Os demônios de Sam Raimi e Jacques Tourneur



Depois de terminar seu ciclo com as adaptações do herói aracnídeo Sam Raimi dirigiu um filme que remete a seu primeiro sucesso (ainda que mais de reverência cult que de bilheteria): a série Evil Dead. Drag Me to Hell (E.U.A., 2009) é uma volta às suas origens: o horror escatológico e cômico.

Meu primeiro contato com Sam Raimi se deu com o segundo filme da trilogia Evil Dead. Na época nem sabia que existia um primeiro filme, que logo fui atrás assim que descobri. Apesar de ter assistido em ordem cronológica contrária, a sequência é praticamente um remake do primeiro filme e deste modo não tive nenhum dano de apreciação. Anos depois viria a descobrir que Sam Raimi já havia ensaiado a mesma obra em um curta em Super 8 produzido no ano de 1978 (seu segundo filme na carreira) e já com Bruce Campbell no elenco, na época colega de faculdade. Aliás, esse curta só pude assistir recentemente dada a raridade do material. Gostei bastante do terceiro capítulo, mas ainda prefiro os dois (ou os três se considerarmos o curta) primeiros filmes da série. A inventividade do diretor a partir de um orçamento baixo é de se admirar seja no jogo de câmera, nas gags slapstick mescladas com a escatologia dos giallos dos anos 70, ou mesmo nos efeitos especiais eficientes ainda que muitas vezes ultrapassados. Com um ritmo alucinante Sam Raimi fez a melhor mistura que se poderia ter entre um trem fantasma e uma montanha russa. Nunca antes o riso e susto estiveram tão imediatamente ligados. É essa mesma linha que o diretor procurou imprimir em Drag me to Hell e posso dizer que se não é tão inventivo quanto Evil Dead - na verdade longe disso - consegue com algum sucesso um pouco do efeito que aquela série causou nas platéias.

A história de Drag me to Hell é a clássica história de maldição e o filme procura resgatar e revisitar alguns dos clichês dos clássicos filmes de terror. Duas figuras femininas se duelam nesse filme e é esse duelo que veremos mais que qualquer outra coisa na película. Alison Lohman no papel de Christine Brow trabalha em um banco e se encontra em uma situação difícil: precisa mostrar que pode ser dura quando preciso pra ganhar uma almejada promoção a um cargo superior. Mesmo com dó no coração ela nega a renovação da hipoteca à velha senhora mesmo depois dela implorar de pés no chão. A cigana, interpretada magnificamente por Lorna Raver, se julga desreispetada por ter negada seu desejo; destaca um botão da roupa da jovem e a devolve junto com uma maldição, entregando sua alma de presente a um demônio de nome Lamia (não muito a ver com a Lamia da mitologia grega). Christine começa a sofrer com as investidas de Lamia, e não possui mais que três dias até que o demônio venha resgatar de uma vez a sua alma. Lorna aparece pouco em cena mas é o seu rosto o que vemos de mais aterrador na tela, até por que Lamia, o demônio de forma humano-caprina, é mais insinuado em sombras e efeitos no curso do filme.

O que percebi, especialmente depois do final, é que Raimi faz uma clara homenagem ao clássico filme de horror Night of the Demon(Reino Unido, 1957) do diretor Jacques Tourneur. Sendo um dos meus filmes preferidos no gênero isso me pareceu mais do que claro. Mas fica mais na referência mesmo, pois o clima é totalmente diverso. Tourneur era obcecado pela revolução da psiquiatria e seus filmes, especialmente os produzidos por Val Lewton, prezavam mais pela atmosfera criada pelo efeito psicológico daquilo que não era mostrado e sim insinuado. Em Night of the Demon acompanhamos um psiquiatra renomado, Dr. Holden (Dana Andrews), que se envolve numa trama de assassinato e misticismo colocando em dúvida suas posturas contrárias as superstições, cultos e fenômenos sobrenaturais. Esse mesmo personagem é uma evidente inspiração para o namorado de Christine em Drag Me to Hell, o Dr. Clay Dalton (Justin Long), só que agora apenas como um coadjuvante na história. A versão final da Noite do Demônio foi uma imposição dos produtores e tira muito dessa insinuação de terror característica de Tourneur, mas pode ser emulada de modo eficiente através da dica que coloquei no final desse post*. Mas voltando a Drag Me to Hell percebi também que há uma bela alfinetada nos vegetarianos (dos quais faço parte) e um excesso na repetição de efeitos que mais irritam que assustam. No mais o filme até que funciona como boa reverência ao horror clássico dos anos 50, mas com a habitual escatologia herdada dos anos 70 e 80. Não é um filme de horror "sério" como o que ele com sucesso conseguiu em "The Gift", mas é sem dúvida um belo trabalho de Sam Raimi com a sua marca original que havia se diluído um pouco em anos de estrada. E é pensando nas suas origens que já se insinua uma possível filmagem de Evil Dead 4. Depois de assistir Drag me to Hell me parece que Raimi o fez um tanto para sentir se ainda tem bala na agulha pra produzir mais um filme da série, e na minha opinião já tem todo o aval pra que isso se concretize - só espero que Bruce Campbell volte no papel de Ash pois um Evil Dead sem as suas caretas seria muito frustante.

*Se algum dia se depararem com o excelente filme "Noite do Demônio", de Jacques Tourneur, recomendo que sigam essa dica para uma melhor apreciação (selecione as linhas com mouse pra visualizar):

No começo vemos um homem dirigindo para um casarão. Ele sai do carro, fecha um dos portões da garagem e se dirige para o outro portão. Neste exato momento desligue a televisão/monitor e o sistema de som por exatamente um minuto. Depois ligue novamente. É de suma importância que se faça isso pra que a experiência do filme seja muito mais satisfatória, ainda mais sabendo que essa cena foi uma imposição dos produtores e tira muito do caráter autoral do filme.

A cultura do especismo (e o especismo na cultura)Dois momentos

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