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Posts tagged with "Literatura"

Mix Leitor, promessa de alternativa ao caríssimo Kindle

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Deu na Folha de São Paulo: "O dinheiro para comprar um Kindle, o leitor de livros digitais da Amazon que começa a ser enviado ao Brasil nesta segunda-feira (19), poderia ser usado para adquirir 34 dos livros de papel mais vendidos no país.

O preço final do Kindle para o consumidor brasileiro é de R$ 963,32 --sem contabilizar a remessa do e-reader...A versão internacional do Kindle custa US$ 279. Mas atenção: há também a taxa de importação, de US$ 285,34. Maior que o próprio preço do aparelho, ela só é informada ao comprador no site da Amazon na última hora, antes do clique final para confirmar o pedido."

http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u639940.shtml

Impressionante como as alta taxas de importação encarecem absurdamente um produto aqui no Brasil. Para quem está interessado em um e-reader, uma alternativa de leitura e estudo mais portátil e útil que ficar carregando um notepad a tiracolo, um grupo de desenvolvedores de Recife prepara o lançamento de um aparelho similar chamado Mix Leitor. O aparelho usa a tecnologia e-ink, a mesma de aparelhos como o Kindle, produto da Amazom, como do aparelho da Barnes & Noble (ainda sem nome divulgado). Essa tecnologia permite uma leitura bem mais agrádavel aos olhos, assemelhando a tinta numa folha de papel. Além disso irá ser compatível com o formato ePub, o melhor para e-book readers pois permite uma melhor formatação adaptada aos aparelhos portatéis além de várias opções de personalização do texto. Não há certeza de lançamento, mas resta e esperança que essa iniciativa vingue no mercado. O aparelho parece ser bastante versátil como mostra a página oficial de divulgação: http://leitord.com.br/

Para quem não tem pressa em adquirir um e-book reader pode ser mais vantajoso esperar os aparelhos se estabilizarem no mercado. Além do que todos os aparelhos até agora só exibem a tela em preto e branco. A tecnologia e-ink só comportará visualização colorida daqui a aproximadamente um ou dois anos.

Lovecraft em português

Recebi nesta semana meu exemplar do livro "O Chamado de Cthulhu e Outros Contos", da editora Hedra. Reúne alguns contos de H. P. Lovecraft, entre eles uma tradução inédita em nosso país, além de uma carta e um texto do autor onde discorre sobre como escrever um conto de literatura fantástica. O formato é de livro de bolso, mas nem por isso os editores descartaram uma edição caprichada com boa diagramação e arte, e a boa tradução de Guilherme da Silva Braga - salvo alguns pequenos erros - e que também escreve a excelente introdução do livro contando um pouco do estilo de escrita e correlacionando-o à vida do homem por trás das letras.

Ler Lovecraft é uma experiência única, dono de uma escrita muito bem trabalhada, extremamente descritiva, por vezes sensual e quase sempre tétrica, seus contos tendem a situar o leitor em um mundo extraterreno mesmo nos ambientes e lugares mais comuns; nesses contos há uma sensação de suspensão do tempo e espaço e o caráter altamente descritivo de sua literatura ajuda a ambientar o leitor e fazer crível as surpresas que o aguardam. Na carta publicada na edição da Hedra escreve o autor sobre a escolha da literatura fantástica como o seu veio artístico: "um dos meus desejos mais ardentes e perenes é criar, por alguns instantes, a ilusão de uma estranha suspensão ou violação dos irritantes limites impostos pelo tempo, pelo espaço e pelas leis naturais que eternamente nos aprisionam e frustam nossa curiosidade relativas aos espaços cósmicos infinitos além do alcance de nossa visão e de nossa análise". Lovecraft poderia ser descrito como um escritor musical devido ao primoroso senso de ritmo que sua escrita apresenta-se ao leitor. Geralmente lento no ínicio, ambientando o leitor a todos os pormenores da história, algumas descrições tão sucintas e precisas que se assemelham a staccatos, e por fim um crescendo de insinuações terríveis que remetem a Stravinsky. Ao final uma coda, às vezes nem isso, terminando a música subitamente, exaurindo o leitor de esperanças e deixando na memória as sombras daquilo que acabou de ler (ouvir). A propósito, o conto inédito nessa edição da Hedra trata exatamente da música: Em "A Música de Erich Zann" a primeira arte funciona como elemento descritivo de sons sobrenaturais e inimagináveis.

