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Mix Leitor, promessa de alternativa ao caríssimo Kindle

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Deu na Folha de São Paulo: "O dinheiro para comprar um Kindle, o leitor de livros digitais da Amazon que começa a ser enviado ao Brasil nesta segunda-feira (19), poderia ser usado para adquirir 34 dos livros de papel mais vendidos no país.

O preço final do Kindle para o consumidor brasileiro é de R$ 963,32 --sem contabilizar a remessa do e-reader...A versão internacional do Kindle custa US$ 279. Mas atenção: há também a taxa de importação, de US$ 285,34. Maior que o próprio preço do aparelho, ela só é informada ao comprador no site da Amazon na última hora, antes do clique final para confirmar o pedido."

http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u639940.shtml

Impressionante como as alta taxas de importação encarecem absurdamente um produto aqui no Brasil. Para quem está interessado em um e-reader, uma alternativa de leitura e estudo mais portátil e útil que ficar carregando um notepad a tiracolo, um grupo de desenvolvedores de Recife prepara o lançamento de um aparelho similar chamado Mix Leitor. O aparelho usa a tecnologia e-ink, a mesma de aparelhos como o Kindle, produto da Amazom, como do aparelho da Barnes & Noble (ainda sem nome divulgado). Essa tecnologia permite uma leitura bem mais agrádavel aos olhos, assemelhando a tinta numa folha de papel. Além disso irá ser compatível com o formato ePub, o melhor para e-book readers pois permite uma melhor formatação adaptada aos aparelhos portatéis além de várias opções de personalização do texto. Não há certeza de lançamento, mas resta e esperança que essa iniciativa vingue no mercado. O aparelho parece ser bastante versátil como mostra a página oficial de divulgação: http://leitord.com.br/

Para quem não tem pressa em adquirir um e-book reader pode ser mais vantajoso esperar os aparelhos se estabilizarem no mercado. Além do que todos os aparelhos até agora só exibem a tela em preto e branco. A tecnologia e-ink só comportará visualização colorida daqui a aproximadamente um ou dois anos.

Dois momentos

Jackie Coogan


Christian Bale

Os demônios de Sam Raimi e Jacques Tourneur



Depois de terminar seu ciclo com as adaptações do herói aracnídeo Sam Raimi dirigiu um filme que remete a seu primeiro sucesso (ainda que mais de reverência cult que de bilheteria): a série Evil Dead. Drag Me to Hell (E.U.A., 2009) é uma volta às suas origens: o horror escatológico e cômico.

Meu primeiro contato com Sam Raimi se deu com o segundo filme da trilogia Evil Dead. Na época nem sabia que existia um primeiro filme, que logo fui atrás assim que descobri. Apesar de ter assistido em ordem cronológica contrária, a sequência é praticamente um remake do primeiro filme e deste modo não tive nenhum dano de apreciação. Anos depois viria a descobrir que Sam Raimi já havia ensaiado a mesma obra em um curta em Super 8 produzido no ano de 1978 (seu segundo filme na carreira) e já com Bruce Campbell no elenco, na época colega de faculdade. Aliás, esse curta só pude assistir recentemente dada a raridade do material. Gostei bastante do terceiro capítulo, mas ainda prefiro os dois (ou os três se considerarmos o curta) primeiros filmes da série. A inventividade do diretor a partir de um orçamento baixo é de se admirar seja no jogo de câmera, nas gags slapstick mescladas com a escatologia dos giallos dos anos 70, ou mesmo nos efeitos especiais eficientes ainda que muitas vezes ultrapassados. Com um ritmo alucinante Sam Raimi fez a melhor mistura que se poderia ter entre um trem fantasma e uma montanha russa. Nunca antes o riso e susto estiveram tão imediatamente ligados. É essa mesma linha que o diretor procurou imprimir em Drag me to Hell e posso dizer que se não é tão inventivo quanto Evil Dead - na verdade longe disso - consegue com algum sucesso um pouco do efeito que aquela série causou nas platéias.

A história de Drag me to Hell é a clássica história de maldição e o filme procura resgatar e revisitar alguns dos clichês dos clássicos filmes de terror. Duas figuras femininas se duelam nesse filme e é esse duelo que veremos mais que qualquer outra coisa na película. Alison Lohman no papel de Christine Brow trabalha em um banco e se encontra em uma situação difícil: precisa mostrar que pode ser dura quando preciso pra ganhar uma almejada promoção a um cargo superior. Mesmo com dó no coração ela nega a renovação da hipoteca à velha senhora mesmo depois dela implorar de pés no chão. A cigana, interpretada magnificamente por Lorna Raver, se julga desreispetada por ter negada seu desejo; destaca um botão da roupa da jovem e a devolve junto com uma maldição, entregando sua alma de presente a um demônio de nome Lamia (não muito a ver com a Lamia da mitologia grega). Christine começa a sofrer com as investidas de Lamia, e não possui mais que três dias até que o demônio venha resgatar de uma vez a sua alma. Lorna aparece pouco em cena mas é o seu rosto o que vemos de mais aterrador na tela, até por que Lamia, o demônio de forma humano-caprina, é mais insinuado em sombras e efeitos no curso do filme.

