qual for a espécie, mas os maiores defensores da causa são pessoas que estudam e baseiam suas ideias na cerne filosófica da questão. Todavia, difícil é convencê-lo quando a indústria insiste em falar de benefícios da exploração animal à evolução humana e a dormência cerebral causada pelos costumes e a cultura de massas propagam essas ideias a todo momento. A coisificação do animal faz tudo ser aceitável. Os fins justificam os meios dizem eles. E se os meios envolvessem pessoas? A eugenia nazista já propôs isso no século passado e hoje é sinônimo da mais perversa barbaridade. Enfim, a questão é que Hergé e todos os outros artistas que caibam nesse escopo apenas reproduziram mesmo que involuntariamente valores que a sociedade ainda cultivam em maior ou menor grau - racismo um pouco mais velado, e especismo bastante difundido. Assim como 70 anos depois a obra do artista belga produziu reações de repulsa por valores hoje considerados criminosos, imagino que num futuro - suspeito que ainda distante - nosso tratamento aos animais possa ser visto como uma postura
naturalmente anti-ética e intolerável. Na contramão de tudo isso, o cineasta francês Robert Bresson tratou o animal (um jumento) da maneira mais nobre nunca dantes vista no cinema. Em
Au Hasard Balthazar os olhos do animal exprimem tacitamente sentimentos inacessos da experiência frente a crueldade humana e podemos perceber a transcendentalidade com que uma alma pura experiencia a crueza do mundo seja ela de qualquer espécie.
Leitura recomendada: trabalhos dos filósofos Tom Regan, Peter Singer (em seus primeiros trabalhos) e Gary L. Francione. No Brasil os trabalhos da eticista Dra. Sonia Felipe.
Lista em ordem alfabética com avaliação pela "American Humane Association" do tratamento de animais em filmes com produção ou distribuição nos Estados Unidos da América
http://www.ahafilm.info/movies/movieratings.phtml