Nascido em 1890 nos Estados Unidos, Lovecraft teve uma vida conturbada: teve o pai internado em um manicômio e falecendo poucos anos mais tarde, sua mãe não teve melhor sorte e também sofreu de insanidade mental, apesar de ter nascido em família abastada passou grande parte da vida adulta a míngua, casou-se uma vez mas o matrimônio não evoluiu bem e por fim acabou morrendo sozinho de câncer de intestino. Sua obra veio a lume em revistas pulps entre os anos 30 e 40, mas notoriamente na revista Weird Tales. Durante sua vida nunca foi levado a sério pela "literatura oficial" e não teve o reconhecimento que merecia. Postumamente amigos escritores ajudaram a publicar e fazer notória sua fantástica obra. Alguns desses escritores (August William Derleth, Robert E. Howard, entre outros) até colaboraram para o enriquecimento do que agora é chamado de "mitos de Cthulhu" - muitos dos contos de Lovecraft são correlacionados, tratando de seres extraterrenos que hoje povoam silenciosamente as profundezas abissais. Nesses contos há uma imersão do gênero horror com a ficção científica com uma quê de poesia mórbida, demostrando que o escritor possuía um senso de atualidade incomum aos autores do gênero na época. Muitos desses contos tratam de relatos de homens comuns que por acaso do destino se envolvem em mundo sombrio do qual quase sempre não tem volta, denunciando tacitamente a visão de Lovecraft sobre a humanidade: Para ele somos seres insignificantes, despreparados ou incapazes de compreender os segredos da vastidão cósmica. Talvez por um pensamento análogo aprecio intimamente a obra de Howard Philip Lovecraft.

Para os fãs de literatura fantástica - ou simplesmente fãs de boa literatura - Lovecraft é imprescindível em uma biblioteca. Ainda falta em nosso país uma edição completa ou pelo menos mais abrangente da produção artística do escritor norte-americano, mas dada a carência de títulos do autor é mais que louvável a iniciativa da Editora Hedra. Esperemos que essa ou outra boa editora cogite publicar algo do tipo em um futuro próximo.

Pra finalizar segue um trecho do conto "O que a Lua traz consigo" que representa bem o estilo descritivo, poético e lúgubre de Lovecraft.

E enquanto eu caminhava pelo raso córrego cristalino percebi extraordinárias ondulações rematadas por uma luz amarela, como se aquelas águas plácidas fossem arrastadas por correntezas irresistíveis em direção a estranhos oceanos para além deste mundo. Silentes e suaves, frescas e fúnebres, as águas amaldiçoadas pela lua corriam a um destino ignorado; enquanto, dos caramanchões à margem, flores brancas de lótus desprendiam-se uma a uma no vento opiáceo da noite e caíam desesperadas na correnteza, rodopiando em um torvelinho horrível por sob o arco da ponte entalhada e olhando para trás com a resignação sinistra de serenos rostos mortos.




Título: O Chamado de Cthulhu e Outros Contos
Tradutor: Guilherme da Silva Braga
Editora: Hedra http://www.hedra.com.br
Onde comprar: baratinho, R$ 17,00 :yes: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2822101&sid=01961896611718686387246611&k5=33300095&uid=

O deserto nosso de todos os dias

O tempo passou tão veloz que a alma não conseguiu envelhecer. E, mesmo que a angústia obscura das horas que passam se torne cada dia maior, Drogo persiste na ilusão de que o importante ainda está para começar.

O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati Traverso





Existem certos livros que traduzem com perfeição um dado momento de nossas vidas. Às vezes, por acaso do destino, esse livro acaba nos caindo em mãos durante a própria vivência desse período. Lê-lo ao mesmo tempo em que se vive o que está escrito é como apreciar um tratado poético da realidade ainda crua e pulsante. Acredite: pode ser terrível, como a verdade muitas vezes é, mas também revelador e purgativo.