O que percebi, especialmente depois do final, é que Raimi faz uma clara homenagem ao clássico filme de horror Night of the Demon(Reino Unido, 1957) do diretor Jacques Tourneur. Sendo um dos meus filmes preferidos no gênero isso me pareceu mais do que claro. Mas fica mais na referência mesmo, pois o clima é totalmente diverso. Tourneur era obcecado pela revolução da psiquiatria e seus filmes, especialmente os produzidos por Val Lewton, prezavam mais pela atmosfera criada pelo efeito psicológico daquilo que não era mostrado e sim insinuado. Em Night of the Demon acompanhamos um psiquiatra renomado, Dr. Holden (Dana Andrews), que se envolve numa trama de assassinato e misticismo colocando em dúvida suas posturas contrárias as superstições, cultos e fenômenos sobrenaturais. Esse mesmo personagem é uma evidente inspiração para o namorado de Christine em Drag Me to Hell, o Dr. Clay Dalton (Justin Long), só que agora apenas como um coadjuvante na história. A versão final da Noite do Demônio foi uma imposição dos produtores e tira muito dessa insinuação de terror característica de Tourneur, mas pode ser emulada de modo eficiente através da dica que coloquei no final desse post*. Mas voltando a Drag Me to Hell percebi também que há uma bela alfinetada nos vegetarianos (dos quais faço parte) e um excesso na repetição de efeitos que mais irritam que assustam. No mais o filme até que funciona como boa reverência ao horror clássico dos anos 50, mas com a habitual escatologia herdada dos anos 70 e 80. Não é um filme de horror "sério" como o que ele com sucesso conseguiu em "The Gift", mas é sem dúvida um belo trabalho de Sam Raimi com a sua marca original que havia se diluído um pouco em anos de estrada. E é pensando nas suas origens que já se insinua uma possível filmagem de Evil Dead 4. Depois de assistir Drag me to Hell me parece que Raimi o fez um tanto para sentir se ainda tem bala na agulha pra produzir mais um filme da série, e na minha opinião já tem todo o aval pra que isso se concretize - só espero que Bruce Campbell volte no papel de Ash pois um Evil Dead sem as suas caretas seria muito frustante.

*Se algum dia se depararem com o excelente filme "Noite do Demônio", de Jacques Tourneur, recomendo que sigam essa dica para uma melhor apreciação (selecione as linhas com mouse pra visualizar):

No começo vemos um homem dirigindo para um casarão. Ele sai do carro, fecha um dos portões da garagem e se dirige para o outro portão. Neste exato momento desligue a televisão/monitor e o sistema de som por exatamente um minuto. Depois ligue novamente. É de suma importância que se faça isso pra que a experiência do filme seja muito mais satisfatória, ainda mais sabendo que essa cena foi uma imposição dos produtores e tira muito do caráter autoral do filme.

A cultura do especismo (e o especismo na cultura)

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A cena é curta e tem intenção de gracejo: Tintin em uma de suas aventuras se encontra na África fazendo um safari; após maltratar e matar a fauna local das mais diversas formas, se encontra frente a um rinoceronte e tem intenção de derrubá-lo. O método pelo qual encontra êxito é de uma imaginação nefasta em se tratando de um livro infantil.

O álbum em questão é "Tintin no Congo", quadrinhos já envolvido em uma acirrada polêmica de racismo anos atrás. O interessante é que pouca gente atentou para a outra forma de discriminação presente nessa mesma obra de Hergé: o especismo, a segregação baseada na diferença de espécies. Por ser um tipo discriminação extremamente arraigada na sociedade é considerada um padrão normal de comportamento. Normal pelo costume, mas se visto pela análise puramente racional baseada naquilo que o homem construiu como o seu corpo ético, este assemelha-se a uma cadeira de três pernas; não se sustenta.

