Monday, 24. August 2009, 07:38:27

Recebi nesta semana meu exemplar do livro "O Chamado de Cthulhu e Outros Contos", da editora Hedra. Reúne alguns contos de H. P. Lovecraft, entre eles uma tradução inédita em nosso país, além de uma carta e um texto do autor onde discorre sobre como escrever um conto de literatura fantástica. O formato é de livro de bolso, mas nem por isso os editores descartaram uma edição caprichada com boa diagramação e arte, e a boa tradução de Guilherme da Silva Braga - salvo alguns pequenos erros - e que também escreve a excelente introdução do livro contando um pouco do estilo de escrita e correlacionando-o à vida do homem por trás das letras.
Ler Lovecraft é uma experiência única, dono de uma escrita muito bem trabalhada, extremamente descritiva, por vezes sensual e quase sempre tétrica, seus contos tendem a situar o leitor em um mundo extraterreno mesmo nos ambientes e lugares mais comuns; nesses contos há uma sensação de suspensão do tempo e espaço e o caráter altamente descritivo de sua literatura ajuda a ambientar o leitor e fazer crível as surpresas que o aguardam. Na carta publicada na edição da Hedra escreve o autor sobre a escolha da literatura fantástica como o seu veio artístico:
"um dos meus desejos mais ardentes e perenes é criar, por alguns instantes, a ilusão de uma estranha suspensão ou violação dos irritantes limites impostos pelo tempo, pelo espaço e pelas leis naturais que eternamente nos aprisionam e frustam nossa curiosidade relativas aos espaços cósmicos infinitos além do alcance de nossa visão e de nossa análise". Lovecraft poderia ser descrito como um escritor musical devido ao primoroso senso de ritmo que sua escrita apresenta-se ao leitor. Geralmente lento no ínicio, ambientando o leitor a todos os pormenores da história, algumas descrições

tão sucintas e precisas que se assemelham a
staccatos, e por fim um crescendo de insinuações terríveis que remetem a Stravinsky. Ao final uma coda, às vezes nem isso, terminando a música subitamente, exaurindo o leitor de esperanças e deixando na memória as sombras daquilo que acabou de ler (ouvir). A propósito, o conto inédito nessa edição da Hedra trata exatamente da música: Em "
A Música de Erich Zann" a primeira arte funciona como elemento descritivo de sons sobrenaturais e inimagináveis.
Nascido em 1890 nos Estados Unidos, Lovecraft teve uma vida conturbada: teve o pai internado em um manicômio e falecendo poucos anos mais tarde, sua mãe não teve melhor sorte e também sofreu de insanidade mental, apesar de ter nascido em família abastada passou grande parte da vida adulta a míngua, casou-se uma vez mas o matrimônio não evoluiu bem e por fim acabou morrendo sozinho de câncer de intestino. Sua obra veio a lume em revistas pulps entre os anos 30 e 40, mas notoriamente na revista Weird Tales. Durante sua vida nunca foi levado a sério pela "literatura oficial" e não teve o reconhecimento que merecia. Postumamente amigos escritores ajudaram a publicar e fazer notória sua fantástica obra. Alguns desses escritores (August William Derleth, Robert E. Howard, entre outros) até colaboraram para o enriquecimento do que agora é chamado de "mitos de Cthulhu" - muitos dos contos de Lovecraft são correlacionados, tratando de seres extraterrenos que hoje povoam silenciosamente as profundezas abissais. Nesses contos há uma imersão do gênero horror com a ficção científica com uma quê de poesia mórbida, demostrando que o escritor possuía um senso de atualidade incomum aos autores do gênero na época. Muitos desses contos tratam de relatos de homens comuns que por acaso do destino se envolvem em mundo sombrio do qual quase sempre não tem volta, denunciando tacitamente a visão de Lovecraft sobre a humanidade: Para ele somos seres insignificantes, despreparados ou incapazes de compreender os segredos da vastidão cósmica. Talvez por um pensamento análogo aprecio intimamente a obra de Howard Philip Lovecraft.
Para os fãs de literatura fantástica - ou simplesmente fãs de boa literatura - Lovecraft é imprescindível em uma biblioteca. Ainda falta em nosso país uma edição completa ou pelo menos mais abrangente da produção artística do escritor norte-americano, mas dada a carência de títulos do autor é mais que louvável a iniciativa da Editora Hedra. Esperemos que essa ou outra boa editora cogite publicar algo do tipo em um futuro próximo.
Pra finalizar segue um trecho do conto "O que a Lua traz consigo" que representa bem o estilo descritivo, poético e lúgubre de Lovecraft.
E enquanto eu caminhava pelo raso córrego cristalino percebi extraordinárias ondulações rematadas por uma luz amarela, como se aquelas águas plácidas fossem arrastadas por correntezas irresistíveis em direção a estranhos oceanos para além deste mundo. Silentes e suaves, frescas e fúnebres, as águas amaldiçoadas pela lua corriam a um destino ignorado; enquanto, dos caramanchões à margem, flores brancas de lótus desprendiam-se uma a uma no vento opiáceo da noite e caíam desesperadas na correnteza, rodopiando em um torvelinho horrível por sob o arco da ponte entalhada e olhando para trás com a resignação sinistra de serenos rostos mortos.
Título: O Chamado de Cthulhu e Outros Contos
Tradutor: Guilherme da Silva Braga
Editora: Hedra
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