O Deserto dos Tártaros, escrito pelo italiano Dino Buzzati em 1940 é um desses livros. Nele acompanhamos o então tenente Drogo a caminho do Forte Bastiani. Um lugar desolado, fronteira esquecida por todos, até mesmo pelos então aclamados e desejados míticos inimigos tártaros. Aqueles que servem no Forte Bastiani percebem em pouco tempo que os tártaros não são nada mais que um artifício que viceja de esperança necessária para suportar a morosidade e inutilidade do lugar. Os mais espertos procuraram todas as formas de transferência para lugares mais auspiciosos; os mais velhos, já atados ao forte pela burocracia, estorvo a qualquer mudança de ares, acomodaram-se a rotina militar. Rotina essa que mata qualquer relação mais pessoal entre os homens transformando-os em não mais que zumbis, hipnotizados pelos hábitos e ermo dos vastos planaltos. Drogo, oficial de 20 anos esperançoso em atuar em alguma batalha e fazer uma carreira militar honrosa e invejada, espera ficar apenas alguns meses no forte. Todavia, o destino, que não é uma simples força fortuita e sim equacionada muito pelas escolhas na vida, faz com que o jovem tenente fique muito mais tempo do que ele uma vez imaginara.

Nunca uma obra falou tão bem dessa coisa abjeta que é o comodismo. Vício que mata a semente da boa ambição, e é ainda mais traiçoeiro quando regado por um longínquo fio de esperança. Deste modo uma situação incômoda pode muitas vezes tornar-se íntima e tranquilizante, até mesmo acalentadora, minando a alma do homem. Um câncer que corrói silenciosamente qualquer arrimo de uma estrutura possível de ser edificada. Silencioso porque os dias na nossa vida rotineira podem parecer iguais, mas mesmo que a alma não sinta, a areia do tempo está a escorrer pela ampulheta. Inexorável. E se algo de grande importância acontecer, pode já ser tarde demais para usufruí-lo.

Koji Yamamura - Kafka Inaka Isha (2007)

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Kafka Inaka Isha, baseado na obra original de Franz Kafka, é uma imersão a condição absurda da psique humana. Logo no início a personagem Rosa afirma surpresa: "Nunca se sabe o que se pode descobrir na própria casa". Talvez aí já uma alusão ao inconsciente e imprevisibilidade que virá a seguir por toda a obra.

No conto um médico é convocado às pressas para atender um doente em uma outra vila a milhas de distância. O terrível inverno matou o seu cavalo e ninguém na aldeia se arrisca a emprestar seus animais com receio de um mesmo destino. Até que um desconhecido aparece no seu próprio curral oferecendo dois cavalos. Kafka concebe nessa obra uma relação de eventos relacionados logicamente com eventos puramente experienciados e sem lógica causal. Na "história" - se é que podemos assim definir o conto - o médico tende a manter-se em si, refletindo as situações até que ao final se entrega ao turbilhão de eventos, totalmente rendido. É uma parábola sobre a mente humana, que tende a ordenar, imbuindo de significados e valores aquilo que está além de qualquer significado e relativismo. Talvez o próprio escritor tentando entender a si mesmo, e em consequência vislumbrando a impotência de tal ato. Uma cena importante que exemplifica isso é quando o médico é forçadamente desnudo, o que implica uma renúncia às convicções e dogmas assimilados. Uma entrega à própria situação absurda e aproximação com aquilo que não se pode resolver (a cura do enfermo).

Deste modo, um dos pontos mais interessantes em "Um Médico de Aldeia" é que o caráter aparentemente simbólico do conto convida o leitor a cair na armadilha da análise literal. Aquele que assim o faz, como a personagem do médico, se perderá na cadeia de eventos - ao tentar desvendar a cerne de "O Médico da Aldeia" eu mesmo estou a cair na armadilha armada pelo autor! Kafka cria, portanto, uma metáfora a própria impossibilidade da análise lógica. Genial!

Concernente a animação, Yamamura foi estritamente fiel ao texto de Kafka. O absurdo presente no texto é transposto não só pelas falas como também visualmente pelas desproporções, camadas e filtros aplicados na tela. A cabeça do médico todo o tempo infla e se contrai, talvez a invocar a imprevisibilidade dos pensamentos e a loucura instaurada. Yamumara ainda adiciona ao texto original algumas cenas que remetem a esse desvario presente da experiência sobrenatural - a cena da lua, por exemplo.

Kafka Inaka Isha é uma animação não só visualmente satisfatória em estilo e execução como também extremamente rica de conteúdo. Na minha opinião uma das melhores adaptações de uma obra literária para o cinema; e acredito que isso só se deu nesse caso em particular por ser uma obra em animação. Arte visual que permite uma gama inimaginável de criação e recurso estético.



Mais Yamamura: http://www.yamamura-animation.jp/index.html
O conto original: http://virtualbooks.terra.com.br/freebook/traduzidos/download/um_medico_de_aldeia.pdf
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