Essas representações da atitude humana em relação aos animais se repetem continuamente em todas as formas na industria cultural, sejam como representações de valores ou até mesmo violência real contra os animais. No cinema diretores renomados já fizeram da morte real de animais artificio para realização de suas obras. Temos, por exemplo, a famosa cena da cabeça do cavalo em O Poderoso Chefão na qual foi usada um cavalo de verdade! Evidentemente não existia razão nenhuma para se usar um cadáver de um animal pois na época a tecnologia em efeitos especiais já permitia a construção de réplicas perfeitamente verossímeis. E mesmo que não houvesse essa tecnologia, não justifica. Do mesmo diretor, Apocalipse Now exibe em vivas cores um búfalo sendo parcialmente decapitado e depois retalhado até a morte. Cavalos, vacas e galinhas foram barbarizados, esfolados e suas vísceras usadas para reproduzir intestinos humanos no filme O Portal do Paraíso do diretor Michael Cimino. O caso foi parar na corte norte-americana e foi apenas um dentre tantos outros problemas que fizeram do filme um grande fracasso mundial, levando até à falência da produtora United Arts. Andrei Tarkovsky, um dos meus diretores preferidos, conhecido por sua extrema sensibilidade e espiritualismo ao tratar da vida em seus filmes, não poupou que um cavalo fosse abatido a tiros no seu filme Andrei Rublev. Bergman também mandou matar um cavalo em seu filme The Serpent's Egg; originalmente a intenção era matar o animal em cena, não fosse a recusa do ator David Carradine. O animal foi morto nos bastidores e seu corpo já morto pode ser visto na película. No entanto, o caso mais notório pela violência exacerbada contra animais é sem dúvida a produção b italiana Cannibal Holocaust, onde dentre outras atrocidades exibe a decapitação de um macaco e de uma tartaruga pelo simples apelo do choque visual. Atualmente essa violência é bastante contida através de uma rigorosa fiscalização e qualquer deslize nesse sentido provoca fortes reações das sociedades protetoras dos animais. Contudo, fora da esfera dos E.U.A. e alguns países da Europa, o resto do mundo continua usar da violência real em suas películas. No coreano Oldboy uma lula é degustada ainda viva (um prato típico do país). No nosso país temos o execrável exemplo recente do programa "No Limite". Em contrapartida o músico alemão Karlheinz Stockhausen declarou a respeito do ataque terrorista de 11 de Setembro que matou quase 3.000 pessoas que fora "a maior obra de arte de todos os tempos". A revolta foi instantânea e inconteste. Ainda que apenas houve uma reversão de valores em termos de limites éticos. Poderia a estética se impor aos domínios da ética? Creio que a maioria das pessoas concorde que não. Deste modo a declaração daquele artista não deveria indignar mais que os exemplos supracitados.

O caso, para deixar claro, não se trata de coibir o uso da violência na ficção e sim de uma mudança de paradigma daquilo que representa a violência contra os animais. A violência em todas as suas formas pode ser apreciada como recurso estético, estrutural ou de idealização alegórica, mas o papel dos animais na grande maioria das vezes pouco tem a ver com essa posição. Outrossim, o uso da morte real do animal é totalmente inaceitável como seria inaceitável a morte de uma pessoa humana na realização de uma obra cultural. Essa mudança de paradigma só se dará por completo quando um caso de violência contra os animais tiver valor semelhante a violência contra seres humanos. A questão é por que separamos tanto os valores que damos a nós humanos para os valores que os animais não humanos possam ter? Por que a definição da espécie tem mais valor que a própria condição de existência de um ser? Haja visto que todo animal senciente tem uma experiência de vida, uma biografia, o desejo que o impele a querer continuar vivendo e realizando o que a sua natureza ou instinto lhe convém. Aliás, a palavra instinto é uma carga pesada para os animais e subterfúgio dos especistas para defenderem a sua posição antropocentrista. Assim como os negros não tinham alma, os animais só agem por instinto - como se nós humanos só agíssemos pela razão. Hoje sabe-se que mesmo quando pensamos que estamos a fazer uso do livre arbítrio, na verdade estamos inconscientemente obedecendo aos nossos genes. Sabe-se também já há bastante tempo que alguns animais também têm capacidades proto-morais. Darwin mostrou que esses animais podem "sentir prazer na companhia mútua, sentir compaixão uns pelos outros e realizar serviços de auxílio mútuo". Como veem não somos assim tão diferentes dos animais não humanos. O ponto principal, para deixar claro, não é respeitar os animais por uma incipiente capacidade moral da parte deles, mas toquei no ponto apenas para desmascarar um pouco esse abismo que criamos entre nós humanos e os animais não humanos. O que nos diferencia efetivamente dos animais é a consciência (ou o nível dessa) que os humanos possuem; e as consequências dessa condição de centrar-se em si fazem com que soframos de véspera. Todavia, se os animais não sofrem de véspera, sofrem sim no momento do abate. E esse ato de supressão de uma existência é tão violento e anti-ético quanto qualquer outro. A cerne da questão é, portanto, o respeito à volição alheia, se esta não significa agressão a pessoa humana. A mesma ética que repele o racismo deveria valer também para segregação especista, pois o princípio é o mesmo. Não importa se a criatura é inteligente ou não, mas se tem a capacidade de sentir dor, instinto de preservação a qualquer atitude contrária a sua integridade física, e vontade de continuar vivendo. Bebês ou deficientes mentais também não possuem a capacidade mental apurada; deveriam eles serem objetos de experiência de laboratório? Negros são discriminados por uma razão ilógica, a cor. Por que os animais devem ser tratados diferentes por serem de outra espécie? Quem lhes dá esse direito, com que base moral eles podem fazer valer esse "direito" e ainda discursar contra formas de violência contra os seus, como o racismo e o sexismo? Assim como a cor no racismo e o sexo no sexismo, a espécie do animal é usada como uma justificativa claramente arbitrária para diferenciação de direitos. Há 150 anos Darwin provou que a diferença de espécies é puramente de gradação, não de tipo. Evoluímos, ou melhor, nos diferenciamos por razões de adaptação, e nesse processo cada animal adquiriu singularidades. Coube aos humanos desenvolverem a zona cerebral para que pudessem sobrepujar obstáculos de sobrevivência; e durante essa caminhada houve a necessidade de caçar animais e usá-los como vestimenta. Hoje, todavia, com uma base intelectual e moral já formada, conhecendo alternativas a exploração animal, parece inviável suportar o mesmo modus operandi de tempos passados. Se o homem pretende continuar usando da ética como base de sua vida social não há critério sustentável para ignorar o valor de outros seres sencientes. Outro ponto a destacar é que mesmo que o animal não reconheça o valor da ética, isso não o impede que mesmo assim possa ser contemplado por esse sistema de valor. A ética parte do homem para os outros elementos a sua volta, e não necessariamente tem que fazer o caminho contrário. É nesse sentido que asseguramos, por exemplo, o direito à vida ao nascituro.

Outra desculpa, dizem os especistas, é que os animais humanos estão no topo da cadeia alimentar. Falácia, pois há muito o homem desconfigurou seu habitat natural e vive hoje em um mundo desnaturalizado, artificial. O homem não está no topo, no meio nem embaixo de qualquer cadeia alimentar. Está em uma esfera à parte, explorando animais que sim fazem parte - ou fariam se não estivessem confinados em um sistema industrial de massacre, oportunamente chamado de Holocausto Animal por alguns defensores dos animais - de uma cadeia alimentar, de um mundo natural cada vez mais exíguo. Qualquer criança sabe que animais matam por que precisam, um ato natural desses animais, necessário a sua sobrevivência, mas homens matam e exploram por força dos hábitos e de uma indústria balizada pela ignorância de uma sociedade que não revisam suas ações. O homem tem poder de escolha, animais não.

Eliminando a religião dessa discussão, pois não se baseia na razão, não existe lógica na exclusão dos animais da amplitude de apreciação moral humana. Assoma-se novamente a imagem da cadeira de três pernas que não se sustenta. No fim as pessoas vivem os valores do passado repetidos no presente, sem questionar, sem parar para analisar puramente pela razão; pois é comum - e ouço bastante isso - que o leigo na causa especista pense que os veganos não comem ou usam animais por uma piedade infundada. Sim, existe o componente emocional, pois o horror gerado pela violência é a mesma seja qual for a espécie, mas os maiores defensores da causa são pessoas que estudam e baseiam suas ideias na cerne filosófica da questão. Todavia, difícil é convencê-lo quando a indústria insiste em falar de benefícios da exploração animal à evolução humana e a dormência cerebral causada pelos costumes e a cultura de massas propagam essas ideias a todo momento. A coisificação do animal faz tudo ser aceitável. Os fins justificam os meios dizem eles. E se os meios envolvessem pessoas? A eugenia nazista já propôs isso no século passado e hoje é sinônimo da mais perversa barbaridade. Enfim, a questão é que Hergé e todos os outros artistas que caibam nesse escopo apenas reproduziram mesmo que involuntariamente valores que a sociedade ainda cultivam em maior ou menor grau - racismo um pouco mais velado, e especismo bastante difundido. Assim como 70 anos depois a obra do artista belga produziu reações de repulsa por valores hoje considerados criminosos, imagino que num futuro - suspeito que ainda distante - nosso tratamento aos animais possa ser visto como uma postura naturalmente anti-ética e intolerável. Na contramão de tudo isso, o cineasta francês Robert Bresson tratou o animal (um jumento) da maneira mais nobre nunca dantes vista no cinema. Em Au Hasard Balthazar os olhos do animal exprimem tacitamente sentimentos inacessos da experiência frente a crueldade humana e podemos perceber a transcendentalidade com que uma alma pura experiencia a crueza do mundo seja ela de qualquer espécie.


Leitura recomendada: trabalhos dos filósofos Tom Regan, Peter Singer (em seus primeiros trabalhos) e Gary L. Francione. No Brasil os trabalhos da eticista Dra. Sonia Felipe.

Lista em ordem alfabética com avaliação pela "American Humane Association" do tratamento de animais em filmes com produção ou distribuição nos Estados Unidos da América
http://www.ahafilm.info/movies/movieratings.phtml

Vida Cabiria


Olvidar os escárnios; evitar aqueles que te impelem ao precipício; manter a fleuma e seguir a vida - essa vida cabiria. E dançar ao ritmo que a vida dá. Afinal, tudo passa.

Lovecraft em português

Recebi nesta semana meu exemplar do livro "O Chamado de Cthulhu e Outros Contos", da editora Hedra. Reúne alguns contos de H. P. Lovecraft, entre eles uma tradução inédita em nosso país, além de uma carta e um texto do autor onde discorre sobre como escrever um conto de literatura fantástica. O formato é de livro de bolso, mas nem por isso os editores descartaram uma edição caprichada com boa diagramação e arte, e a boa tradução de Guilherme da Silva Braga - salvo alguns pequenos erros - e que também escreve a excelente introdução do livro contando um pouco do estilo de escrita e correlacionando-o à vida do homem por trás das letras.

Ler Lovecraft é uma experiência única, dono de uma escrita muito bem trabalhada, extremamente descritiva, por vezes sensual e quase sempre tétrica, seus contos tendem a situar o leitor em um mundo extraterreno mesmo nos ambientes e lugares mais comuns; nesses contos há uma sensação de suspensão do tempo e espaço e o caráter altamente descritivo de sua literatura ajuda a ambientar o leitor e fazer crível as surpresas que o aguardam. Na carta publicada na edição da Hedra escreve o autor sobre a escolha da literatura fantástica como o seu veio artístico: "um dos meus desejos mais ardentes e perenes é criar, por alguns instantes, a ilusão de uma estranha suspensão ou violação dos irritantes limites impostos pelo tempo, pelo espaço e pelas leis naturais que eternamente nos aprisionam e frustam nossa curiosidade relativas aos espaços cósmicos infinitos além do alcance de nossa visão e de nossa análise". Lovecraft poderia ser descrito como um escritor musical devido ao primoroso senso de ritmo que sua escrita apresenta-se ao leitor. Geralmente lento no ínicio, ambientando o leitor a todos os pormenores da história, algumas descrições tão sucintas e precisas que se assemelham a staccatos, e por fim um crescendo de insinuações terríveis que remetem a Stravinsky. Ao final uma coda, às vezes nem isso, terminando a música subitamente, exaurindo o leitor de esperanças e deixando na memória as sombras daquilo que acabou de ler (ouvir). A propósito, o conto inédito nessa edição da Hedra trata exatamente da música: Em "A Música de Erich Zann" a primeira arte funciona como elemento descritivo de sons sobrenaturais e inimagináveis.

Nascido em 1890 nos Estados Unidos, Lovecraft teve uma vida conturbada: teve o pai internado em um manicômio e falecendo poucos anos mais tarde, sua mãe não teve melhor sorte e também sofreu de insanidade mental, apesar de ter nascido em família abastada passou grande parte da vida adulta a míngua, casou-se uma vez mas o matrimônio não evoluiu bem e por fim acabou morrendo sozinho de câncer de intestino. Sua obra veio a lume em revistas pulps entre os anos 30 e 40, mas notoriamente na revista Weird Tales. Durante sua vida nunca foi levado a sério pela "literatura oficial" e não teve o reconhecimento que merecia. Postumamente amigos escritores ajudaram a publicar e fazer notória sua fantástica obra. Alguns desses escritores (August William Derleth, Robert E. Howard, entre outros) até colaboraram para o enriquecimento do que agora é chamado de "mitos de Cthulhu" - muitos dos contos de Lovecraft são correlacionados, tratando de seres extraterrenos que hoje povoam silenciosamente as profundezas abissais. Nesses contos há uma imersão do gênero horror com a ficção científica com uma quê de poesia mórbida, demostrando que o escritor possuía um senso de atualidade incomum aos autores do gênero na época. Muitos desses contos tratam de relatos de homens comuns que por acaso do destino se envolvem em mundo sombrio do qual quase sempre não tem volta, denunciando tacitamente a visão de Lovecraft sobre a humanidade: Para ele somos seres insignificantes, despreparados ou incapazes de compreender os segredos da vastidão cósmica. Talvez por um pensamento análogo aprecio intimamente a obra de Howard Philip Lovecraft.

Para os fãs de literatura fantástica - ou simplesmente fãs de boa literatura - Lovecraft é imprescindível em uma biblioteca. Ainda falta em nosso país uma edição completa ou pelo menos mais abrangente da produção artística do escritor norte-americano, mas dada a carência de títulos do autor é mais que louvável a iniciativa da Editora Hedra. Esperemos que essa ou outra boa editora cogite publicar algo do tipo em um futuro próximo.

Pra finalizar segue um trecho do conto "O que a Lua traz consigo" que representa bem o estilo descritivo, poético e lúgubre de Lovecraft.

E enquanto eu caminhava pelo raso córrego cristalino percebi extraordinárias ondulações rematadas por uma luz amarela, como se aquelas águas plácidas fossem arrastadas por correntezas irresistíveis em direção a estranhos oceanos para além deste mundo. Silentes e suaves, frescas e fúnebres, as águas amaldiçoadas pela lua corriam a um destino ignorado; enquanto, dos caramanchões à margem, flores brancas de lótus desprendiam-se uma a uma no vento opiáceo da noite e caíam desesperadas na correnteza, rodopiando em um torvelinho horrível por sob o arco da ponte entalhada e olhando para trás com a resignação sinistra de serenos rostos mortos.




Título: O Chamado de Cthulhu e Outros Contos
Tradutor: Guilherme da Silva Braga
Editora: Hedra http://www.hedra.com.br
Onde comprar: baratinho, R$ 17,00 :yes: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2822101&sid=01961896611718686387246611&k5=33300095&uid=

O deserto nosso de todos os dias

O tempo passou tão veloz que a alma não conseguiu envelhecer. E, mesmo que a angústia obscura das horas que passam se torne cada dia maior, Drogo persiste na ilusão de que o importante ainda está para começar.

O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati Traverso





Existem certos livros que traduzem com perfeição um dado momento de nossas vidas. Às vezes, por acaso do destino, esse livro acaba nos caindo em mãos durante a própria vivência desse período. Lê-lo ao mesmo tempo em que se vive o que está escrito é como apreciar um tratado poético da realidade ainda crua e pulsante. Acredite: pode ser terrível, como a verdade muitas vezes é, mas também revelador e purgativo.

O Deserto dos Tártaros, escrito pelo italiano Dino Buzzati em 1940 é um desses livros. Nele acompanhamos o então tenente Drogo a caminho do Forte Bastiani. Um lugar desolado, fronteira esquecida por todos, até mesmo pelos então aclamados e desejados míticos inimigos tártaros. Aqueles que servem no Forte Bastiani percebem em pouco tempo que os tártaros não são nada mais que um artifício que viceja de esperança necessária para suportar a morosidade e inutilidade do lugar. Os mais espertos procuraram todas as formas de transferência para lugares mais auspiciosos; os mais velhos, já atados ao forte pela burocracia, estorvo a qualquer mudança de ares, acomodaram-se a rotina militar. Rotina essa que mata qualquer relação mais pessoal entre os homens transformando-os em não mais que zumbis, hipnotizados pelos hábitos e ermo dos vastos planaltos. Drogo, oficial de 20 anos esperançoso em atuar em alguma batalha e fazer uma carreira militar honrosa e invejada, espera ficar apenas alguns meses no forte. Todavia, o destino, que não é uma simples força fortuita e sim equacionada muito pelas escolhas na vida, faz com que o jovem tenente fique muito mais tempo do que ele uma vez imaginara.

Nunca uma obra falou tão bem dessa coisa abjeta que é o comodismo. Vício que mata a semente da boa ambição, e é ainda mais traiçoeiro quando regado por um longínquo fio de esperança. Deste modo uma situação incômoda pode muitas vezes tornar-se íntima e tranquilizante, até mesmo acalentadora, minando a alma do homem. Um câncer que corrói silenciosamente qualquer arrimo de uma estrutura possível de ser edificada. Silencioso porque os dias na nossa vida rotineira podem parecer iguais, mas mesmo que a alma não sinta, a areia do tempo está a escorrer pela ampulheta. Inexorável. E se algo de grande importância acontecer, pode já ser tarde demais para usufruí-lo.

[Opera Browser] Como impedir que o Opera abra a novas abas em primeiro plano

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Essa dica eu sempre esqueço e resolvi fazer um post para memorizá-la de uma vez (e, claro, ajudar também alguém que esteja com o mesmo problema).

Pra quem abre muitas abas no navegador pode ser irritante que as novas abas sejam abertas em primeiro plano. Para impedir isso faça o seguinte:

Ferramentas (no menu ou atalho ctrl+f12) -> Preferências -> Avançado -> Conteúdo -> Opções de JavaScript

Desmarca Permitir as opções "aumento de janelas" e "Permitir redução de janelas". Dê Ok.


Pronto! Agora quando você clicar com o botão do meio nos links, essas novas abas irão abrir em segundo plano.

Antes do 3D: movimento paralaxe


Em 1982 um jogo para arcade chamado Moon Patrol (Patrulha Lunar) usou um recurso que ditaria o rumo dos gráficos em 2D. O recurso em questão é o movimento paralaxe, comum em quase todos os jogos side-scrolling (vistos apenas com uma visão lateral fixa) dos anos 80 e 90, e que permitiu dar uma ilusão de profundidade e perspectiva em um ambiente em movimento. Uma espécie de pseudo-3D.

Paralaxe vem do grego e significa alteração. Por definição é a aparente mudança espacial de um objeto causado pela mudança da posição do observador. Figuras mais próximos do obervador tem uma maior paralaxe que figuras mais distantes. Um exemplo prático: Todo mundo já notou que quando está numa viagem, ao olhar pela janela lateral de um carro em movimento, os objetos mais próximos da janela parecem passar em maior velocidade. Por outro lado, uma casa que esteja um pouco mais longe parece passar mais devagar e uma montanha que esteja a quilômetros de distância parece estar praticamente estática. Deste modo, árvores próximas a estrada têm uma maior paralaxe que uma casa situada em média distância, que por sua vez tem uma maior paralaxe que a montanha ao longe, que parece estática. Na astrologia a paralaxe é um recurso importantíssimo para determinar a posição de um astro em relação a terra, fazendo uso de triangulações a partir das posições desses astros em datas diferentes em relação ao sol. A paralaxe também é parte importante de nossos sentidos de profundidade e localização espacial. O fato de termos dois olhos permitem que cada olho tenha uma visão diferente do objeto. Experimente ver um objeto com um olho de cada vez. Percebe-se que cada olho registra um ângulo diferente do objeto. O que o cérebro faz é mesclar essas duas imagens captadas por cada olho, dando ao indivíduo uma maior capacidade intuitiva de perceber espacialmente esse objeto. Tudo isso é apenas pra ter uma ideia da complexidade de um tema aparentemente simples. Vamos então ao que interessa: o uso do movimento paralaxe nos video games.

Em Moon Patrol os desenvolvedores do game usaram algo já conhecido na animação e ainda mais difundido nos cenários usados em peças de teatro. Fazendo uso de diversas camadas, onde as camadas colocadas mais ao fundo se movimentam mais devagar que as camadas posicionadas mais a frente.

Um exemplo de paralaxe:

Neste exemplo existem duas camadas. A primeira camada (os pilares) se movimentam em uma determinada velocidade, e uma segunda camada (o muro) é posicionada atrás da primeira e com uma velocidade bem mais inferior. Desta maneira se produz uma ilusão de profundidade tridimensional.


O efeito é realmente impressionante e os games desenvolvidos na época exploraram ao máximo este recurso, aprimorando mais tarde com outras técnicas. O uso de múltiplas camadas é um agravante a naturalidade do movimento em perspectiva. Se o recurso fosse mal usado poderia criar um efeito artificial aos olhos. Jogos como Sonic the Hedgehog 3 mostram quão bem a paralaxe pode ser usada para enriquecer graficamente o ambiente. Mesmo com o uso de diversas camadas, os programadores conseguiram calcular bem a velociade relativa de cada uma. Destaque para a fase Hydrocity Zone onde perspectiva da água muda conforme Sonic se posiciona acima ou abaixo dela.
Veja o vídeo:

Contudo, em muito outros jogos esse cálculo foi usado, alguns talvez intencionalmente, de uma maneira não tão harmoniosa.

Versão teste de Shadow of the Beast com uma paralaxe exagerada:
Note como a velocidade com que as nuvens passam é inverossímil

E pra finalizar nos exemplos, o clássico Moon Patrol:

Atualmente, na era do 3D, o uso do movimento paralaxe na indústria dos games está praticamente extinto. Street Figher que tando fez uso deste recurso (assim como praticamente todos os side-scrollings da época), adota hoje em seu mais novo game da franquia, Street Figher IV, o recurso 3D ao invés da paralaxe (no sentido clássico da técnica). Neste novo game as personagens são 2D em um ambiente totalmente 3D. Apesar do efeito ser bem mais realístico, algumas pessoas ainda preferem o efeito do velho movimento paralaxe. Talvez por nostalgia.

Street Figher IV

Watch your pockets!



Entendo do negócio; farejo-o de longe. Ouvido aberto, mirada rápida e mãos leves são indispensáveis a todo batedor de carteira..Todo beco, toda loja, igreja, sessão, todo enforcamento dá trabalho a quem quer que cuide de seus interesses.


Autólico em "Conto de Inverno" de William Shakespeare



Na mitologia grega a relação entre a agilidade e o ato de roubar se apresenta nas figuras de Autólico - conhecido como o rei dos ladrões, ícone da esperteza e desonestidade - que por sua vez é filho de Hermes (Mercúrio para os romanos), mensageiro dos deuses, deus do comércio e dos ladrões - como se vê, não é de se estranhar que façamos relação entre comércio e roubo, pois quando se fala em dinheiro e agilidade, essas duas ações não tão distintamente ligadas se fazem presentes. E dentre todos as formas de roubo, o furto através do pickpocket (bater carteiras) é um dos mais comuns, variando de puro oportunismo a uma verdadeira arte que requer grande destreza do malfeitor. Essa habilidade de locupletar com artimanhas finórias e engenhosas sem uso da violência física é tão fascinante que foi transportada das ruas para os palcos através dos espetáculos de mágica. A diferença é que enquanto o prestidigitador usa o pickpocket para mostrar destreza manual a uma atenta platéia, o batedor de carteiras prefere que ninguém o veja no ato de seu ofício. Como não poderia deixar de ser, essa arte também já foi mostrada várias vezes nos cinemas.

É crível validar a tese que diz que o batedor de carteiras não só age por necessidade mas também por compulsão. Influenciado pelo meio em que vive, existe entre os colegas de profissão uma disputa de merecimento do mais ardiloso e habilidoso. Essa compulsão é mostrada no filme Pickpocket, de Robert Bresson, no qual Michel é um jovem comum com sentimentos de superioriade e que faz de sua maestria em furtos inapercebidos o meio de se validar como pessoa; o que ao final se prova um erro e leva Michel, como em Raskolnikov de Crime e Castigo, a procurar a redenção de seus atos. Em Midnight Cowboy o ato de bater carteiras é mostrado como uma faceta da vida miserável, um dos meios de sobrevivência das personagens Ratso Rizzo (Dustin Hoffman) e Joe Buck (John Voight) na selvagem New York. Divergindo dessas duas abordagens, Sparrow (Man jeuk), de Johnnie To, mostra o pickpocket como um verdadeiro balé com seus movimentos graciosos de mãos, olhares e dissimulações engendrados em conjunto e exibidos em caprichosa edição e grandiosa cinematografia. Com as mãos leves de um batedor Johnnie To faz bom uso do humor e o filme é quase destituído de violência (existe apenas uma cena mais violenta, mas que traz consequencia humoristica logo em seguida). A trama é centrada na bela Chung Chun Lei (Kelly Lin) que, como um pardal preso na gaiola, tem sua vida vigiada e controlada por um bem sucedido gangster de Hong Kong. A femme fatale procura ajuda de uma simpática gangue de batedores de carteiras e ao final uma disputa de pickpocket é usada para definir seu destino. Se com Bresson se discute a moral pela mera observância dos atos de seus personagens, Johnnie To se abstém de qualquer discussão nesse sentido. O aspecto moral do ato do furto é praticamente esquecido, levando o espectador a aceitá-lo como algo normal e a ver a gangue de batedores como bons moços fazendo pequenos pecados livres de uma punição mais séria. Em contraste, numa cena um policial é mostrado como um paspalho, não mais preparado a se proteger dos batedores que um cidadão comum.

Aspecto moral de lado, Sparrow pode ser encarado como uma comédia romântica passível de ser apreciada pela sua cinematografia e excelente música. Alías, a música é elemento extremamente importante no filme. Ainda que os atores não cantem, Sparrow é praticamente um musical com seus atos de coreografia e a música de motivos jazzísticos e orientais a conduzir as personagens e criar atmosferas sensuais durante o filme. Sensualidade que não só se observa na bela presença de Kelly Lin, mas também nos atos de furtos.

Para os amantes da boa música a excelente trilha composta por Xavier Jamaux e Fred Avril para o filme Sparrow pode ser baixada aqui:
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